As Agruras do Verdadeiro Tira, Roberto Bolaño

as agruras do verdadeiro tira livroInfelizmente, eu (ainda) não conheço muito da obra de Roberto Bolaño. Vou lendo os livros que aparecem, que compro conforme as oportunidades ou casualidades surgem. Mas é um autor que, certamente, gostaria de estudar mais. Enfim, o livro da vez do Bolaño é “As Agruras do Verdadeiro Tira”, publicado recentemente pela Companhia das Letras.

O livro traz Oscar Amalfitano, um professor universitário cinquentão que se descobre homossexual e tem um caso com um aluno, o jovem poeta Padilla. Quando os demais professores descobrem suas aventuras amorosas, Amalfitano é expulso da universidade e, diante da impossibilidade de conseguir um novo emprego, se vê obrigado a se mudar, com sua filha adolescente Rosa, da Espanha para o México. Ali, ele passa a trocar cartas com Padilla, refletindo sobre sua recém descoberta homossexualidade. É no novo país em que Amalfitano também pensa sobre toda a sua vida como professor, tradutor, militante,marido e pai.

“As Agruras do Verdadeiro Tira” é um livro póstumo, organizado e publicado a partir de textos encontrados no computador de Bolaño. E, por isso mesmo, é enigmático. E é muito interessante, sobretudo para quem conhece um pouco mais  a obra de Bolaño, ter a oportunidade de ler algo que, provavelmente, nem havia sido revisado pelo autor.

Vale ressaltar que Amalfitano é personagem de outro livro de Bolaño, o “2666” – livro este que ainda lerei. Além dos conflitos de Amalfitano, “As Agruras do Verdadeiro Tira” traz outros personagens, todos importantes para a vida do professor – sua filha Rosa; o escritor francês J.M.G. Arcimboldi; Pancho Monje e os demais personagens de Sonora. Todos vão, cedo ou tarde, se entrelaçando.

Mesmo alguém que não conhece a fundo a literatura de Bolaño consegue ter ótimos momentos com “As Agruras do Verdadeiro Tira”. A relação entre Amalfitano e Padilla, seja pessoalmente, seja por correspondência, é muito intensa. E eu queria chegar a este ponto. Tenho um termo para a literatura latino-americana de que gosto muito: faca na barriga. Roubei a expressão de um professor de literatura que tive no colégio (ele a usava para falar do naturalismo, é verdade).

Faca na barriga serve para tudo e todos que exprimem os sentimentos com emoção, com sangue, com suor, com sujeira, com lágrimas, com sexo, com rum, com gritos. Com intensidade. É ao contrário da narrativa sisuda da literatura inglesa contemporânea, por exemplo. Faca na barriga não é, por exemplo, Rachel Cusk e seu “As Variações Bradshaw”, que comentei aqui. Faca na barriga é Pedro Juan Gutierrez. E pode ser, por que não, um escritor mais cerebral, como Bolaño.

“Compreenderam que um livro era um labirinto e um deserto. Que o mais importante do mundo era ler e viajar, talvez a mesma coisa, sem nunca parar”.

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As Agruras do Verdadeiro Tira

Roberto Bolaño

Companhia das Letras

Tradução: Eduardo Brandão

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