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Argélia – Literatura argelina

Amigos e leitores,

Desculpem o desaparecimento. São muitos os compromissos, o que está atrapalhando – e muito – o meu ritmo de leitura e os livros que leio.

Ainda assim, gostaria de compartilhar com vocês que estou com muita vontade de estudar a literatura argelina. Isso porque, com exceção de alguns nomes que vocês também devem conhecer, pouco sei sobre a Argélia, sua história e, sobretudo, sobre sua produção literária. O desejo, pasmem, surgiu durante a Copa do Mundo. E algum dia, quando eu tiver um tempo, lerei os livros que comprei. São esses dois, de duas autoras contemporâneas. Não sei absolutamente nada sobre elas, encomendei os livros às escuras.

literatura argelina

O jornal O RelevO me mostrou esse belo poema da poetisa Samira Negrouche. Se você não achar bonito, você não tem coração.

il se peut

E, para finalizar, “Denia”, do Manu Chao.

O erotismo na prosa de Michel Houellebecq

michel houellebecqNão são muitos os romances do francês Michel Houellebecq: “Extensão do domínio da luta” (1994); “Partículas elementares” (1998); “Plataforma” (2000); “A possibilidade de uma ilha” (2005) e “O mapa e o território” (2010). Em todos eles, Houellebecq trabalha com a mesma temática: a miséria da existência humana. Suas personagens, de modo geral, conseguem enxergar a mediocridade do mundo, a fragilidade das relações humanas e o vazio de suas vidas – as quais, em um contexto capitalista, poderiam ser consideradas de grande êxito.

Onde estaria, então, o prazer de viver? As personagens de Houellebecq o buscam, sobretudo, no sexo.  Os romances do escritor são repletos de erotismo. As cenas de sexo, e são muitas, são bastante explícitas – há, inclusive, quem considere os livros do autor pornográficos. Contudo, enquanto a indústria da pornografia existe para lucrar propiciando, de algum modo, prazer para seu público, a obra literária de Houellebecq está mais interessada em mostrar o sexo como uma espécie de fonte da felicidade, ainda que momentânea, e, principalmente, como uma maneira de buscar, também momentaneamente, alguma verdade e algum significado nas relações humanas.

Tomemos como exemplo “A possibilidade de uma ilha”.  Neste livro, o protagonista é Daniel 1, um humorista de meia-idade que alcança o status de celebridade respeitada no mundo intelectual, além de milhões de euros, com espetáculos politicamente incorretos, com títulos provocantes, como “Chupe minha Faixa de Gaza (meu colono judeu gorducho)”. Daniel é, contudo, um sujeito extremamente solitário, que age como se fosse capaz de compreender o mundo de um modo superior a todos os outros, e nele não enxerga nenhum tipo de redenção. Mesmo sem acreditar na raça humana, o comediante apaixona-se. Primeiramente por Isabelle, editora de uma revista para adolescentes, tão mordaz quanto o protagonista. Depois, por Esther, jovem aspirante à atriz e que vive dividida entre sua carreira e uma vida sem compromissos.

Torna-se interessante notar o quanto a vida sexual de Daniel com ambas as mulheres serve de indicativo para sua própria felicidade. O casamento com Isabelle existe e é feliz (ou, ao menos, pacífico) à medida que o sexo é presente. Quando ela para de sentir prazer e, consequentemente, desejo, ele volta a sentir toda a descrença na humanidade e em qualquer possibilidade de felicidade para si próprio.

Daniel sai, então, de um casamento sem sexo para um caso baseado apenas em sexo. O relacionamento do comediante com Esther é meramente sexual. Eles pouco conversam entre si, quase nada sabem um da vida do outro. Conseguem, porém, ser felizes um ao lado do outro. A felicidade do protagonista é percebida na narrativa de sua vida com Esther. “Dez minutos depois, eu estava dentro dela, e estava bem. O milagre aconteceu de novo, tão forte como no primeiro dia, e eu pensei novamente, pela última vez, que ele duraria para sempre”.

O personagem pode entender a si próprio como este ser que depende de Esther e do prazer que ela pode lhe causar para ser feliz, confundindo o prazer do sexo (e da presença – física – de sua companheira) com a felicidade em si. Entretanto, uma leitura mais criteriosa pode mostrar que o sexo aparenta ser apenas um caminho, talvez aquele em que o protagonista melhor consiga se expressar, para procurar e alcançar seu bem-estar. Vale ressaltar que não estamos diante de um homem interessado apenas em sexo. Afinal, é o mesmo Daniel que afirma: “Nunca me senti perfeitamente confortável em uma relação baseada apenas na atração sexual e indiferente ao outro. Para que eu me sentisse sexualmente feliz, sempre foi necessário, na falta de amor, um mínimo de simpatia, estima, compreensão mútua”.

A prosa de Houellebecq é, todo tempo, isso: o negativismo diante do mundo versus a busca pela felicidade, brutalmente encontrada no sexo. O mais interessante é perceber como ele utiliza o erotismo (não apenas ele) para questionar o próprio destino do homem, dando ao caráter erótico de seus romances uma função muito mais interessante e profunda do que a grande parte dos escritores contemporâneos que o exploram.

