A Casa do Silêncio, Orhan Pamuk

a casa do silêncio orhan pamukEstamos em uma cidade do litoral da Turquia, em meio à Guerra Fria. Em uma mansão aos pedaços mora Fatma, uma viúva de 90 anos, com seu criado, o anão Recep. No verão, ela recebe a visita de seus netos: o historiador Faruk, a estudante de Sociologia Nilgün e o estudante Metin. Os três não reconhecem Hasan, sobrinho de Recep, com quem eles brincavam na infância e que se tornou um jovem ultranacionalista. É neste contexto em que Orhan Pamuk nos conduz em seu “A Casa do Silêncio”, de 1983, mas publicado somente agora no Brasil pela Companhia das Letras.

Múltiplos narradores não é uma exclusividade de “Meu Nome é Vermelho”. Reflexões sobre a Turquia, sua história e sua política, e sobre a vida também aparecem em “A Casa do Silêncio” com força, como em toda a obra de Pamuk. Cada um dos narradores existe e narra cada qual uma parte da história para mostrar um modo de vida, de viver e contemplar a Turquia.

Fatma 

É o tradicionalismo e conservadorismo turco. É a vida guiada pelos mandamentos de Alá, sem direito a dúvidas, a questionamento. É a total incompatibilidade com seu marido, o Dr. Selâhattin, que descobre que Alá não existe, que escreve uma enciclopédia para contar à humanidade todas as verdades do mundo e que tem um relacionamento extraconjugal, do que nascem Recep e Ismail.

Recep

É o viver no passado e na imaginação, a passividade, a incapacidade de mudar diante de uma vida de frustrações. Ao mesmo tempo, é a possibilidade de amor, de um amor passivo, servil.

Faruk

O apego à história, a busca de explicações no ontem para o que acontece hoje, seja para a Turquia, seja para sua vida. E é o ignorar (ou fingir ignorar) as respostas que são bastante claras.

Metin

Ódio a sua condição, que está aquém da de seus colegas. O sonho americano, a ocidentalização de sua vida.

Hasan

Obsessão. Por mudar de vida, por suas ideias políticas, por Nilgün. Uma vítima (?) de suas origens humildes.

“A Casa do Silêncio” é construída, na verdade, por personagens cheias de ideias e sentimentos para compartilhar. É como se cada um deles deitasse ao divã (ou recorresse a uma espécie de viagem sem volta, como diz Fatma) para tirar de si tudo aquilo que está preso, causando um pesar em suas almas. E é nesse escancarar de coração que Pamuk mostra o quão bom e o quão vil o ser humano – um mesmo ser humano – pode ser. E o domínio de todas essas vozes é extraordinário. As conclusões às quais chega Hasan em diversos capítulos ou o capítulo em que Metin conta com todos os seus hormônios de adolescente e com um único ponto final ao longo de 12 páginas sobre sua noite em uma festa são exemplos de que Pamuk é mestre em construir personagens com profundidade, em saber dar a eles a linguagem e o tom corretos.

É um livro tristíssimo, de pessoas em crise, em conflito, à beira de algum tipo de colapso. De pessoas que sabem que não há outra vida, outra viagem, além desta e que, por isso, se agarram ao que têm e vivem como conseguem. Embora Pamuk seja conhecido por ser um grande pensador sobre todas as questões políticas, religiosas e sociais da Turquia, na verdade ele é um grande pensador sobre a humanidade, sobre as pessoas, como ele mesmo afirma nessa entrevista concedida à Folha.

“Engraçado: às vezes, embora sentindo vergonha, tenho vontade de fazer mal aos outros para que percebam a minha existência, assim eu os castigaria e eles não se deixariam mais tentar pelo diabo e talvez tivessem medo de mim”.

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A Casa do Silêncio

Orhan Pamuk

Companhia das Letras

Tradução: Eduardo Brandão

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