Tudo o que tenho levo comigo – Herta Müller

Tudo o que tenho levo comigo Herta MüllerTudo o que tenho levo comigo“, da escritora romena Herta Müller, talvez seja o livro mais triste que já li. Inspirado em fatos reais, a história se passa na Romênia após o fim da Segunda Guerra Mundial. Leo Auberg é um jovem de 17 anos, homossexual (em um país em que ser gay era crime). Costumava passar suas tardes em encontros misteriosos com outros homens que sequer podiam revelar sua real identidade. Porém, com o fim de guerra, é obrigado a ir para os campos de trabalho soviéticos, como todos os romenos de origem alemã, para reconstruir a União Soviética.

O livro é, em sua maior parte, os relatos de Leo no campo de trabalho – de onde nada de bom pode sair, segundo o próprio. O frio, os maus tratos, o trabalho forçado e, principalmente, a fome são narrados e explicados pela perspectiva de quem os conheceu e vivenciou o horror. Resta ao jovem apenas ter esperança nos livros que lia (posteriormente vendidos em troca de um punhado de sal ou açúcar), nas lembranças de sua infância e na profecia de sua avó: “eu sei que você vai voltar”.

Falando assim, o livro parece clichê, apenas mais um livro sobre a Segunda Guerra. Mas não é. Cada capítulo de “Tudo o que tenho levo comigo” funciona como uma pequena crônica para algum episódio ali contado de forma poética, delicada. Foi este modo de narrar a história que me deixou profundamente tocada, sensibilizada. É de uma melancolia e de uma beleza … Todo o tempo, o leitor não conhece apenas a história de Leo, mas o personagem em toda a sua complexidade, em todo o seu ser. O trecho em que ele conta sobre o nascimento de seu irmão-substituto, por exemplo, revela muito a pessoa em que ele se transforma durante os anos no campo.

Capítulo a capítulo, Leo divaga, filosofa sobre o que é estar ali, o que é preferir a morte às humilhações constantes, o que é morrer de frio, o que é viver com piolhos, chato e doenças. O que mais me chamou a atenção, no entanto, é como o personagem fala sobre a fome – ou melhor, o Anjo da Fome. É uma entidade sempre presente, sempre disposta a lembrar que é para ele que o jovem trabalha, se submete, se arrisca, se humilha. Mesmo depois da volta para casa, a entidade continua presente. Leo desenvolve uma compulsão por comida. Come como se cada refeição fosse a mais importante, a última.

Decidi ler a Herta Müller porque queria ler uma mulher que fosse uma nova autora para mim. Escolhi uma ganhadora do Nobel por pura coincidência. Valeu a pena. “Tudo o que tenho levo comigo” é triste, sim, tristíssimo, mas é bonito, singelo, delicado. E muito, muito, muito bem escrito.

“As coisas duradouras não se desfazem, não precisam de nada além de uma única relação com o mundo, eternamente igual. A relação da estepe com o mundo se faz através da espreita, a da luz através da iluminação, a dos esquilos da terra através da fuga, a da grama através do balançar. E a minha relação com o mundo se dá através da comida”.

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Tudo o que tenho levo comigo

Herta Müller

Companhia das Letras

Tradução: Carola Saavedra

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