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(Escrevi este texto como um rascunho de um outro projeto que não pude levar adiante por pura falta de tempo. Resolvi, no entanto, publicá-lo aqui do jeito que está. Quem sabe um dia eu estudo tudo isso aí mais criteriosamente. Porque merece).

Não, não leremos todos os livros que desejamos

leituras 2Nabokov dizia que um livro não deve ser lido, mas sim, relido. Isso significa, de maneira resumida e um pouco simplória, que a segunda vez é sempre melhor. Provavelmente, uma terceira supere a segunda e assim por diante. Se ele estiver certo, como e, mais importante, quando leremos todos os livros que queremos? A resposta é nunca. Não leremos todos os livros que desejamos.

Nós estamos com as horas contadas nessa vida. Pode ser amanhã, pode ser daqui a 70 anos, mas, cedo ou tarde, teremos o nosso fim. E não importa quanto tempo ainda lhe resta: você nunca lerá todos os livros que deseja. Mesmo que você tenha uma meta relativamente simples, do tipo: “meu grande plano de leitura é ler todos os livros do Nabokov”. A não ser que seu tempo finde, digamos, amanhã ou nos próximos dias, é um objetivo bastante simples de alcançar. Mas eu duvido que você terá lido todos os livros que deseja.

Isso porque ler vicia. Depois de ler todos os livros do Nabokov, talvez você deseje ler livros sobre o Nabokov ou autores parecidos com Nabokov. Ou talvez você enjoe do autor de “Lolita” e deseje ler algo completamente diferente. Sempre nascem novos desejos no coração de um leitor. Sempre.

Sempre há mais um clássico para se descobrir. Sempre há um novo autor para conhecer. Sempre há aquele livro obrigatório, que precisamos ler antes de morrer. Sempre há um bom amigo para indicar um novo escritor, uma nova obra. Seus gostos mudam, suas vontades também. E os seus desejos de leitura provavelmente amadurecerão com você, tal qual acontece com o nosso paladar.

Acho que entendo o que Nabokov quis dizer sobre leitura. Quando abrimos um novo livro, estamos desbravando um novo ambiente. Assinamos um contrato (que pode ser rescindido) no qual afirmamos que estamos dispostos a descobrir algo novo. E toda descoberta pode ser aperfeiçoada. Reli pouquíssimos livros e isso há muito tempo. Há tantos outros que marcaram a minha vida e que gostaria de reler. Fico imaginando o que não percebi na primeira leitura, o que seria diferente agora, o que a minha mente de hoje – que, tenho quase certeza, é melhor que a de ontem – veria, descobriria.

Se quando lemos um livro pela primeira vez estamos tão atentos a tudo que percebemos quase nada, reler talvez seja estar mais consciente, mais desperto, mais calmo. E (quase) tudo que é feito com graça e tranquilidade é melhor ou mais prazeroso.

Talvez Nabokov estivesse certo. E talvez isso signifique menos, menos tempo.

Pedro Juan Gutierrez fala sobre utopia e literatura

Cuban writer Pedro Juan Gutierrez

Pedro Juan Gutierrez, um dos meus escritores favoritos de todos os tempos, participou, no ano passado (eu acho) do Programa Sangue Latino, do Canal Brasil. Nele, o autor fala sobre utopia, a crise na literatura europeia contemporânea e sobre seu autor latino-americano favorito.

Eu sempre acho que vale a pena ouvir o que o Pedro Juan tem a dizer, esse cubano. Assista aqui a entrevista de Pedro Juan Gutierrez no Canal Brasil. E, claro, leiam seus livros.

“A sensação de bem-estar nos tira a espiritualidade”.

Metas de leitura para 2013

Neste ano resolvi estabelecer algumas metas de leitura. Caso contrário, a lista só aumenta e acabo deixando livros que sempre quis ler para depois e este depois nunca chega.

Sem mais delongas, vamos às metas:

Ler mais clássicos: 

Escolhi “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski, e “Ilusões Perdidas”,de Balzac. Pouco ambiciosa, eu, hein?

Ler novos autores:

Novos autores para mim. Já li alguns, como Rachel Cusk e Samanta Schweblin, ambas já comentadas aqui. E existem outros mais esperando na minha lista de próximas leituras.

Ler o Pamuk do ano:

Há dois anos, começo um livro do Orhan Pamuk no dia do meu aniversário. Este ano, li o Istambul. Irei comentá-lo aqui em breve.

Meu encontro com Fernando Sabino*

FSabino

Não sei você, mas eu não acredito no acaso. Tudo, mas tudo mesmo, acontece com um porquê, por um motivo (até mesmo os R$ 60 que perdi ontem). Por isso, acredito que meu encontro com o Fernando Sabino aconteceu do jeito que tinha que acontecer.

Explico.

