Afinal, por que lemos?

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Qual é o poder dos livros e da literatura em nossa vida? Eles – e a arte de um modo geral – são capazes de influenciar a existência de uma pessoa? E as expressões artísticas possuem este propósito? Nascem com esta intenção?

Sinceramente, não sei as respostas. Não sei se existe uma verdade única e absoluta para essas questões. Mas deixem-me contar uma história.

Quando eu tinha 11 anos, minha família se mudou para Curitiba. Deixar minha cidade foi uma experiência bastante difícil. Afinal, eu tinha minha casa, minha escola, meus parentes, meus amigos, o teatro. Eu tinha tudo e partia para o total desconhecido. Entrei em depressão. Na escola, eu simplesmente não conseguia falar com ninguém. Não conseguia me interessar por nada. Me sentia sozinha no mundo.

Talvez tenha sido esse sentimento que me aproximou do livro Sozinha no Mundo, de Marcos Rey, parte da incrível coleção Vagalume. Não me lembro exatamente da história, mas era algo como uma menina – também de uns 11 anos – que havia perdido os pais e se encontrava, de fato, sozinha no mundo. E, de algum modo, a menina encontrou sua felicidade na vida. Este livro me inspirou – no auge da minha sabedoria de pirralha – não apenas a tentar um recomeço, mas também a ler as demais publicações da Vagalume (que, aliás, deveria ser altamente recomendada para os pré-adolescentes).

Lila Azam Zanganeh diz em seu O Encantador – Nabokov e a Felicidade que nós lemos para reencantar o mundo. É verdade. Eu iria além. Eu leio para reencantar o meu mundo, a minha vida, o meu ser. Toda vez que inicio um novo livro (ou que vejo um filme ou que ouço uma música), mergulho não apenas naquilo que o autor propõe. Mergulho em mim mesma. Sofro este reencanto. Foi o que aconteceu, por exemplo, durante minha leitura de O Encontro Marcado, do Fernando Sabino (e essa é uma experiência bem especial, visto que encontrei Sabino quase no minuto exato de sua morte, como uma dessas conspirações do universo). Neste livro, que fala sobre a coragem de sair e viver a vida, eu me reencontrei. Mas veja bem, essa é a minha verdade, o meu mundo. Talvez o seu seja completamente diferente e que, para você, eu esteja aqui escrevendo (estou pensando e escrevendo tudo isso durante um voo) um monte de besteiras. Paciência.

E em nossa posição do leitor, nos tornamos co-autores, no sentido de que cada um dá para uma obra o significado que imagina, que lhe parece óbvio, crível, interessante, conveniente. Porque é bobagem escrever acreditando que despejará verdades sobre o outro. E mais bobagem ainda é escrever (ou manifestar qualquer tipo de expressão artística) simplesmente para exibir o seu “dom criativo”, o seu “talento”. Realmente acredito que o artista cria, sobretudo, para tirar algo de dentro de si. E, a partir do momento em que chega ao outro, sua obra pode ganhar infinitos significados. Toma vida própria.

Enfim, estou, literalmente, viajando aqui.*

Na falta de saber como terminar este texto (eu queria mesmo era só lançar umas ideias aqui), finalizo com um trecho do maravilhoso O Encontro Marcado:

    “Ele faria da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”

*Texto escrito em 18/09/2013, em um voo São Paulo-Aracaju.

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1 comentário

  1. Olá Carla,

    frequentemente esses pensamentos e reflexões vêm de assalto em minha mente. Ler é uma das minhas atividades preferidas, e me sinto privilegiado em ter acesso ao conhecimento e perícia que pessoas de todas as épocas nos forneceram como legado. Mas às vezes me vejo pensando: “por que estou lendo isso aqui? Eu poderia estar fazendo outras coisas…” (tá, quase sempre é uma desculpa pra continuar a leitura em detrimento de outras atividades…. hahahahahahahahah), e me faz despertar pra necessidade (pelo menos da minha perspectiva) de ter consciência do papel da leitura no mundo;

    Cada livro me permite adentrar num mundo novo, no qual personagens, narrativas e enredos me fazem perceber até as pequenas coisas da vida com a sua devida beleza e importância, mas tenho procurado me relacionar de forma prudente com a literatura e as coisas que leio, para não me sentir, de certa forma, dependente de um hábito tão bacana e revelador de mim mesmo quanto a arte de ler.

    Foi o que eu consegui pensar nesse instante. Acho que é algo que vai me “incomodar” enquanto eu tiver a oportunidade de ler livros, mais livros (parafraseando o título do blog. :D)

    Até !!

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