Em Busca do Tempo Perdido – Volume 1: No Caminho de Swann, Marcel Proust

no-caminho-de-swannMarcel Proust, o menino de saúde frágil, desejava escrever. Sempre desejou. Deixou para a literatura apenas uma obra que entrou para a história (seus outros dois livros ficaram em segundo plano): Em Busca do Tempo Perdido. E Proust viveu para escrever. Vivia enclausurado para melhor se concentrar em seu romance. Morreu jovem, de pneumonia. Os três últimos volumes de Em Busca do Tempo Perdido foram publicados depois de sua morte.

O tempo, como se pode imaginar, é o tema constante nos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido. Através dele, das lembranças de diversos momentos, o narrador –Marcel – encontra sua própria identidade. Meditando sobre acontecimentos passados, ele entende suas próprias transformações, bem como as daqueles que fizeram parte de sua vida.

Bem, tudo isso é uma pincelada da obra de Proust, autor pelo qual estou cada vez mais obcecada. Mas falemos do primeiro volume do Em Busca do Tempo Perdido. “No Caminho de Swann” é dividido em três partes. Na primeira, “Combray”, o narrador se lembra de diversas situações de sua infância: sua relação de extrema dependência para com sua mãe, a presença de Charles Swann, amigo da família, em sua casa, a descoberta do prazer da leitura. É nesta parte em que encontramos uma das passagens mais emblemáticas da literatura: o protagonista, ao mergulhar sua madeleine em uma xícara de chá, relembra sua infância na cidade de Combray. Na segunda, “Um Amor de Swann”, o narrador conta a saga de Swann e sua obsessão por Odette. Aqui, o autor analisa o amor e o ciúme de maneira bastante pungente. Por fim, na terceira, “Nome de Terras: O Nome”, o protagonista imagina as viagens de seus sonhos e descobre sua primeira paixão – Gilberte, filha de Swann.

Há muito em comum entre a obra de Proust e os estudos de Freud. E é isso o que me fascina. Embora sejam contemporâneos, não tiveram contato entre si. No entanto, toda vez que mencionei que o narrador lembra algo, não significa que ele traga sua lembrança à tona voluntariamente. Ele cede espaço para que o inconsciente possa expressar aquilo que, de algum modo, marcou um período. A voz da primeira pessoa de Em Busca do Tempo Perdido é como a voz de quem se deita no divã e começa a falar (aprendi com a minha psicanalista que cada um fala em seu ritmo próprio, não em ordem cronológica, mas na ordem do nosso inconsciente).

É preciso dizer também que Proust tocou em temas considerados tabus na França do século XIX. Além das críticas ao modo de viver da elite francesa, o homossexualismo é sempre presente. Odette, por exemplo, é uma mulher que, para figurar na alta sociedade, envolve-se com diversos homens e mulheres.

Ainda há seis volumes para descobrir. Porém, uma coisa é clara: buscar o tempo perdido é entender que é possível viver e reviver quantas vezes forem necessárias. É possível voltar à infância. É possível, inclusive, contar acontecimentos nos quais não estivemos presente – como o narrador faz com a história de Swann e Odette, construída a partir do que a ele foi contado. Buscar esse tempo perdido é encontrar a si próprio nos mais diversos períodos.

“Talvez o nada é que seja verdade e todo nosso sonho não exista, mas sentimos que então essas frases musicais, essas noções que existem em função do sonho, não hão de ser nada, tampouco. Pereceremos, mas temos como reféns essas divinas cativas que seguirão a nossa sorte. E a morte com elas tem alguma coisa de menos amargo, de menos inglório, de menos possível, talvez”.

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Em Busca do Tempo Perdido – Volume 1: No Caminho de Swann

Marcel Proust

Editora Biblioteca Azul

Tradução: Mario Quintana

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6 comentários

    1. Sim, ao total são umas 3500 páginas! E não é um livro fácil de ler, confesso. Tentei aos 17 anos e desisti. Ainda não estava pronta. Agora, gostaria de poder ler todos de uma só vez. Mas como ficam as demais leituras, né?

  1. Nossa, eu também gostei do seu blog… e muito! Sou apaixonada por leitura desde od 6 anos de idade… aliás, aprendi a ler sozinha tal a vontade de entrar para o mundo dos livros… e meus melhores amigos também são serial-readers… bem vinda ao time!

  2. É uma obra fascinante. Ainda vou começar o terceiro volume, mas tanto O Caminho de Swan e À Sombra Das Raparigas Em Flor fazem parte dos meus favoritos. E o tempo é realmente um elemento determinante na obra, sendo que o Proust, com o Kafka e o Joyce, é um dos responsáveis por revolucionar o tempo na literatura.

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