A minha grande pergunta

livre chargeNo último dia 15, a escritora Vanessa Barbara publicou no The New York Times o artigo “Brazil’s Most Pathetic Profession”. Nele, a autora fala sobre as dificuldades da vida de escritor no Brasil. Dificuldades financeiras, já que viver de literatura em nosso país é algo praticamente inconcebível.

O texto mostra o quanto a carreira de escritor não é valorizada no Brasil, assim como acontece com outras profissões, como professor e jornalista.  Vanessa Barbara relata o quanto ganhou pelo seu “O Livro Amarelo do Terminal”, publicado em 2008 e vencedor do Jabuti na categoria Reportagem: U$ 2250 – em quatro anos. Aí, para pagar as contas, a autora precisa de outras ocupações, como jornalista freelancer, tradutora, etc.

Não é que eu não tivesse a mínima ideia do que um escritor passa para conseguir publicar seus livros (até porque eu me enquadro na profissão jornalista, bem contextualizada por Vanessa Barbara, e sei bem a realidade que eu e meus colegas vivemos). O fato é que o artigo choca. Toca em um ponto ao qual poucas pessoas, inclusive escritores, querem prestar atenção.

Sempre há quem diga que Paulo Coelho vende, que Paula Pimenta vende. E que brasileiro lê sim, afinal Thalita Rebouças é celebridade entre as adolescentes e as que já passaram dessa idade devoraram o Cinquenta Tons de Cinza. Para esses, eis alguns dados. Segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada no ano passado pelo Instituto Pró-Livro, o país possui 50% de leitores (aproximadamente 88 milhões de pessoas na época da pesquisa). O brasileiro lê, em média, 4 livros por ano. Quando questionados sobre quantos livros foram lidos nos últimos três meses, a média de leitura dos entrevistados caiu para 1,85. Deste número, 1,05 exemplar foi escolhido por iniciativa própria e 0,81 foi indicado pela escola. E o livro mais lido pelos brasileiros é a Bíblia.

No entanto, há quem acredita que ler um livro a cada três meses é suficiente. De acordo com um levantamento da UNESCO sobre hábitos de leitura, realizado em 2009, o Brasil ocupa a 47ª posição no ranking de livros lidos por ano, em um total de 52 países pesquisados. Nos países desenvolvidos, as pessoas leem, em média, 10 obras literárias anualmente. No Chile, aqui pertinho da gente, a média de leitura é de 5,6 livros por ano.

A grande pergunta é: por que brasileiro não lê? Ou lê muito pouco?

Muitos apontam como causa o preço dos livros. E, realmente, eles custam caro em nosso país. No entanto, muitas cidades possuem bibliotecas. Curitiba, por exemplo, possui uma excelente biblioteca pública. Mas, em sua grande maioria, são espaços pouco aproveitados.

Por que as bibliotecas estão quase sempre quase vazias? Por que o brasileiro não lê? Ou lê muito pouco?

Porque acreditam que ler não é divertido. É o que revela a pesquisa do Instituto Pró-Livro. Logo, não reservam tempo para ler, afinal, preferem realizar atividades divertidas, como ver TV, jogar videogame, entre outras. Ou seja, a leitura não é parte da vida cultural do brasileiro.

Por que a leitura não é parte da vida cultural do brasileiro? Por que as bibliotecas estão quase sempre quase vazias? Por que o brasileiro não lê? Ou lê muito pouco?

Porque vivemos um empurra-empurra da obrigação de despertar o prazer da leitura. Uns defendem que isto é um dever da escola, que traumatiza os alunos ao impor títulos e que não os orienta em seu início de vida de leituras (estou generalizando, é claro. Eu mesma sou uma leitura “despertada” pela escola). Outros afirmam que se trata de uma obrigação da família. Porém, se os pais não leem, como irão incentivar seus filhos? Outros, que são as editoras que devem baratear os livros, assim, mais pessoas poderão comprá-los. E, como não poderia faltar, há quem diga que a obrigação é do governo, que precisa liberar verba para que as escolas adquiram livros e vale-cultura para que o povo possa frequentar livrarias e sair dela com suas comprinhas.

A verdade, e isso me parece bem óbvio, é que a obrigação é de todos nós.

Se uma criança, se um adulto tiver pelo menos um desses empurrõezinhos, talvez possa tornar-se um leitor e, talvez, os dados de índices de leitura do país possam melhorar. E, quem sabe, a Vanessa Barbara e tantos outros jovens escritores possam ser mais bem recompensados por seu trabalho.

O caminho parece fácil, mas não é. É difícil mudar velhos hábitos. Eu gostaria muito de morar em um país em que eu entrasse em um ônibus e visse muitas pessoas lendo.  Gostaria de viver em um país em que as pessoas achassem a leitura algo divertido – e mais até, algo essencial. Gostaria de morar em um país onde a Vanessa Barbara pudesse viver de sua literatura (não precisa mudar para a Suiça e figurar na capa da Caras). Mas eu sou uma otimista, mesmo nos piores cenários. Tenho um sobrinho que completará 3 anos no próximo sábado. Nunca o presenteei com nada além de livros. E ele realmente se diverte com todos os que dei para ele! Acredito que ele será uma criança que irá crescer com a ideia de que ler é realmente divertido. E, se eu conseguir levá-lo para o bom caminho da leitura, já ficarei feliz!

Até 2014!

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