Ilíada, Homero

ilíada homero

Um ou outro comentário sobre a Ilíada, de Homero.
1.
A Ilíada, épica grega de Homero, é o primeiro texto escrito do ocidente. E é um texto grandioso em diversos sentidos. Suas quase 700 páginas, na edição da Penguin Companhia, narram, em verso, os últimos meses da Guerra de Troia, que durou dez anos.

 

2.
O texto de Homero não é, na verdade, sobre a Guerra de Troia, mas sim sobre a ira de Aquiles, o maior herói grego. Aquiles desentende-se com Agamêmnon, líder político dos gregos. Após a briga, Aquiles retira-se da batalha, dando início a um plano arquitetado por Zeus que levará o herói à glória e os aqueus à vitória.

 

3.

Conhecer um pouco de mitologia grega ajuda na leitura da Ilíada. E faz-se necessário entender a concepção de deuses e de heróis para Homero:
3.1. Os deuses homéricos são, em linhas gerais, mais parecidos com os homens do que com os deuses das religiões monoteístas. Eles possuem características antropomórficas. Precisam seguir regras e são sujeitos à ordem cósmica – não há para eles um deus transcendente.
Além disso, os deuses homéricos são imortais e jovens, mas não eternos. Ou seja, estão sujeitos ao tempo, mas não morrem. Possuem, ainda, grande conhecimento sobre o passado e o futuro, porém não são onipresentes, oniscientes e onipotentes.
São dotados também de grande poder de transformação – de si próprios e dos outros. Quando aparecem aos homens, o fazem por meio de vozes, sonhos e pela transfiguração em animais.
3.2. Os heróis de Homero são guerreiros. Logo, integram uma importante aristocracia responsável por defender as cidades e conquistar a elas riquezas. Assim, pode-se facilmente concluir que os heróis são objetos de culto e, por meio dos cantos, imortalizados.
Para serem cantados, os heróis precisam comprovar sua virtude (areté). E eles comprovam suas virtudes por meio de ações. Por isso, a moral heroica determina que o herói participe de guerras para conquistar fama e respeito (timé). Assim, para Homero, a parte mais importante de uma pessoa é a fama (kléos) – ou seja, o que os outros pensam dela. Assim, se um herói figura em uma poesia épica (seja com feitos positivos ou negativos – o importante é o caráter de extraordinariedade), torna-se imortal.

 

4.
Entendendo melhor a concepção de herói, fica mais fácil compreender que o objetivo de um deles é ser cantado, ou seja, é aparecer na Ilíada. E ser cantado não é sinônimo de vaidade, mas, sim, de imortalidade. A partir disso, compreendemos o valor da guerra, necessária, então, para que os heróis possam ser grandes. No Canto II, há uma passagem que mostra como o combate é valoroso – para determinadas pessoas, em certos contextos, multifacetando o mundo homérico:

Com ela se lançava, faiscante, pela hoste dos Aqueus,
incentivando-os a avançar. No peito de cada um lançava
no coração a força inquebrantável para guerrear e combater.
Então lhes pareceu a guerra mais doce do que regressar
nas côncavas naus para a amada terra pátria.

 

5.
Na verdade, não podemos afirmar se a Ilíada e a Odisseia foram, de fato, escritas por um ser chamado Homero. Há estudos que tentam provar por A+B que ambas as obras são compilações de textos menores, transmitidas pela tradição oral e, depois, passadas para texto escrito. Outras correntes apresentam uma série de argumentos que mostram que a Ilíada e a Odisseia são muito geniais para serem criadas por diversas pessoas. Não há como saber quem está certo aqui.

