Não, não leremos todos os livros que desejamos

leituras 2Nabokov dizia que um livro não deve ser lido, mas sim, relido. Isso significa, de maneira resumida e um pouco simplória, que a segunda vez é sempre melhor. Provavelmente, uma terceira supere a segunda e assim por diante. Se ele estiver certo, como e, mais importante, quando leremos todos os livros que queremos? A resposta é nunca. Não leremos todos os livros que desejamos.

Nós estamos com as horas contadas nessa vida. Pode ser amanhã, pode ser daqui a 70 anos, mas, cedo ou tarde, teremos o nosso fim. E não importa quanto tempo ainda lhe resta: você nunca lerá todos os livros que deseja. Mesmo que você tenha uma meta relativamente simples, do tipo: “meu grande plano de leitura é ler todos os livros do Nabokov”. A não ser que seu tempo finde, digamos, amanhã ou nos próximos dias, é um objetivo bastante simples de alcançar. Mas eu duvido que você terá lido todos os livros que deseja.

Isso porque ler vicia. Depois de ler todos os livros do Nabokov, talvez você deseje ler livros sobre o Nabokov ou autores parecidos com Nabokov. Ou talvez você enjoe do autor de “Lolita” e deseje ler algo completamente diferente. Sempre nascem novos desejos no coração de um leitor. Sempre.

Sempre há mais um clássico para se descobrir. Sempre há um novo autor para conhecer. Sempre há aquele livro obrigatório, que precisamos ler antes de morrer. Sempre há um bom amigo para indicar um novo escritor, uma nova obra. Seus gostos mudam, suas vontades também. E os seus desejos de leitura provavelmente amadurecerão com você, tal qual acontece com o nosso paladar.

Acho que entendo o que Nabokov quis dizer sobre leitura. Quando abrimos um novo livro, estamos desbravando um novo ambiente. Assinamos um contrato (que pode ser rescindido) no qual afirmamos que estamos dispostos a descobrir algo novo. E toda descoberta pode ser aperfeiçoada. Reli pouquíssimos livros e isso há muito tempo. Há tantos outros que marcaram a minha vida e que gostaria de reler. Fico imaginando o que não percebi na primeira leitura, o que seria diferente agora, o que a minha mente de hoje – que, tenho quase certeza, é melhor que a de ontem – veria, descobriria.

Se quando lemos um livro pela primeira vez estamos tão atentos a tudo que percebemos quase nada, reler talvez seja estar mais consciente, mais desperto, mais calmo. E (quase) tudo que é feito com graça e tranquilidade é melhor ou mais prazeroso.

Talvez Nabokov estivesse certo. E talvez isso signifique menos, menos tempo.

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