Poesia

Argélia – Literatura argelina

Amigos e leitores,

Desculpem o desaparecimento. São muitos os compromissos, o que está atrapalhando – e muito – o meu ritmo de leitura e os livros que leio.

Ainda assim, gostaria de compartilhar com vocês que estou com muita vontade de estudar a literatura argelina. Isso porque, com exceção de alguns nomes que vocês também devem conhecer, pouco sei sobre a Argélia, sua história e, sobretudo, sobre sua produção literária. O desejo, pasmem, surgiu durante a Copa do Mundo. E algum dia, quando eu tiver um tempo, lerei os livros que comprei. São esses dois, de duas autoras contemporâneas. Não sei absolutamente nada sobre elas, encomendei os livros às escuras.

literatura argelina

O jornal O RelevO me mostrou esse belo poema da poetisa Samira Negrouche. Se você não achar bonito, você não tem coração.

il se peut

E, para finalizar, “Denia”, do Manu Chao.

Ilíada, Homero

ilíada homero

Um ou outro comentário sobre a Ilíada, de Homero.
1.
A Ilíada, épica grega de Homero, é o primeiro texto escrito do ocidente. E é um texto grandioso em diversos sentidos. Suas quase 700 páginas, na edição da Penguin Companhia, narram, em verso, os últimos meses da Guerra de Troia, que durou dez anos.

 

2.
O texto de Homero não é, na verdade, sobre a Guerra de Troia, mas sim sobre a ira de Aquiles, o maior herói grego. Aquiles desentende-se com Agamêmnon, líder político dos gregos. Após a briga, Aquiles retira-se da batalha, dando início a um plano arquitetado por Zeus que levará o herói à glória e os aqueus à vitória.

 

3.

Conhecer um pouco de mitologia grega ajuda na leitura da Ilíada. E faz-se necessário entender a concepção de deuses e de heróis para Homero:
3.1. Os deuses homéricos são, em linhas gerais, mais parecidos com os homens do que com os deuses das religiões monoteístas. Eles possuem características antropomórficas. Precisam seguir regras e são sujeitos à ordem cósmica – não há para eles um deus transcendente.
Além disso, os deuses homéricos são imortais e jovens, mas não eternos. Ou seja, estão sujeitos ao tempo, mas não morrem. Possuem, ainda, grande conhecimento sobre o passado e o futuro, porém não são onipresentes, oniscientes e onipotentes.
São dotados também de grande poder de transformação – de si próprios e dos outros. Quando aparecem aos homens, o fazem por meio de vozes, sonhos e pela transfiguração em animais.
3.2. Os heróis de Homero são guerreiros. Logo, integram uma importante aristocracia responsável por defender as cidades e conquistar a elas riquezas. Assim, pode-se facilmente concluir que os heróis são objetos de culto e, por meio dos cantos, imortalizados.
Para serem cantados, os heróis precisam comprovar sua virtude (areté). E eles comprovam suas virtudes por meio de ações. Por isso, a moral heroica determina que o herói participe de guerras para conquistar fama e respeito (timé). Assim, para Homero, a parte mais importante de uma pessoa é a fama (kléos) – ou seja, o que os outros pensam dela. Assim, se um herói figura em uma poesia épica (seja com feitos positivos ou negativos – o importante é o caráter de extraordinariedade), torna-se imortal.

 

4.
Entendendo melhor a concepção de herói, fica mais fácil compreender que o objetivo de um deles é ser cantado, ou seja, é aparecer na Ilíada. E ser cantado não é sinônimo de vaidade, mas, sim, de imortalidade. A partir disso, compreendemos o valor da guerra, necessária, então, para que os heróis possam ser grandes. No Canto II, há uma passagem que mostra como o combate é valoroso – para determinadas pessoas, em certos contextos, multifacetando o mundo homérico:

Com ela se lançava, faiscante, pela hoste dos Aqueus,
incentivando-os a avançar. No peito de cada um lançava
no coração a força inquebrantável para guerrear e combater.
Então lhes pareceu a guerra mais doce do que regressar
nas côncavas naus para a amada terra pátria.

 

5.
Na verdade, não podemos afirmar se a Ilíada e a Odisseia foram, de fato, escritas por um ser chamado Homero. Há estudos que tentam provar por A+B que ambas as obras são compilações de textos menores, transmitidas pela tradição oral e, depois, passadas para texto escrito. Outras correntes apresentam uma série de argumentos que mostram que a Ilíada e a Odisseia são muito geniais para serem criadas por diversas pessoas. Não há como saber quem está certo aqui.