 

6.
De qualquer modo, a narrativa homérica é, de fato, genial. Alguns exemplos (sobre os quais não pretendo me aprofundar muito):
– Ao longo da obra, Homero mostra que não existe um lado correto ou uma pessoa totalmente forte e íntegra. A briga entre Aquiles e Agamêmnon é um exemplo. Ambos estavam errados, ambos não souberam lidar com seu orgulho e insegurança e, por isso, pagam um alto preço.
– Nem mesmo Zeus, o mais poderoso dos deuses, é livre das consequências de suas escolhas. Ao optar por interceder a favor de Aquiles, ele sabe que perderá filhos amados na guerra.
Esses são apenas dois exemplos que mostram como Homero, em sua narrativa, humaniza as experiências. A leitura, de fato, não é fácil, mas isso é proposital. O que se deseja é que leitor reflita sobre o texto e tenha a partir dela uma experiência intelectual.

 

7.
Ainda sobre a narrativa de Homero. Sobre a guerra:
Em momento algum, Homero afirma que a guerra é o que há de mais terrível. Isso fica para o leitor concluir. E o leitor chega a essa conclusão, pois, ao mesmo tempo em que leva o herói à glória, o combate é extremamente destruidor, é sempre terrível. Vale acrescentar que as descrições de Homero para as cenas de batalha são extremamente bonitas. Um exemplo, do Canto IV:

Assim falando, saltou armado do carro para o chão;
e terrivelmente ressoou o bronze sobre o peito do soberano
que avançava: o medo até teria dominado quem era corajoso.

Tal como na praia de muitos ecos as ondas do mar são impelidas
em rápida sucessão pelo sopro de Zéfiro e surge primeiro
a crista no mar alto, mas depois ao rebentar contra a terra firme
emite um enorme bramido e em torno dos promontórios
incha e se levanta, cuspindo no ar a espuma salgada –
assim avançavam em rápida sucessão as falanges dos Dânaos
para a guerra incessante (…)

 

8.
Um comentário assaz pessoal: a Ilíada não é um livro para se ler rapidamente. Entre algumas pausas, demorei quase três meses para finalizar a leitura. De fato, aproveitei muito mais quando entendi que não seria possível ler rapidamente.
A sensação que eu tinha era a de que o livro jamais acabaria. E aí, conversando com uma amiga, ela expôs a seguinte hipótese: e se a intenção for realmente essa, a de dar a impressão de que a Ilíada jamais acabará? Veja, o livro narra os últimos meses da guerra; estão todos fatigados, com o desejo de voltar para casa e, conforme se passam os dias, o regresso parece cada vez mais longe. Até que Aquiles volta para o combate e é a sua ira que mata os troianos. Quando Aquiles decide lutar novamente, a obra ganha um novo ritmo e o leitor sente o desfecho muito mais próximo – e, também, muito mais violento. Bem, se esta for, de fato, uma das intenções do autor, estamos falando sobre um livro muito, muito genial.

***

Desafio do Livrada:

6- Um livro com mais de 500 páginas

 

________

Ilíada

Homero

Penguin Companhia

Tradução: Frederico Lourenço

Anúncios

5 comentários

  1. Sou apaixonada pela Odisseia, também do Homero, então morro de vontade de ler Ilíada. O que está faltando mesmo é tempo 😛
    Gosto muito das alegorias de Homero, e acho muito gostoso ler em versos. É diferente de ler qualquer outra coisa, e é um prato cheio pra quem curte linguagem.
    Tenho a impressão, não sei se está certa, de que a Ilíada tem mais tensão, um ar mais denso que o da Odisseia (impressão que deve ser pela questão da temática mesmo, por ser muito mais focado na guerra, imagino). Até por isso ainda não li: concordo com você, não é um livro para ser lido rápido.
    Mas espero poder logo, já que seu texto me deixou novamente ansiosa 🙂
    Beijos

    1. Oi, Melissa!
      Recomendo a leitura. Há tanto para se ver na Ilíada. O bom mesmo é ler com calma, muita calma para ir percebendo todas as nuances presentes.
      Além disso, é aqui que começa a literatura ocidental, né? De certo modo, todo mundo é meio inspirado por Homero.
      Beijos!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s