A Mulher Foge, David Grossman

a mulher foge david grossmanA história de Orah, Avram e Ilan, os protagonistas de “A Mulher Foge”, do israelense David Grossman, estarão conectadas para sempre. Isso fica claro nas primeiras páginas do livro. O leitor conhece os três personagens quando ainda são bastante jovens e estão em quarentena em um hospital, em meio a uma guerra. A experiência, marcante, os unirá em um triângulo amoroso, como não é difícil de deduzir. E, por quase 600 páginas, Grossman explora os conflitos deste relacionamento tão peculiar.

Também nas primeiras páginas o romance ganha um novo ponto focal: Orah. O tempo passa e o leitor descobre que aquela adolescente atrevida e cheia de sonhos tornou-se uma mulher de meia-idade recém-divorciada (de Ilan) e com dois filhos, Adam e Ofer. Quando este último parte como voluntário para a guerra, Orah foge com medo de receber a notícia da morte do filho. Ela arruma uma mochila e parte sem rumo por Israel – a pé. Porém, ela não vai sozinha. Ela procura Avram e, após mais de duas décadas sem nenhum contato entre ambos, o obriga a partir com ela.

E é a partir deste ponto que “A Mulher Foge” torna-se um livro interessante. Primeiro, por sua estrutura. O leitor descobre o que aconteceu entre e com Orah, Avram e Ilan na medida em que ela conta sua história ao companheiro de viagem. No entanto, a narrativa não é linear. Orah conta sua vida a partir de acontecimentos que ela julga importante que Avram conheça. Sua intenção é fazer com que Avram conheça sua história e seus filhos, sobretudo Ofer. O tempo distante, no entanto, faz com que este processo seja doloroso, nada natural. A cada revelação, Orah e Avram aproximam-se, compreendem-se, perdoam-se. E, para o leitor, os personagens tornam-se mais complexos, mais humanos, e suas histórias, mais inteligíveis. O leitor também aprende a compreender e a perdoar cada um deles.

É interessante observar a importância que a fuga e o ato de remontar e revisitar a vida e seus acontecimentos possuem neste romance. Não é apenas o medo da morte do filho que incentiva a fuga de Orah. Ela encontra-se destruída, não consegue encontrar em si, naquele momento, as respostas para dúvidas que vêm de anos atrás. E quando conta sua história a Avram, ela encontra todas  possíveis (sempre possíveis) respostas procuradas. O mesmo acontece com Avram. Ele também é um homem destruído. A guerra (de Yom Kippur) deixou cicatrizes que vão muito além das físicas. À medida que parte com Orah e ouve sua história – e revive a dele também –, Avram é tomado por um empoderamento de si próprio. Ou seja, ele sai de uma posição subjetiva, na qual permaneceu por anos a fio, e retoma o controle de sua vida. E, embora ambos estejam em busca de si próprios, jamais teriam se encontrado sozinhos. Um fortalece o outro. O modo como Grossman constrói toda essa trajetória é primoroso. São várias histórias, como várias linhas emaranhadas e, conforme o leitor avança em sua leitura, desembaraça todos os nós da vida dos três protagonistas.

Não consigo parar de pensar que, de algum modo, “A Mulher Foge”, e, mais precisamente, a importância do isolamento e do ato de narrar a vida, é uma homenagem à literatura (não falei antes, mas Orah, além de contar, escreve sua própria história, ou fatos dela, em um caderninho que encontra em sua viagem). Um escritor – todo artista, na verdade – escreve porque há algo dentro de si que não cabe mais, há algo que lhe incomoda e que precisa ser colocado em palavras. Para isso, o exercício é olhar de fora para dentro de si e verbalizar. É este movimento realizado por Orah. E pelo próprio autor, que perdeu um filho na guerra enquanto escrevia este livro.

A guerra aqui funciona não apenas como contexto histórico, mas como uma certeza para quem vive em Israel, seja o cidadão judeu ou árabe. Os personagens convivem com a guerra e ela é tão presente como a certeza de que é preciso ir à escola, por exemplo. Os conflitos políticos estão em todo livro, inseridos no cotidiano de cada figura do romance: a raiva que Ilan sente de seu pai, um militar; a tensão entre Orah e seu motorista, um árabe; o que a guerra causou à vida de Avram; o que Adam e Ofer sentem ao ir para o campo de batalha; a convivência com atentados terroristas. Grossman retrata os conflitos entre judeus e palestinos de forma bastante inteligente, sem dicotomizar a questão. O que ele faz, sem evangelizar o leitor, é mostrar como este dilema é antigo e complexo, e, sobretudo, como ele oprime todo e qualquer cidadão que dele faça parte.

“A Mulher Foge” é, em sua essência, sobre a necessidade de ser forte, de superar situações limites e de ter a coragem de dar mais um passo nas longas caminhadas. É em meio a esse turbilhão de acontecimentos que Orah entende que precisa encontrar sua individualidade mesmo inserida em um contexto repleto de outros. Ela foge sim, mas para se encontrar e retornar deste seu exílio pessoal uma mulher mais forte.

 

Observações:

1 – Desculpem o sumiço. Foi necessário.

2 – Desafio do Livrada: este livro encaixa-se na categoria 5: um livro que não foi indicado por ninguém

 

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A Mulher Foge

David Grossman

Companhia das Letras

Tradução: George Schlesinger

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