À Espera dos Bárbaros, J.M. Coetzee

esperadosbarbarosNo dia 15 de abril, tive a oportunidade de assistir a uma conferência do escritor sul-africano J.M. Coetzee aqui em Curitiba, como parte do projeto Conversa Entre Amigos. Na ocasião, o escritor falou sobre a censura no regime do apartheid  e leu um trecho de seu “À Espera dos Bárbaros”. Achei tão excelente que decidi ler este livro.

“À Espera dos Bárbaros” narra a história de um magistrado – sem nome – de um calmo vilarejo até a chegada do Corenel Joll, que veio da capital para investigar uma ameaça de invasão de uma tribo bárbara ao local. Em meio a investigações e interrogatórios violentos, o magistrado passa a manter em sua casa uma moça bárbara, cega, que perdeu o pai.

A partir deste seu relacionamento com esta mulher, que não chega a ser amoroso, e das práticas cruéis, desumanas de Joll em sua missão, o magistrado começa a sentir certo desconforto. E, dia após dia, vai criando coragem para desafiar a ordem da capital e questionar, de fato, quem é a parte bárbara dessa história, desse conflito. No entanto, o magistrado é só em seu questionamento, em sua revolta. E, como tal, sofre sozinho as consequências de erguer sua voz contra a maioria, como acontece em qualquer regime autoritário.

O livro é, obviamente, uma crítica ao apartheid. O mais interessante, no entanto, é como Coetzee utiliza a solidão de seu protagonista para analisar à fundo todo o cenário pessoal e político vivido pelo personagem (não conheço profundamente a obra de Coetzee, mas protagonistas solitários parecem ser uma constante em sua obra). O seu relacionamento sexual com a tal mulher – ou a falta dele – leva o protagonista a refletir sobre o envelhecimento, as mudanças de seu corpo, sua virilidade. As torturas que vê e que sofre, este sentimento de “estar no limite” levam o magistrado a desejar viver mais um dia, a vencer as humilhações do corpo que não aguenta a violência e o próprio ato de envelhecer. E foi com esta ânsia de passar por mais um dia que o vilarejo fictício deste livro e a bem real África do Sul sobreviveram.

“À Espera dos Bárbaros” é o livro de Coetzee de que mais gostei até agora (dele li também “Desonra” e “Homem Lento”). É angustiante. As cenas de tortura são fortes, impactantes. Lembro de ter ficado bem introspectiva – mais que o normal – enquanto lia este livro. Pensei muito sobre a vida, sobre como é importante ter mais um pouquinho de força, mesmo quando a gente acha que ela já está esgotada.

“Dormir já não é um banho curativo, uma recuperação das forças vitais, mas um esquecimento, um roçar noturno com a aniquilação”. 

P.S.: comentário desnecessário do dia: Coetzee é um senhor muito bem apessoado.

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“À Espera dos Bárbaros”

J.M. Coetzee

Companhia das Letras

Tradução: José Rubens Siqueira

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