No dia 11 de outubro de 2004, fui ao centro da cidade por uma razão que nem me lembro qual. E, como já havia terminado o que tinha para fazer, resolvi dar uma volta na Biblioteca Pública. Estava com vários livros para ler, mas ainda assim entrei. Entrei e fiquei passeando entre as estantes da seção de literatura. Não tenho na mente todos os detalhes daquela manhã, mas acho que dei voltas e voltas lá dentro.

De repente, parei e pensei: “o que estou fazendo aqui mesmo?”. Nesse momento, estava diante da prateleira de Fernando Sabino. Retirei, como quem não quer nada, o livro O Encontro Marcado. Emprestei sem saber se iria ler.

Por volta das 14 horas, ouço aquela musiquinha do plantão da Globo. Informaram o falecimento do escritor Fernando Sabino, de câncer. Derramei algumas lágrimas sem nem perceber. Lembrei do livro na bolsa. Iniciei a leitura no mesmo dia.

Para resumir: O Encontro Marcado narra a história de Eduardo (com muito do próprio Sabino), desde sua infância e juventude em Belo Horizonte até o momento em que ele vai para o Rio de Janeiro e torna-se jornalista.

E O Encontro Marcado era bem o que eu precisava naquela época. Toda a trajetória do menino de Minas, sonhador, me inspirou a também a sonhar, a mudar, a também seguir meu caminho, a não ter medo do que não conheço. Enfrentar o mundo é difícil, mas é difícil pra todo mundo.

Depois de ler O Encontro Marcado, eu mudei.

Fico sempre com a frase que define o livro:

“Ele faria da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura, um encontro”.

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Texto escrito em 10/10/2008.

 

Orhan Pamuk*

Orhan Pamuk é genial. E você precisa saber disso.

Começo assim, pois, caso você não chegue até o fim deste post, já entendeu aonde eu queria chegar.

Orhan Pamuk, gênio.

Orhan Pamuk, gênio.

Poucas vezes li um escritor que consegue ser tão profundo e poético e, ao mesmo tempo, tão aparentemente simples ao contar histórias. Ler Orhan Pamuk é encantador, viciante, incansável.

Na verdade, li apenas dois livros** do autor. O primeiro, “Neve”, tornou-se o meu livro favorito. Trata-se da história de Ka, poeta e jornalista turco que retorna a sua cidade natal Kars para escrever sobre ela e, também, investigar o suicídio de várias garotas. Em sua estadia, Ka reencontra uma antiga amiga, por quem se apaixona.

“Neve” junta todos os elementos possíveis dentro de um contexto histórico de uma Turquia fragmentada, quase sem identidade cultural (afinal, o que é a Turquia: oriente ou ocidente?). É um livro sobre política, amor, fé, religião, amizade e poesia. E, não, não é piegas, não é lugar comum. É simplesmente genial. É de uma delicadeza e profundidade sem igual. Sutilmente, Pamuk desenvolve o personagem central, Ka, que funciona como o que conecta todos os demais, os quais representam diversas camadas da sociedade turca: o romantismo de uma Turquia do passado, o extremismo religioso, a ocidentalização, a modernização de costumes.

O mais recente publicado no Brasil é “O Museu da Inocência”. Este é um livro de amor. Conta a história de Kemal, homem de família burguesa, noivo de uma jovem também da alta sociedade turca, mas que se apaixona pela prima Füsen, bem mais nova que ele. Apaixona-se obsessivamente. Mas tão obsessivamente que termina o noivado e passa a conviver com a família de Füsen, mesmo que a moça tenha se casado com um jovem roteirista. O que consola e consome Kemal são os objetos que ele furta da casa de Füsen e coleciona em seu próprio apartamento.

E é nesta história de amor que Pamuk descreve a Istambul dos anos 70 e 80, desde os bairros mais burgueses às ruelas onde moram famílias mais humildes, bem como o desejo da cidade de ter tudo o que têm os grandes países ocidentais, mas made in Turquia – desde um refrigerante a grandes produções cinematográficas.

O que eu mais gosto em Pamuk é que ele é um autor que pode ser lido por todo mundo (deve ser de propósito, pois acho que ele quer falar da Turquia para quem bem quiser ouvir). Uma pessoa que só lê best-sellers, por exemplo, vai se encantar com a história de amor de Kemal e Füsen e vai querer acompanhar até o fim o thriller policial em que “Neve” se transforma. Já os “pseudo-intelectuais” podem ir mais além e sentir as tristezas, dúvidas e questionamentos de uma sociedade que não sabe seu papel no mundo.

Pamuk, que é de uma família burguesa decadente de Istambul, traz em seus livros todas as coisas que ele viu e, de certo modo, viveu (ele e sua família estão sempre infiltrados). E, assim, ele conta histórias de ficção com muito realismo. E de modo genial.

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* Texto escrito em 09/09/2011 para o Fabulário Fabuloso, meu outro blog.

** No ano passado, li mais um: ‘Meu nome é vermelho”. E, atualmente, estou lendo “Istambul”.