Tipos de perturbação, Lydia Davis

tipos de perturbação lydia davisEu sempre brinco que é o livro que me escolhe. Não eu a ele. Acho que foi exatamente isso que aconteceu com “Tipos de perturbação”, da norte-americana Lydia Davis (que, até agora, está confirmada para a Flip 2013). Lá estava eu na livraria, olhei o livro e em um segundo decidi comprá-lo. Minha intuição raramente falha.

Tipos de perturbação” reúne 57 contos. A grande maioria é de narrativas curtas, microcontos (um ou outro é extenso). Seja em uma frase ou em um conto de 30 páginas, Davis retrata acontecimentos comuns do dia a dia, mostrando que a banalidade é o que dá (ou toma) o sentido da vida. Gostei muito de um comentário que li – não lembro exatamente onde – que dizia que Davis nos leva ao nocaute sem a gente nem perceber que subiu ao ringue. Este é um daqueles livros que te fazem pensar por dias. De repente, você se pega angustiado pensando em um dos contos ou em uma das situações propostas por eles. Será que um bebê é capaz de me irritar tanto com seus choros e soluços? Como será que serei quando envelhecer? Como eu realmente me sinto com a morte do meu pai?

Mas eu queria falar mesmo de um conto em especial – Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega. Neste conto, um narrador (não sabemos quem) esmiúça detalhe por detalhe de cartas escritas por crianças do quarto ano a um coleguinha de turma que sofreu um acidente e está no hospital. O estudo analisa absolutamente tudo: a caligrafia de cada aluno, a quantidade de palavras usadas, o tom de cada carta, etc, etc.

O grande barato (ai, que expressão de tia) deste conto é que não sabemos quem é o narrador, muito menos por que ele estuda tão a fundo e de maneira tão fria a carta dessas crianças. Pois eu digo  que eu poderia ser essa narradora. Sim, EU! Adoraria pegar as correspondências que troquei com minhas amigas de infância e relembrar quem nós éramos aos 10, 11, 12 anos e olhar quem nos tornamos. E, confesso, adoraria ler cartas de outras crianças também, principalmente das que se tornaram adultos que eu conheço.

Adoraria reler os diários que escrevi com 7, 8 anos. Lembro de um em que eu não escrevia exatamente o que acontecia no meu dia, mas sim o que as coisas e pessoas significavam para mim. Recordo um texto sobre nossa cadelinha que acabara de dar cria. Vê-la cuidando de seus filhotes foi algo que me marcou muito. Lembro de outro em que eu falava que precisava cuidar do meu primo mais novo. Engraçado, 20 anos depois, ele é quem, de certo modo, cuida de mim.

É um bom exercício ver como o mundo era simples, como nossos maiores problemas eram os presentes de Natal que não ganhávamos, como o mundo era mágico, como era mais fácil acreditarmos em tudo. O que nos leva a perder o encanto? O que nos faz parecer apenas mais um?

Enfim, adoraria reler esses materiais. Pena que os perdi.

***

“Não é que eu ache este seriado sobre policiais do Havaí muito bom. É só porque parece mais real do que minha própria vida”. (do conto Televisão).

__________

Tipos de perturbação

Lydia Davis

Companhia das Letras

Tradução: Branca Vianna

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s