A Elegância do Ouriço, Muriel Barbery

A elegância do ouriçoÉ preciso abrir “A Elegância do Ouriço”, de Muriel Barbery, sem preconceitos. Quem lê alguma sinopse já pode ficar com um pé atrás. A história se passa em um prédio residencial muito tradicional de Paris, habitado por famílias milionárias. Ali, concentram-se todo o tipo de gente: um crítico gastronômico esnobe, um ministro do governo francês, uma socialite, uma jovem que deseja tornar-se veterinária. E neste pequeno universo destacam-se Renée, a zeladora do prédio, e Paloma, uma menina de 12 anos. São elas as narradoras do livro.

Renée é uma senhora de 54 anos que trabalha no prédio há quase três décadas. Viúva, ela faz questão de passar despercebida pelos moradores por um pequeno-grande detalhe: ela não é a zeladora que a alta burguesia parisiense espera. Renée ama arte e sabe tudo sobre artes plásticas, literatura russa, música clássica, filosofia, cinema japonês. Consome, em termos artísticos, a cultura que os moradores deveriam apreciar. A outra narradora, Paloma, odeia sua família por achar seus pais (um ministro e uma doutora em letras que vive para gastar dinheiro) e sua irmã mais velha (uma estudante de filosofia) fúteis demais, completamente desinteressados pelo o que se passa no resto do mundo. É uma pré-adolescente calada, porém cheia de ideias – as quais prontamente anota em seu diário – e apaixonada pela cultura japonesa. A vida de ambas muda com a chegada de um novo morador, o Sr. Ozu.

À primeira vista, o leitor – esse que lê com preconceitos – pode pensar: como uma mulher comum, pobre e sem estudo pode saber tanto, e falar com tanta eloquência, sobre filosofia, sobre Tolstoi, sobre cinema japonês? E como uma menina de 12 anos pode ser tão inteligente, tão perspicaz? Esse pensamento pode ser corroborado por algo que considero uma falha no romance de Barbery – não há diferença entre a voz narrativa de Renée e de Paloma. O leitor percebe quem narra o quê apenas pelo contexto da história. Não é nenhum empecilho para a fluidez do livro e, embora as personagens se revelem muito parecidas, são pessoas diferentes, logo, com vozes diferentes (algo que Pamuk, por exemplo, faz muito bem em seus romances com múltiplos narradores, como em “Meu Nome é Vermelho” e “A Casa do Silêncio”).

No entanto, é preciso entender que Barbery nos transporta para a sociedade francesa atual, com seus problemas sociais e econômicos. A autora assume o papel de crítica social e mostra, em um pequeno espaço, um bando de gente rica, mas mesquinha, hipócrita, vazia. Ao passo que a zeladora e a garota são grandes observadoras do mundo que as cerca, capazes de perceber a realidade em que vivem e filosofar sobre ele. “A Elegância do Ouriço” é um romance filosófico ao alcance de qualquer leitor disposto a compartilhar com Barbery sua visão de mundo.

Barbery faz, ainda, uma bela homenagem à cultura japonesa. Renée e Paloma amam tudo relacionado ao país e têm suas vidas transformadas com a chegada do Sr. Ozu. A autora, no entanto, vai além em sua homenagem. A linguagem de “A Elegância do Ouriço” é repleta da melancolia, do silêncio e da sabedoria inerentes à literatura e ao cinema japonês. É algo realmente muito bonito.

“A Elegância do Ouriço” é daqueles livros em que o leitor sublinha vários trechos marcantes, capazes de levar às lágrimas os mais sensíveis e emotivos. E talvez este seja o motivo pelo o qual o romance tornou-se um grande sucesso editorial – e não apenas na França. Espero que todos tenham compreendido que é preciso enxergar, sempre, a elegância do ouriço.

“Viver, morrer: são apenas consequências daquilo que se construiu. O que conta é construir bem”.

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A Elegância do Ouriço

Muriel Barbey

Companhia das Letras

Tradução: Rosa Freire D’Aguiar

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