 

6.
De qualquer modo, a narrativa homérica é, de fato, genial. Alguns exemplos (sobre os quais não pretendo me aprofundar muito):
– Ao longo da obra, Homero mostra que não existe um lado correto ou uma pessoa totalmente forte e íntegra. A briga entre Aquiles e Agamêmnon é um exemplo. Ambos estavam errados, ambos não souberam lidar com seu orgulho e insegurança e, por isso, pagam um alto preço.
– Nem mesmo Zeus, o mais poderoso dos deuses, é livre das consequências de suas escolhas. Ao optar por interceder a favor de Aquiles, ele sabe que perderá filhos amados na guerra.
Esses são apenas dois exemplos que mostram como Homero, em sua narrativa, humaniza as experiências. A leitura, de fato, não é fácil, mas isso é proposital. O que se deseja é que leitor reflita sobre o texto e tenha a partir dela uma experiência intelectual.

 

7.
Ainda sobre a narrativa de Homero. Sobre a guerra:
Em momento algum, Homero afirma que a guerra é o que há de mais terrível. Isso fica para o leitor concluir. E o leitor chega a essa conclusão, pois, ao mesmo tempo em que leva o herói à glória, o combate é extremamente destruidor, é sempre terrível. Vale acrescentar que as descrições de Homero para as cenas de batalha são extremamente bonitas. Um exemplo, do Canto IV:

Assim falando, saltou armado do carro para o chão;
e terrivelmente ressoou o bronze sobre o peito do soberano
que avançava: o medo até teria dominado quem era corajoso.

Tal como na praia de muitos ecos as ondas do mar são impelidas
em rápida sucessão pelo sopro de Zéfiro e surge primeiro
a crista no mar alto, mas depois ao rebentar contra a terra firme
emite um enorme bramido e em torno dos promontórios
incha e se levanta, cuspindo no ar a espuma salgada –
assim avançavam em rápida sucessão as falanges dos Dânaos
para a guerra incessante (…)

 

8.
Um comentário assaz pessoal: a Ilíada não é um livro para se ler rapidamente. Entre algumas pausas, demorei quase três meses para finalizar a leitura. De fato, aproveitei muito mais quando entendi que não seria possível ler rapidamente.
A sensação que eu tinha era a de que o livro jamais acabaria. E aí, conversando com uma amiga, ela expôs a seguinte hipótese: e se a intenção for realmente essa, a de dar a impressão de que a Ilíada jamais acabará? Veja, o livro narra os últimos meses da guerra; estão todos fatigados, com o desejo de voltar para casa e, conforme se passam os dias, o regresso parece cada vez mais longe. Até que Aquiles volta para o combate e é a sua ira que mata os troianos. Quando Aquiles decide lutar novamente, a obra ganha um novo ritmo e o leitor sente o desfecho muito mais próximo – e, também, muito mais violento. Bem, se esta for, de fato, uma das intenções do autor, estamos falando sobre um livro muito, muito genial.

***

Desafio do Livrada:

6- Um livro com mais de 500 páginas

 

________

Ilíada

Homero

Penguin Companhia

Tradução: Frederico Lourenço

Sentimental, Eucanaã Ferraz

sentimental eucanaã ferraz

“Sentimental”, do poeta carioca Eucanaã Ferraz, diz a que veio já na primeira página, com o poema “O Coração”. São apenas dois versos, porém, com a força que muitos livros jamais terão. Diz assim:

Quase só  músculo a carne dura.

É preciso morder com força.

Ao longo da leitura, o leitor não consegue esquecer “O Coração”, e não é por causa de sua brevidade. A ideia nele representada pelos termos “carne dura” e “morder com força” serão constantes em todos os poemas, os quais tratam, claro, do que chamo aqui de as coisas do coração, este músculo muitas vezes de carne dura: amor, solidão, (des)ilusão. São, obviamente, temas universais tratados com a inteligência e sofisticação que poucos – e geniais – poetas apresentaram ao mundo.

Muitos dos poemas de “Sentimental” levaram anos, até mesmo décadas, para serem finalizados. Isso porque Eucanaã Ferraz procurava costurar cada um com a palavra mais correta possível (foi o que ele mesmo contou no Paiol Literário de julho do ano passado, aqui em Curitiba *). Todo cuidado é justificável quando analisamos a musicalidade e a força de cada palavra e de cada verso na poesia de Eucanaã Ferraz. Um exemplo está em “Sob a luz feroz do teu rosto”, a propósito, um dos meus favoritos.

