A Festa da Insignificância, Milan Kundera

a festa da insignificância milan kunderaA Festa da Insignificância foi, talvez, um dos lançamentos literários mais aguardados e comentados do ano. Pudera: o autor é ninguém mais, ninguém menos que Milan Kundera e a Companhia das Letras, editora responsável pela publicação da obra no Brasil, fez uma senhora divulgação, além de uma edição linda, de capa dura – coisa fina. O livro que chegou às mãos do leitor, contudo, talvez tenha deixado uma ou outra pergunta no ar: “mas sobre o que é este livro?” / “mas o que é a tal insignificância festejada?”. Afirmo isso por alguns comentários que li e ouvi por aí.

Gosto de pensar que A Festa da Insignificância é mais simples do que aparenta. Os diversos curtos capítulos do romance estão centrados em quatro personagens, os amigos Ramon, Alain, Charles e Calibã, e destacam fatos e observações do dia a dia deles , como o papel do umbigo como nova zona erótica, o stalinismo, as relações amorosas, a conflito com a figura materna. Os eventos narrados são espaçados no tempo e cada capítulo parece desconectado, em alguma media, com os demais. Conectando todos os personagens há uma festa promovida por um quinto amigo, D’Ardelo, na qual todos se reúnem.

A narrativa de A Festa da Insignificância é bastante fragmentada e, num primeiro momento, nada parece fazer muito sentido. Contudo, o interessante do livro é olhar para ele capítulo a capítulo, procurando perceber o valor de cada um deles. Uma leitura mais atenta revela, então, o que há de importante para ser observado a partir das situações e observações banais vividas e realizadas pelos personagens. Um exemplo está já na abertura do romance, quando Alain passeia pelas ruas de Paris, observa  moças com blusas que deixam o umbigo à mostra e questiona os motivos que levaram essa parte do corpo (e não mais os seios, coxas e bundas) a ter importante papel erótico. O capítulo acaba – embora o tema seja retomado – e cabe ao leitor, se assim, quiser, refletir com Alain.

Este exercício realizado capítulo a capítulo conduz à percepção de elementos comuns à obra de Kundera, como a crítica à cultura ocidental, a individualidade, a superficialidade nas relações humanas e, também, nas produções artísticas.

Todos esses elementos servem, assim, para mostrar aquilo que me parece ser a tese de Kundera: estamos vivendo em um mundo de banalidades, de pequenos e sucessivos acontecimentos banais, sem significância, sem importância. E talvez nem nos damos conta disso. Talvez a insignificância se revele apenas quando refletimos (ou somos forçados ou conduzidos a refletir) sobre as pequenas coisas cotidianas. Ela, a insignificância, revela-se assim:

A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda a parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muita coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la. Aqui,neste parque, diante de nós, ela está presente com toda sua evidência, com toda sua beleza. Sim, sua beleza. Como você mesmo disse: a animação perfeita… e completamente inútil, as crianças rindo…  sem saber por quê, não é lindo? Respire, D’Ardelo, meu amigo, respire essa insignificância que nos cerca, ela é a chave da sabedoria, ela é a chave do bom humor.

 

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2 comentários

  1. Olá, Carla. Que interessante tua resenha! Vejo que nossas percepções acerca do livro se encontram em muitos pontos. O que me pareceu, porém, muito importante na obra de Kundera é que a chave para compreender a insignificância é o bom humor.
    Confesso que tive de esperar alguns dias para conseguir realmente absorver aquelas páginas. É uma obra maravilhosa!
    Não pude deixar de notar também a tua resenha sobre “A Extensão do Domínio da Luta”. Cheguei ao Houellebecq através do Juremir Machado da Silva, jornalista que fez a entrevista com ele, na qual o autor afirma que tem certeza que será o próximo Nobel de Literatura na França. É impossível não se encantar com a irreverência desse francês – e o livro em questão é muito bom e tem trechos muito cruéis e irônicos. Não dá pra sair ilesa dessa leitura.
    Gostei bastante do teu blog!
    Um beijo.

    1. Olá, Cândida,
      Sim, este livro é um daqueles pra gente ficar pensando sobre por vários dias. É tudo aparentemente simples e aparentemente desconexo, mas é tão rico em conteúdo, não?

      Sobre o Houellebecq: acompanho o autor desde 2005, quando li A possibilidade de uma ilha pela primeira vez. Li todos os romances dele e, agora, estou lendo as poesias (e vou encomendar o livro novo sobre o qual ele e o Juremir Machado da Silva falam na tal entrevista).

      Acho que ele vai além da irreverência:ele olha para o mundo com frieza e, assim, consegue ter uma visão bem crítica de tudo e de todos, sem aliviar para ninguém. Acho importante termos escritores (e outros artistas e pensadores) assim.

      Obrigada pela visita!

      Beijo!

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