Zazie no Metrô, Raymond Queneau

zazie-no-metro_Publicado em 1959, “Zazie no Metrô”, do francês Raymond Queneau, tornou-se um sucesso de crítica e de público. As razões são as mais variadas: a inovação linguística, o retrato de uma Paris pouco conhecida, uma heroína e personagens nada convencionais. É uma história tão singela, tão pitoresca e que, ao mesmo tempo, revela muito sobre o pensamento e o comportamento da Paris dos anos 1950.

Zazie é uma menina de 12 anos que vai passar alguns dias em Paris, na casa de seu Tio Gabriel. Lá ela só tem um desejo: andar de metrô. Porém, as linhas de metrô estão em greve. A menina não se conforma com a greve, muito menos com os programas sugeridos pelo tio e foge de casa na esperança de conseguir, de algum modo, andar de metrô. Então, ela se mete em altas confusões. Sim, o livro tem um quê de filme de Sessão da Tarde.

Mas “Zazie no Metrô” é muito mais profundo e emblemático. Em primeiro lugar por causa da própria Zazie. Ela é uma garota que já viveu muito mais do que a maioria das meninas desta idade vivem (contar aqui as aventuras e desventuras de Zazie é estragar as surpresas do livro). Ela é desbocada, fala palavrões, não tem respeito algum por pessoas mais velhas apenas porque são mais velhas. Sua mãe não faz muita questão de esconder sua vida amorosa; seu tio Gabriel é dançarino de cabaré. A Zazie me lembra Alice. Sua chegada a Paris é igual a chegada de Alice no país das maravilhas. Ambas encontram personagens que podem ser perigosas, mas com quem travam conversas filosóficas, com quem debatem sobre a vida. E fica, claro, a cargo do leitor perceber a profundidade de cada uma dessas passagens.

O livro é repleto de neologismos, de palavras escritas de acordo com sua fonética. Com isso, Queneau leva os leitores para um lugar mais próximo da língua falada, ou seja, a junção do texto com a língua falada transporta o leitor para mais perto da realidade daquela Paris que Zazie conhece. E não é, a princípio, a Paris dos turistas (o próprio tio de Zazie desconhece os pontos turísticos).  É a Paris dos subúrbios, de gente comum – o tio dançarino, o motorista de táxi, o sapateiro, a viúva.

“Zazie no Metrô” consegue falar de temas difíceis e retratar temas difíceis, como pedofilia, homicídios, homossexualidade de uma maneira leve e divertida. O leitor diverte-se, sim, com as aventuras de Zazie. No final, porém, é obrigado a se dar conta de que não é uma vida exatamente divertida. A fala final da garota, quando a mãe pergunta o que ela fez em Paris, resume todo o peso deste livro.

Uma observação: que maravilhoso esse projeto gráfico da CosacNaify para “Zazie no Metrô”. Como sempre, a editora publicando livros que a gente faz questão de ter na estante (daí a minha resistência com os e-books).

“ – O ser ou o nada, eis o problema. Subir, descer, ir vir, tanto faz o homem que por fim ele morre. Um táxi o leva, um metrô o transporá, a torre não presta atenção nele, nem o Panthéon. Paris não passa de um devaneio, Gabriel não passa de um sonho (sedutor), Zazie o devaneio de um sonho (ou de um pesadelo) e toda essa história de devaneio de um devaneio, o sonho de um sonho, pouco mais que um delírio batido à máquina por um romancista idiota (ai! Desculpa)”.

 

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Zazie no Metrô

Raymond Queneau

CosacNaify

Tradução: Paulo Werneck

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