Sob a luz feroz do teu rosto

Amar um leão usa-se pouco,
porque não pode afagá-lo
o nosso desejo de afagá-lo,

como tantas vezes cão ou gato
aceitam-nos a mão a deslizar
sobre seu pêlo;

amar um leão não se devia,
agora que já não somos divinos,
quando a flauta que tudo

encantaria, gentes animais
pedras, nós a quebramos contra
a ventania; amar

um leão é só distância: tê-lo ao lado,
não poder beijá-lo, o deserto
que habita em torno dele;

era mais certo amar um barco,
era mais fácil amar um cavalo;
amar um leão é não poder amá-lo;

e nada que façamos adoça
o que nele nos ameaça se
amar um leão nos acontece:

à visão de nosso coração
ofertado, tudo nele se eriça,
seu desprezo cresce;

amar um leão, se nos matasse;
se nos matasse o leão que amamos
seria a dor maior, mais que esperada:

presas patas fúria cravadas em nossa carne;
mas o leão, que amamos,
não nos mata.

E é com a união entre técnica e conteúdo que Eucanaã Ferraz consegue criar imagens fortes, sejam elas das situações mais banais ou de eventos tristes e em poucos versos ou algumas páginas. É o que acontece em “Victor Talking Machine”:

A flor aberta do gramofone por onde amídala

a música passava lisa; havia também o cão

estático diante do aparelho; além de ouvir

a música,

ele podia farejá-la? Talvez até pudesse vê-la

(…)

E é assim, com beleza, ironia e melancolia que o poeta constrói o seu “Sentimental” e desfaz o equívoco de quem acreditava que encontraria uma série de poemas cheios de sentimentalismo barato. Nada na poesia de Eucanaã Ferraz conforta. Ao contrário, ela perturba, incomoda e fere tanto quanto o leão amado do poema acima. Acredito que, de fato, provocar o leitor tenha sido a intenção do poeta (e, mais uma vez, baseio-me no bate-papo do Paiol Literário).

Há muita coisa sobre as quais eu gostaria de escrever aqui sobre “Sentimental”, o mais recente vencedor do Prêmio Portugal Telecom. Porém, prefiro deixar que cada um tire suas próprias conclusões com o poema mais lindo de “Sentimental”.

El laberinto de la soledad

Yuri viu que a Terra é azul e disse a Terra é azul.

Depois disso, ao ver que a folha era verde disse

a folha é verde, via que a água era transparente

e dizia a água é transparente via a chuva que caía

e dizia a chuva está caindo via que a noite surgia

e dizia lá vem a noite, por isso uns amigos diziam

que Yuri era só obviedades enquanto outros

atestavam que tolos se limitavam a tautologias

e inimigos juravam que Yuri era um idiota

que se comovia mais que o esperado; chorava

nos museus, teatro, diante da televisão, alguém

varrendo a manhã, cafés vazios no fim da noite,

secos de carvão; a neve caindo, dizia é branca

a neve e chorava; se estava triste, se alegre,

essa mágoa; mas ria se via um besouro dizia

um besouro, e ria; vizinhos e cunhados decretaram:

o homem estava doido; mas sua mulher assegurava

que ele apenas voltara sentimental. O astronauta

lacrimoso sentia o peito tangido de amor total

ao ver as filhas brincando de passar anel

e de melancolia ao deparar com antigas fotos

de Klushino, não aquela dos livros, estufada

de pensões e medalhas, mas sua aldeia menina,

dos carpinteiros, da lua e lobisomens,

do seu tio Pavel, de sua mãe, do trem,

de seus primos, coisas assim, luvas velhas,

furadas, que servem apenas para fazer chorar.

Era constrangedor o modo como os olhos

de Yuri pareciam transpassar as paredes

nas reuniões de trabalho, nas solenidades,

nas dicsussões de metas para o próximo ano

e no instante seguinte podiam se encher de água

e os dentes ficavam quase azuis de um sorriso

inexplicável: um velho general, ironicamente

ou não, afirmara em relatório oficial que Yuri

Gagarin vinha sofrendo de uma ternura

devastadora; sabe-se lá o que isso significava,

mas parecia que era exatamente isso, porque

o herói não voltou místico ou religioso, ficou

doce, e podia dizer eu amo você com a facilidade

de um pequeno-burguês, conforme sentença

do Partido a portas fechadas. Certo dia, contam

caiu aos pés de Octavio Paz; descuidado, tropeçara

de paixão pelas telas cubistas degeneradas de Picasso.

