O Amor de uma Boa Mulher, Alice Munro

o amor de uma boa mulher alice munro nobelSe não fosse o Nobel de Literatura 2013, provavelmente teria passado o ano – e, quem sabe, quantos mais – sem conhecer Alice Munro. Foi por causa do prêmio que resolvi pesquisar um pouco mais sobre a autora e escolhi, para começar, “O Amor de uma Boa Mulher”, publicado em 1998 e lançado neste ano pela Companhia das Letras.

São oito contos em que a figura feminina está no foco.  Temos, em cada um dos contos, mulheres nas mais diferentes idades e condições de vida: bebês, crianças, jovens, adultas, senhoras. Todas têm em comum o fato de fugirem à imagem atribuída inúmeras vezes às mulheres dos anos 1940 e 1950 (época em que os contos são ambientados): filhas perfeitas, educadas, jovens esposas que esperam o marido voltar da guerra, perfeitas donas de casa. São mulheres que se mostram, acima de tudo, humanas, cheias de dúvidas, de contradições, de imperfeições. Alguns exemplos:

– A narradora do último conto, “O sonho de mamãe”, narra como ela e sua mãe não desenvolveram uma ligação especial de mãe e filha quando esta era uma recém-nascida.

– Karin, a pré-adolescente de “Podre de rica”, deseja parecer uma prostituta em uma viagem de avião para reencontrar sua mãe.

– Pauline, a protagonista de “As crianças ficam”, casada, mãe de duas garotinhas, é convidada para integrar um grupo de teatro amador e se distancia do seu papel de “mulher de família”.

A narrativa de Alice Munro é incrível. A escritora simplesmente arrasta o leitor para dentro de cada conto. O primeiro deles, justamente “O amor de uma boa mulher”, começa quando três meninos de uma cidadezinha canadense descobrem um carro com um corpo. O leitor deseja descobrir quem é o morto, como sempre acontece nas histórias policiais. E é aqui que mora a genialidade de Alice Munro. O achado dos três garotos é apenas o ponto de partida para uma discussão muito mais ampla, muito mais profunda, muito mais além do que a resolução de um mistério policial.

Munro também dirige a atenção do leitor para personagens secundários para revelar traços importantes dos principais. É o que ela faz em “Jacarta”. Neste conto, temos dois casais: Kath e Kent, Sonje e Cottar. Ao focar boa parte do conto em Kath e Cottar, ela trata, na verdade, dos outros dois.

Todos os contos deste livro são excelentes. Realmente, de alto nível. Eles provocam no leitor (ou, pelo menos, em mim) aquela sensação de soco no estômago, de provocação. E nada é óbvio com Alice Munro. Quando o leitor pensa que desvendou o conto, eis que a autora nos surpreende com um novo elemento.

Difícil escolher um conto favorito. Talvez (e é só talvez mesmo, pois, como eu disse, todos são excelentes), escolho “Antes da mudança”. Neste, a protagonista abandona a faculdade e volta a viver com o pai, com quem nunca viveu uma relação muito próxima. E é nesta nova convivência que ela descobre muito sobre esta figura paterna amarga e fechada. Escolho-o por razões bem pessoais, é verdade. Certos trechos, como este, partiram o meu coração:

“Meu pai pôs um cheque ao lado do meu prato. Hoje, domingo, na hora do almoço. A Sra. Barrie nunca está aqui aos domingos. Quando meu pai volta da igreja, comemos um almoço frio, que eu preparo, de carnes em fatias, pão, tomate, picles e queijo. Nunca pede que eu vá com ele à igreja, provavelmente porque pensa que isso só me daria a oportunidade de fazer comentários que ele não se interessa em ouvir.

O cheque era no valor de cinco mil dólares.

‘É para você’, ele disse. ‘Para você ter alguma coisa. Pode depositar no banco ou investir como quiser. Verifique as taxas de juros. Eu não acompanho essas coisas. Claro que você também herdará a casa. No tempo certo, como se costuma dizer’.

Um suborno? Eu acho. Dinheiro para abrir um pequeno negócio, para fazer uma viagem? Dinheiro para dar entrada na compra de uma casa ou para voltar à universidade e acumular outros dos diplomas que ele classificava como inegociáveis?

Cinco mil dólares para se livrar de mim”.

 

Realmente, incrível.

 

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O Amor de uma Boa Mulher

Alice Munro

Companhia das Letras

Tradução: Jorio Dauster

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