Espinhos e Alfinetes, João Anzanello Carrascoza

espinhos e alfinetes joão anzanello carrascozaNeste mundo, a única certeza que possuímos é a de que não temos controle sobre a vida. Até nutrimos, como que para sobreviver, a ilusão de que temos – vá lá – algum poder. Porém, basta alguma força do destino, algum cruzamento de planetas em seu mapa astral, alguma mão divina para destruir tudo aquilo que nos era certo. De certo modo, os contos reunidos em “Espinhos e Alfinetes”, do paulista João Anzanello Carrascoza são exatamente sobre isso: sobre a fragilidade de ser e de existir.

O primeiro conto, “Espinho”, adianta ao leitor tudo o que será encontrado ao longo do livro. A história é simples: o narrador lembra a admiração que sentia pelo irmão mais novo. Juntos, brincavam as brincadeiras mais simples, tal como pode ser a vida longe dos grandes centros urbanos. O conto é curto, mal tem 10 páginas, mas é de uma grandiosidade sem tamanho. Desafio qualquer um a terminar a leitura dessas páginas (ou de qualquer outro conto deste livro) sem um nó na garganta, sem uma lágrima caindo sem querer dos olhos.

Carrascoza emociona na mistura de seu olhar de mundo sensível com sua prosa delicada. O escritor recorta pequenas situações do dia a dia (como o primeiro dia de um pai e um filho sem a esposa/mãe, descrito no conto “Alfinete”) para lembrar do que é feita a vida: de perdas, despedidas, lembranças. E é justamente essa mistura que dá força a cada um dos contos de “Espinhos e Alfinetes”. Parece bastante óbvio que o autor está muito menos preocupado com a linguagem em si do que com o que pode com ela evocar.

De modo geral, os personagens de “Espinhos e Alfinetes” são pessoas com vidas modestas, sem nada de muito diferente. Enfim, gente como a gente, muitas vezes, ignorada por quem tem o poder de transformar anônimos em seres especiais – ainda que de modo ficcional. Situações banais, no sentido de que todo dia acontecem com alguém neste mundo, são vistas sob uma ótica mais especial, aquela que transforma acontecimentos ordinários em especiais e repletos de significados para quem os vive.

Vale destacar, também, como a maioria dos personagens ou narradores do livro são crianças. Talvez porque elas sejam capazes de olhar para a vida com olhos mais sensíveis.

Todos os contos do livro são, de fato, muito bons. Destaque para o de abertura, “Espinhos”, “Mar” (esse sim tenta, com sucesso, um experimentalismo com a linguagem), “Só uma corrida” (uma linda história de taxista) e “Poente”, sobre o final de relacionamento de um casal e as diferenças de percepção de homens e mulheres. É deste conto o trecho abaixo:

“Sentaram-se no sofá, lado a lado, como tantas vezes haviam feito para falar da vida – os assuntos fixos e os fugazes – , ou assistir à TV, ou brincar com o menino,

sem perceber que daquela maneira, distraídos para o mundo, estavam decidindo seus destinos”.

 

 

Desafio do Livrada!

Bem, a rigor, o livro não se encaixa em nenhuma categoria. Porém, como li por “obrigação” acadêmica e como nenhum amigo me enche o saco para ler livro algum, este vai para:

14- Um livro que algum amigo te enche o saco pra ler

___________

Espinhos e Alfinetes

João Anzanello Carrascoza

Editora Record

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