Em Busca do Tempo Perdido – volume 2 – À Sombra das Raparigas em Flor, Marcel Proust

à sombra das raparigas em flor proustSe boa parte de “No Caminho de Swann”, primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, gira em torno do relacionamento entre Swann e Odette, “À Sombra das Raparigas em Flor”, segundo volume da obra de Proust, traz em seu foco o herói/narrador do romance.  No primeiro volume, temos um Marcel frágil e doente, altamente dependente de sua mãe. No segundo, embora essas características ainda lhe sejam inerentes, o leitor depara-se com o início de mudanças no protagonista, marcadas por uma série de experiências por ele vividas. A ingenuidade do herói permanece, todavia, seu mundo ganha mais cores.

“À Sombra das Raparigas em Flor” é dividido em duas partes. Na primeira, Em torno da Sra. Swann, o narrador descreve seu relacionamento com Gilberte, filha de Swann e Odette. Ele vive seu primeiro amor. Tudo em Gilberte é maravilhoso: seu rosto, seus cabelos, sua delicadeza, sua conduta. Resta ao jovem nada mais do que idolatrá-la.

Em Nome de terras: a terra, o protagonista viaja com a avó até a praia de Balbec. A viagem é repleta de descobertas, que culminam com o encontro de um bando de “raparigas em flor”, as quais despertam no herói intensas sensações. Entre elas, está Albertine, por quem ele se apaixona. Em Balbec, ele também inicia amizade (que lhes serão caras) com o jovem aristocrata Robert de Saint-Loup e com o talentoso pintor Elstir.

Há diversos pontos que se destacam em “À Sombra das Raparigas em Flor”:

A perda da inocência do herói: o protagonista está sempre em busca do ideal. Ele deseja a mulher ideal, os amigos ideais, as viagens ideais. Porém, ele começa a perceber que, quase sempre, há uma grande diferença entre aquilo que imaginamos e desejamos e aquilo que, de fato, acontece. Diversas passagens exemplificam isto – o encontro com Bergotte, seu escritor favorito, o qual se revela um homem bastante simples, distante de toda a riqueza de sua literatura; a percepção da real personalidade de Gilberte; a tão sonhada ida a Balbec, que, ao invés da mais bela cidade litorânea, é uma cidade turística como outra qualquer.

As mulheres: à exceção da mãe e da avó do narrador (que são o exemplo de mulher ideal), todas as mulheres do romance aparecem como seres manipuladores, ardilosos e perspicazes. Elas estão, o tempo todo, brincando, seduzindo, controlando os sentimentos dos homens ao redor. Eles, por sua vez, permanecem passivos. Basta observar o relacionamento entre Swann e Odette, Marcel e Gilberte, Marcel e Albertine, Saint-Loup e sua amante.

A fixação por Odette: ela é uma das personagens mais enigmáticas (talvez de toda a literatura). Os homens a desejam, as mulheres a odeiam. O protagonista não escapa do fascínio exercido pela Sra. Swann. Quando começa a frequentar a casa dos Swann, ele é cativado por sua personalidade forte é a ela que ele dedica grande parte de sua atenção.

As falhas do herói: o protagonista está longe de ser um herói ideal. Ele próprio afirma ser egoísta e tímido. Além disso, é altamente dependente da avó e da mãe (a quem escreve todos os dias durante a estada em Balbec). Em diversos casos, ele mente para atingir seus objetivos. Por exemplo, ele mente para Andrée – a mais simpática das raparigas – para se aproximar de Albertine.

É claro que o fluxo de consciência é constante, como acontece em toda a obra proustiana. O narrador busca em suas memórias o sentido para a vida – algum sentido para a sua vida. O que nos leva a sonhar? O que nos leva a desejar? O que nos leva a amar uma pessoa e a não amá-la mais? O que muda nossas convicções? Ao relembrar e repensar sua vida, o protagonista busca respostas para essas perguntas. O que a memória daquilo que somos hoje nos revelará?

“Mas a felicidade é coisa irrealizável. Se conseguimos dominar as circunstâncias, a natureza transporta a luta de fora para dentro, e pouco a pouco vai fazendo mudar o nosso coração até que deseje outra coisa diversa de que vai possuir. Se foi tão rápida a peripécia que nosso coração não teve tempo de mudar, nem por isso perde a natureza a esperança de vencer-nos, mais longamente, na verdade, mas de maneira mais sutil e eficaz. Então, no derradeiro momento, a posse da felicidade nos escapa, ou melhor, a essa mesma posse encarrega a natureza, com argúcia diabólica, de destruir a nossa felicidade. Pois, vendo-se vencida no campo dos fatos da vida, cria agora a natureza uma impossibilidade final, a impossibilidade psicológica da felicidade. O fenômeno da ventura ou não se produz, ou dá lugar a amarguíssimas reações”.

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Em Busca do Tempo Perdido – Volume 2 – À Sombra das Raparigas em Flor

Marcel Proust

Biblioteca Azul

Tradução: Mario Quintana

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