Médicos recomendaram vodca, férias, Marx,

barbitúricos; o pobre-diabo fez de tudo

para ser igual a todo mundo; mas,

quando parecia apenas banal, logo dizia coisas

como a leveza é leve. Desde o início,

quiseram calá-lo; uma pena; Yuri voltou vivo

e não nos contou como é a morte.

***

* Você pode ler a cobertura do Paiol Literário, evento que traz a Curitiba grandes escritores, com o Eucanaã Ferraz aqui.

Desafio do Livrada:

7 – Um livro de poesia

_____________________

Sentimental

Eucanaã Ferraz

Companhia das Letras

 

 

Desde el infierno, Reinaldo Arenas

Tudo lo que pude ser, aunque haya sido,

jamás ha sido como fue soñado

El dios de la miseria se ha encargado

de darle a realidad otro sentido.

Otro sentido, nunca presentido,

cubre hasta el deseo realizado;

de modo que el placer aun disfrutado

jamás podrá igualar al inventado.

Cuando tu sueño se haya realizado

(dificil, muy dificil cometido)

no habrá la sensación de haber triunfado,

más bien queda en el cerebro fatigado

la oscura intuición de haber vivido

bajo perenne estafa sometido

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Façam um favor a si próprios e assistam ao filme Before Night Falls.

Claro Enigma, Carlos Drummond de Andrade

claro enigma carlos drummond de andradeEu não sei por que nem exatamente quando parei de ler poesia. Quando eu era criança, eu gostava muito de ler e de escrever poesias (tenho até uma história curiosa/bizarra sobre um poema que escrevi aos 8 anos e que causou certa comoção entre os coordenadores pedagógicos da escola). Gostava de Cecília Meireles, de Vinícius de Moraes. E gostava de Drummond. Na minha escola sempre tinha a Semana do Encontro Poético. Os alunos passavam o dia lendo poesia para os outros alunos. Qualquer estudante podia se inscrever, independente da idade. E lá estava eu. Aos 13 anos, já aqui em Curitiba, sugeri para a escola organizar um Encontro Poético também. E não é que acataram minha sugestão? Eu até apresentei o evento e declamei “José”, do Drummond, que sei de cor até hoje.

Tudo isso foi para contar que fiquei muito feliz ao voltar a ler poesia. O livro “escolhido” foi “Claro Enigma”, de Carlos Drummond de Andrade. O escolhido está assim entre aspas porque li este livro para o vestibular, já que pretendo voltar à academia (sei que todo ano falo isso, mas agora vai, gente!). Os poemas de “Claro Enigma” são densos, tristes. O poeta abre o livro com um verso do poeta Paul Valéry –  “Les événements m’ennuient” (Os acontecimentos me entediam) – , verso este que, para mim, define bem o espírito deste livro. No entanto, não é que o poeta goste deste estado de tédio. Está mais para uma revolta interna diante daquilo que o entedia.

Quando penso em “Claro Enigma”, penso em algumas palavras: desilusão, a pequenez do homem, saudade, amor (mas um amor finito), Minas Gerais. Todos esses elementos estão presentes. Fiquei muito tempo pensando em um poema em especial, “A Mesa”. Toda vez que o leio, me emociono. Retrata a saudade da família, o passar o tempo, o amadurecimento, os erros cometidos ao longo da vida, as lições que aprendemos. É lindo.

Escolhi um poema para encerrar este post:

Um boi vê os homens

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm

e correm de um para outro lado, sempre esquecidos

de alguma coisa. Certamente, falta-lhes

não sei que atributo essencial, posto que se apresentem nobres

e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,

até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam

nem o canto do ar nem os segredos do feno,

como também parecem não enxergar o que é visível

e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes

e no rasto da tristeza chegam à crueldade.

Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se

a um simples baixar de cílios, a uma sombra.

Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,

e como neles há pouca montanha,

e que secura e que reentrâncias e que

impossibilidade de se organizarem em formas calmas,

permanentes e necessárias. Têm, talvez,

certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem

perdoar a agitação incômoda e o translúcido

vazio interior que os torna tão pobres e carecidos

de transmitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme

(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no

                                                                                                        [campo

como pedras aflitas e queimam a erva e a água

e difícil, depois disso, é ruminarmos nossa verdade.

 

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Claro Enigma

Carlos Drummond de Andrade

Companhia das Letras