Claro Enigma, Carlos Drummond de Andrade

claro enigma carlos drummond de andradeEu não sei por que nem exatamente quando parei de ler poesia. Quando eu era criança, eu gostava muito de ler e de escrever poesias (tenho até uma história curiosa/bizarra sobre um poema que escrevi aos 8 anos e que causou certa comoção entre os coordenadores pedagógicos da escola). Gostava de Cecília Meireles, de Vinícius de Moraes. E gostava de Drummond. Na minha escola sempre tinha a Semana do Encontro Poético. Os alunos passavam o dia lendo poesia para os outros alunos. Qualquer estudante podia se inscrever, independente da idade. E lá estava eu. Aos 13 anos, já aqui em Curitiba, sugeri para a escola organizar um Encontro Poético também. E não é que acataram minha sugestão? Eu até apresentei o evento e declamei “José”, do Drummond, que sei de cor até hoje.

Tudo isso foi para contar que fiquei muito feliz ao voltar a ler poesia. O livro “escolhido” foi “Claro Enigma”, de Carlos Drummond de Andrade. O escolhido está assim entre aspas porque li este livro para o vestibular, já que pretendo voltar à academia (sei que todo ano falo isso, mas agora vai, gente!). Os poemas de “Claro Enigma” são densos, tristes. O poeta abre o livro com um verso do poeta Paul Valéry –  “Les événements m’ennuient” (Os acontecimentos me entediam) – , verso este que, para mim, define bem o espírito deste livro. No entanto, não é que o poeta goste deste estado de tédio. Está mais para uma revolta interna diante daquilo que o entedia.

Quando penso em “Claro Enigma”, penso em algumas palavras: desilusão, a pequenez do homem, saudade, amor (mas um amor finito), Minas Gerais. Todos esses elementos estão presentes. Fiquei muito tempo pensando em um poema em especial, “A Mesa”. Toda vez que o leio, me emociono. Retrata a saudade da família, o passar o tempo, o amadurecimento, os erros cometidos ao longo da vida, as lições que aprendemos. É lindo.

Escolhi um poema para encerrar este post:

Um boi vê os homens

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm

e correm de um para outro lado, sempre esquecidos

de alguma coisa. Certamente, falta-lhes

não sei que atributo essencial, posto que se apresentem nobres

e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,

até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam

nem o canto do ar nem os segredos do feno,

como também parecem não enxergar o que é visível

e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes

e no rasto da tristeza chegam à crueldade.

Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se

a um simples baixar de cílios, a uma sombra.

Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,

e como neles há pouca montanha,

e que secura e que reentrâncias e que

impossibilidade de se organizarem em formas calmas,

permanentes e necessárias. Têm, talvez,

certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem

perdoar a agitação incômoda e o translúcido

vazio interior que os torna tão pobres e carecidos

de transmitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme

(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no

                                                                                                        [campo

como pedras aflitas e queimam a erva e a água

e difícil, depois disso, é ruminarmos nossa verdade.

 

_____

Claro Enigma

Carlos Drummond de Andrade

Companhia das Letras

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s