Roberto Saviano: a força das palavras

Roberto SavianoOntem, passeando na Livraria Cultura, me deparei com o livro “Zero, Zero, Zero”, do jornalista e escritor italiano Roberto Saviano. Talvez você se lembre dele por causa do “Gomorra”. Com apenas 25 anos, Saviano se infiltrou na Camorra, máfia napolitana que controla o tráfico de drogas, pirataria de artigos de grife e a indústria da coleta de lixo, e escreveu um livro em que desmascara a a organização.  Por causa deste livro (que virou filme, um excelente filme, por sinal), Saviano foi “proibido” de retornar a Nápoles – sua cidade natal – , como se isso fosse possível. Mas é. E mais do que isto: Saviano está jurado de morte pela Camorra. Desde 2006, ele não tem casa fixa, não pode se relacionar com sua própria família, não pode formar sua própria família, não pode viver de acordo com aquilo que nos garante a lei.

Ainda assim, Saviano continua escrevendo. Escreve por dois motivos:

1) Sabe que não há força maior do que a das palavras. Sabe que seu trabalho leva a verdade sobre diversos problemas (quase todos ligados às máfias italianas) de seu país. Sabe que suas palavras dão coragem a quem não a tem em um país corrupto, que força as pessoas a permanecerem na ignorância (mais ou menos como o nosso país).

2) Sabe que, enquanto ele escrever, enquanto ganhar atenção da imprensa, permanecerá vivo. A Camorra já errou ao assassinar pessoas que estavam no auge da luta contra a máfia italiana. Toda a opinião pública rapidamente se vira contra a organização criminosa. Ou seja, quando Saviano não obtiver mais atenção, quando ele cair no esquecimento, a Camorra cumprirá sua promessa. Ele mesmo sabe disso e o afirma, como uma sentença. Escrever tornou-se, portanto, uma questão de sobrevivência.

Ele lançou, desde então, alguns livros: “O Contrário da Morte”, que também traz o sul da Itália como mote principal; “A Beleza e o Inferno”, publicado no Brasil pela Bertrand, traz uma série de crônicas com tom de denúncia e análise social (há uma crônica linda sobre Lionel Messi, que tem uma linda história de vida); ” A Máquina da Lama”, coletânea de suas falas do programa “Vieni Via Con Me”, em que o jornalista fala sobre diversos problemas italianos que, geralmente, são varridos para debaixo do tapete; E, agora, “Zero Zero Zero”, em que Saviano analisa profundamente o tráfico de cocaína pela Europa e o aponta como a salvação de muitos dos bancos ingleses e alemães, já que muitas instituições financeiras estão diretamente ligadas com organizações criminosas. Este deve ser lançado, em breve, pela Companhia das Letras – mas aqui no Brasil já é possível encontrar a edição italiana, que foi a que vi na Cultura.

Além dos livros, Saviano participa de inúmeros eventos literários e programas de TV, e mantém ativa sua página no Facebook.

Roberto Saviano é, provavelmente, a pessoa que mais respeito neste mundo.

Abaixo, um pequeno texto que escrevi sobre ele e seu “Gomorra” em outubro de 2010.

***

Gomorra  é um livro corajoso. Nele, Saviano (na época, um cara da minha idade) denuncia todo o funcionamento da Camorra – máfia italiana originária de Nápoles – em suas ações junto ao tráfico de drogas, à falsificação de roupas e sapatos de grife, à indústria cimenteira do sul da Itália. E, de repente, a Camorra, que era notícia apenas na Campania, passa a ser notícia mundial. O livro virou filme (o excelente Gomorra, de 2008, que só não ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro por uma injustiça sem tamanho – não foi sequer indicado). E muitos chefes dos principais clãs da Camorra foram presos, julgados e condenados desde a publicação de livro.

E, assim, qualquer pessoa pensaria: “Esse Saviano é um herói”. Qualquer pessoa, menos os italianos, sobretudo, os napolitanos. Silvio Berlusconi e muitos outros políticos querem a cabeça de Saviano. Grande parte da população italiana também o despreza. Para estes, Saviano manchou a honra da Itália. Manchou a honra da Itália ao falar a verdade.

Desde 2006, Saviano está jurado de morte pela Camorra. Desde 2006, Saviano vive sob escolta. Desde 2006, Saviano mal pode encontrar seus familiares e amigos, pois a ameaça da Camorra é dirigida a qualquer pessoa que tenha com ele qualquer relação. Desde 2006, Saviano é persona non-grata em Nápoles – sua terra natal. E desde 2006, Saviano usa o poder da palavra para contar ao mundo algumas verdades – e não somente verdades sobre a Itália. E são verdades que nos fazem enxergar quanta corrupção há no mundo, quanta injustiça há no mundo.

É praticamente uma guerra psicológica. Saviano convive não com o medo da morte, mas com o medo e a dor daquilo que pode causar aos que lhes são queridos. E, do outro lado, há o medo do poder das palavras e da verdade. Talvez, eu possa parecer ingênua, mas eu sempre, sempre vou acreditar que a verdade prevalecerá e que haverá justiça. Eu me sinto envergonhada por não fazer nada com este valor (tento cumprir meu papel de cidadã, mas, para mim, não parece suficiente). Sei que não é fácil ser um Saviano. Mas é preciso. E o respeito demais. Nosso respeito talvez seja o que lhe dê força.

***

Indicações:

Vieni Via Con Me: uma série de TV em que Roberto Saviano e o jornalista Fabio Fazio recebem personalidades italianas para debaterem os problemas da Itália.

Entrevista de Saviano ao programa Milênio, da Globo News

Saviano Racconta Saviano: documentário em que Saviano conta a sua história.

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