Novela

O Retrato, Nicolai Gogol

o retrato nicolai gogol“O Retrato” é uma novela de pouco mais de 50 páginas do russo Nicolai Gogol. A obra pode ser pequena, mas carrega em si grande significado e importante reflexão sobre a arte e o artista. O livro narra a história do jovem pintor Tchartkov. Embora promissor, o artista vivia à margem da sociedade: seu talento não era reconhecido, ele não possuía dinheiro, estava para ser despejado de seu modesto apartamento. Porém, um sonho misterioso e um acontecimento inesperado trazem novas oportunidades de fama e reconhecimento. Porém, para tal, o pintor precisar mudar seu estilo, rendendo-se ao que estava em voga no mercado.

Parece óbvio o dilema proposto por Gogol (e é nele que me concentrarei neste post): Tchartkov decide viver por e de sua arte, ainda que permaneça pobre e sem reconhecimento, ou entrega-se ao mercado e obtém fama e dinheiro? O caminho escolhido pelo pintor aparece já nas primeiras páginas de “O Retato”. Ele abandona o seu projeto estético, ou seja, sua concepção artística, para atender as demandas mercadológicas. E, de fato, ele conquista o reconhecimento e o respeito do “grande público”.

Porém, a quê preço? Gogol deixa claro, ao longo de sua novela, que à medida que as economias de Tcharktkov crescem, seu espírito empobrece. O pintor passa a criticar os artistas que permaneceram fiéis à arte. Ele compra as obras desses pintores e as destrói, como quem deseja acabar com qualquer possibilidade de pensar sobre o artista que poderia ter sido. Como quem sabe que se tornou um repetidor de técnicas, apenas isso. O pintor torna-se uma alma corrompida pelo dinheiro e isso lhe traz um grande vazio existencial.

O livro de Gogol foi escrito no século XIX. No entanto, traz uma discussão ainda hoje muito importante. Ou melhor: sobretudo hoje, muito importante. Afinal, o que é arte? A grande maioria das obras serve apenas para servir à chamada indústria cultural. Temos no campo da cultura uma série de produções padronizadas. Não precisamos ir longe para entender este conceito. Basta pensarmos, por exemplo, em todas as cantoras pop, todas elas, com um estilo musical tão parecido a ponto de não reconhecermos que música pertence a qual cantora. Ou, para nos restringirmos ao universo da literatura – objeto deste blog –, podemos pensar em todas as variações e continuações de livros como “Cinquenta tons de cinza”. O que temos aqui não é arte. É apenas uma fórmula que deu certo, que caiu no gosto do público (com o suporte, claro, da mídia) e que daqui a algum tempo será substituída por outra. Essas produções e reproduções são um produto de consumo, que enriquece a indústria cultural e a quem a ela empresta o seu nome – os Tcharktov de hoje.

É exatamente essa a experiência vivida pelo personagem central de “O Retrato”. Gogol nos lembra, então, o que é a arte: uma criação dotada de projeto estético, inspirada por grandes mestres. E que o verdadeiro artista é aquele que carrega em si suas convicções artísticas, bebe das melhores fontes, aprimora-se até que chega um momento em que ele próprio conquista originalidade para criar a sua arte.

O resultado para nós: a arte traz dúvidas, reflexões, incômodos. É o exercício que tento fazer aqui quase toda semana (e diariamente em minhas leituras). Leio para encontrar sentido para o mundo. Para compartilhar da experiência dos escritores. Para conhecer a mim mesma e ao mundo.

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O blog, humilde, já está no ar há pouco mais de um ano! Obrigada aos leitores pelas visitas, comentários, sugestões, informações. Continuem por aqui, sejam bem-vindos sempre.

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Desafio do Livrada:

9- Um livro escrito originalmente em um alfabeto diferente do seu

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O Retrato

Nicolai Gogol

L&PM Pocket

Tradução: Roberto Gomes