Barba ensopada de sangue – Daniel Galera

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“Barba ensopada de sangue”, do gaúcho (e fã do John Frusciante) Daniel Galera, chegou à minha estante fruto de uma troca por outro livro, de cuja transação não participei. E, já que cá estava, por que não ler um dos mais bem comentados livros brasileiros dos últimos anos? Há toda uma badalação em torno de Galera que me deixava desconfiada, mas esse não era motivo para não arriscar. E 422 páginas e algumas semanas depois, arrisco dizer que “Barba ensopada de sangue” tinha tudo para ser um grande livro. Mas não é.

O livro gira em torno de um professor de educação física que, após o suicídio do pai, muda de Porto Alegre para Garopaba, no litoral catarinense, em busca de um isolamento, que não é apenas geográfico, mas, sobretudo, emocional. Garopaba é também a cidade onde seu avô passou parte da vida e foi morto em circunstâncias jamais explicadas. Então, o protagonista decide investigar o assassinato do avô ao mesmo tempo que, sem querer querendo, se integra à nova cidade.

Galera apresenta um herói instigante, perdido em todos os sentidos de sua vida. Ele poderia ser feliz no plano amoroso, mas sua mulher o trocou pelo seu irmão. Ele poderia ser um triatleta de algum sucesso, mas acaba como professor de natação de alunos sem muito talento para o esporte. Isolar-se em Garopaba e buscar uma solução para a morte do avô parece ser um modo inconsciente de buscar algum sentido para a própria vida. Isso pode ser percebido já nas primeiras páginas.

O problema é que as páginas de “Barba ensopada de sangue” iam passando e eu não conseguia acreditar no protagonista sem nome. A narrativa é apática, não convence. E, portanto, não envolve. Não dá para acreditar, por exemplo, que o protagonista fica abalado com o incidente envolvendo a cachorrinha Beta. Não dá para acreditar que há diferença entre o que ele sente por Dália e pela prostituta de Pato Branco (ou pela aluna de corrida). Numa tentativa de construir um personagem apático ou amargurado, o autor construiu um livro apático.

Além disso, existem diálogos e passagens que pouco ou nada contribuem para a trama e personagens que somem do mesmo jeito que apareceram – sem explicação. Um em especial, a Jasmim, me chama a atenção por ser insustentável. Ela é mestranda em Psicologia e, também, recepcionista em uma agência de turismo (quando ela faz suas pesquisas, não sei). Não vou entregar mais do que entreguei, mas tudo nela é muito contraditório.

Talvez o que tenha agradado tantos leitores sejam as discussões e reflexões que o livro levantou, como o mal-estar em viver, seja do pai, seja do filho, e todas as questões existencialistas que permeiam o protagonista. É preciso levar em consideração, no entanto, que existe diferença entre gerar reflexões (como magistralmente fez Tabucchi em “O tempo envelhece depressa”) e lançar uma ou outra frase de efeito. Parece que, inclusive, Galera traz um ou outro personagem apenas para jogar um ponto de vista, uma filosofia de vida – o que explicaria o que aponto no parágrafo anterior. Fica a sensação, na maioria das vezes, de uma superficialidade nessas discussões.

“Barba ensopada de sangue” é um livro que nada, nada e morre na praia. Não é um livro de todo ruim, mas não é bom. E, me desculpem os fãs, mas está longe de ser um grande livro.

[Hoje não tem uma citação porque esqueci de anotá-lá no meu Moleskine].

—————-
Barba ensopada de sangue
Daniel Galera
Companhia das Letras

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4 comentários

  1. Carla!
    Primeiramente… curti o novo template!!
    (semana passada tb troquei o layout do meu hehe)
    Como de costume, entrei aqui pra ver atualizações… Eis que vejo o BARBA cuja leitura estou em andamento (final). Foi a nossa escolha para o encontro de novembro do Clube de leitura companhia de papel – em Santa Maria-RS.
    Daí que fui lendo tua resenha – linha a linha – espiando pra evitar frustrar-me com algum spoiler hehe Mas não… você foi justa! Criticou na medida sem prejudicar futuros leitores – também movidos pelo clamor dos blogs e editoras, talvez nem tanto pela história.
    Acho que minha opinião esteja caminhando no mesmo sentido que tu abordou….
    Confesso que esse ´nadar e nadar` – até os dois terços que li – me enche de expectativas, mas temo o ´´morrer na praia“.. Mas faz parte… De qualquer sorte, nós gaúchos nos identificamos MUITO com as descrições e detalhes dos personagens, costumes e ambientes. hhehehe
    Bjo 😀

    1. Agora, sim! Terminado o livro e feito o debate, consigo traçar uma opinião mais concreta heheheh
      Acho que o Galera conquistou um espaço diferenciado na literatura nacional, porque inova em muitas coisas. O que mais gostei é a fluidez dos diálogos.. quase como Saramago, mas mais natural.
      Um beijo!

  2. I really enjoyed the book, but I definitely connected more emotionally with Mãos de Cavalo. But I did resonate with the book’s “openness,” the way the characters appear and vanish without much ado or commitment to bringing them back. I would assume that this would get on my nerves or be unsatisfying, but it wasn’t. But I don’t know. I think of the novels of Javier Marías, who is excellent at not discarding images or characters and instead always bringing them to a magisterial (I like this word of yours) conclusion. And again, I connected more with Mãos de Cavalo as whole, but for me, the protoganist of Barba is Galera’s strongest. I don’t see his attitude as apathetic. I don’t know what it is, but there’s a certain world weariness to it, a certain stoicism (but not cynicism) that is, to me, very convincing. I feel like there are many people of the protagonist’s age who are in similar conditions. They are, in several ways, failures, in very real ways. I think of Bill Murray’s character in Lost in Translation.

    I just found your blog tonight–I love it!

  3. Foi das leituras que tive mais guiada pela disciplina do que pelo desejo de ler. Diálogos sem continuidade, grande contexto emocional (mas sem aprofundamento em questões psicológicas) e um excesso de descrições que cansou a narrativa. Achei superficial para o enredo e muito abaixo do que li sobre ele e da sua boa recepção pela crítica.

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