A Última Quimera, Ana Miranda

a última quimera ana mirandaNo ensino médio, o poeta parnasiano / simbolista / pré-modernista Augusto dos Anjos é pouco mencionado e estudado. Porém, é bem difícil não se impressionar com o seu poema “Versos Íntimos”, talvez o único item de sua trajetória que estudamos na época escolar (é do que me lembro, pelo menos, e desde os 17 anos sei este poema de cor e salteado). A escritora Ana Miranda, conhecida por recuperar a história de alguns escritores importantes da literatura brasileira, resgata a vida e a obra de Augusto dos Anjos no romance A Última Quimera.

Neste romance histórico, Ana Miranda mistura ficção e realidade para retratar elementos bem pessoais da vida de Augusto dos Anjos (não se trata, portanto, de um estudo de obra). O narrador é um amigo de infância do poeta, e, ao saber da morte do artista, volta ao passado para lembrar e contar a trajetória de Augusto – seus primeiros anos na Paraíba, seu casamento com Esther (por quem o narrador é apaixonado), a mudança para o Rio de Janeiro, as tentativas de publicar seus livros, as crises financeiras, os abortos sofridos pela esposa, o não reconhecimento de seu talento.

A autora também traça características importantes dos costumes do Rio de Janeiro do começo do século XX e dos embates literários da época. De maneira sutil, Ana Miranda mostra como a Revolta da Chibata e a influência da cultura francesa, apenas para citar alguns exemplos, impactavam a sociedade carioca.

Página após página, até o leitor menos familiarizado com as escolas literárias brasileiras entende por que a poesia de Augusto dos Anjos foi pouco compreendida e mal vista na época. O principal nome da poesia brasileira era Olavo Bilac, parnasiano. Este, com sua poesia baseada na “forma”, era bem aceito pela crítica e pela alta sociedade, viajava constantemente à França, era rico e extrovertido. Já Augusto dos Anjos vivia modestamente, era introvertido. Sua obra trazia dor, descontentamento, um pessimismo e uma força sentimental que não se via na poesia racional dos parnasianos. No começo de A Última Quimera, o narrador encontra Bilac na rua, comunica a morte do poeta – de quem o parnasiano nunca ouviu falar – e lê para ele “Versos Íntimos”. E é óbvio que Bilac não se impressiona com tais versos. “Pois se quem morreu é o poeta que escreveu esses versos, então não se perdeu grande coisa”, diz Olavo Bilac ao narrador.

Esse episódio mostra o quão longe Augusto dos Anjos estava de ser compreendido e o caro preço que pagou por fazer algo que não se classificava – uma vida de frustrações. E esta é outra questão importante sobre Augusto dos Anjos. Afinal, ele era parnasiano? Simbolista? Pré-modernista? Ou, simplesmente, não se encaixava em nenhuma categoria?

Já o narrador de A Última Quimera não é simplesmente um contador de história. É também um personagem que está integrado à vida de Augusto dos Anjos: também ele abandona a Paraíba para viver no Rio de Janeiro, se apaixona pela mulher do poeta, rompe um noivado, cuida de uma amiga de infância perdidamente apaixonada por ele.  Temos, então, um narrador-personagem que conta a história segundo seu ponto de vista, de modo totalmente parcial e de acordo com suas impressões sobre o poeta. E o narrador é em quase todo o livro um personagem muito maior do que Augusto dos Anjos, pois vive uma série de conflitos próprios, que são explorados ao longo da obra.

Vejo A Última Quimera como uma espécie de homenagem a Augusto dos Anjos. Pessoas visionárias, que não têm medo de experimentar, de ser e fazer diferente, têm todo o meu respeito. E, embora Augusto dos Anjos seja muito mais do que “Versos Íntimos”, é com este poema que encerro.

Versos Íntimos

 

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!

 

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

 

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!

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A Última Quimera

Ana Miranda

Companhia das Letras

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