Tu não te moves de ti, Hilda Hilst

tu não te moves de ti hilda hilstParece difícil atribuir um gênero a “Tu não te moves de ti”, de Hilda Hilst. Composto por três capítulos (ou seriam três novelas independentes?), o livro traz a história de três personagens que, apesar de se cruzarem rapidamente, possuem em comum tamanha dor de existir, de lidar com a vida que se apresenta diante de seus olhos, todos os dias. A narrativa é densa, fragmentada, seguindo o fluxo de consciência de cada um dos narradores.

Em “Tadeu (da razão)”, a personagem homônima é um empresário bem sucedido, porém que não vê mais sentido no mundo dos negócios. Seu desejo é livrar-se da empresa e da esposa, Rute, que compartilha de todos os valores do mundo capitalista, e poder mergulhar em um mundo em que seu único compromisso seria com as artes. Tadeu encontra-se, contudo, sozinho nesse mundo irreal, impossível. Seus anseios e delírios aumentam conforme ele percebe a mesquinhez da mulher e de tudo aquilo que o cerca.

Já em “Matamoros (da fantasia)”, Maria Matamoros vive em uma comunidade distante com a mãe. Desde muito jovem, Matamoros conhece o prazer sexual pelas mãos dos rapazes de sua aldeia. Então, ela conhece Meu, com quem se casa. Pela primeira vez, Maria conhece algum bom sentimento que não o sexual. Porém, o amor cede lugar à desconfiança. A jovem começa a desconfiar que é traída pela própria mãe. Sua vida vai, então, do céu ao inferno, numa mistura de disputa com aquela que lhe gerou a vida e com a dependência de sua existência ao único ser que é capaz de lhe fazer feliz.

Por último, em “Axelrod (da proporção)”, um professor de história volta da casa de seus pais (que viviam na mesma região que Matamoros) e, durante a viagem, começa a pensar (e a desacreditar) em seu crescimento e sobre os ideais e crenças que julgava, até então, necessários para revolucionar o mundo.

Perceba o movimento de Hilda Hilst. No primeiro capítulo, todas as angústias de Tadeu podem ser resolvidas pelo prazer da arte. Ele alega que só será livre a partir do momento em que se livrar de todas as suas algemas (trabalho, compromissos, dinheiro e esposa) e poder escrever, criar, tirar de si toda a arte que lhe é interna. No segundo, nos deparamos com uma personagem que conhece o prazer muito bem, mas que logo percebe que apenas ele não preenche sua existência.  E quando plenitude chega representada na figura de um homem, quase deus, a quem ela chama de Meu, não consegue lidar com o prazer. O êxtase dá lugar  à obscuridade e ao desespero, que culmina em tragédia.

Axelrod, o professor de história do último capítulo, traz consigo toda a falta de fé nos dias vindouros. Ele olha a história (a que aprendemos na escola e a de sua vida) e, em um momento de epifania, percebe que não há motivos para ter esperanças, seja qual for a escolha feita por cada um de nós.

Parece que aí esta a tese de Hilda Hilst em “Tu não te moves de ti”: por mais que tentemos olhar a vida de uma perspectiva mais otimista o final é sempre o mesmo – o da dor, das dúvidas e das incertezas. Assim como a tese do pai de Axelrod que explicou ao filho, quando este ainda era criança:

“Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tamí, Camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar algum, meu filho, tu podes ir, e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti”.

 

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Tu não te moves de ti

Hilda Hilst

Editora Globo

 

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