Prêmio Nobel

Beleza e Tristeza, Yasunari Kawabata

beleza e tristeza yasunari kawabataÉ impossível ler Beleza e Tristeza, último romance de Yasunari Kawabata, e não sentir um certo tipo de incômodo. E era exatamente isso que o autor, prêmio Nobel de Literatura em 1968, desejava neste seu derradeiro livro. Afinal, tudo na obra conduz o leitor para essa sensação – o enredo, as personagens, a simplicidade da narrativa de Kawabata e todas as discussões sobre arte e sobre a vida levantadas na obra.

O enredo

Beleza e Tristeza narra a história de Oki Toshio, um escritor que na noite de Ano Novo viaja a Kyoto para encontrar sua antiga amante, a pintora Otoko Ueno. Eles se conheceram décadas atrás, quando Otoko era adolescente, e viveram um caso extraconjugal do qual ela nunca se recuperou. O encontro, apesar de rápido e superficial, faz reviver em ambos questões do passado jamais resolvidas. Ao ver a agonia de Otoko, sua aprendiz e amante, a jovem Keiko Sakami, tece um plano de vingança: seduzir Oki e seu filho Taichiro e, assim, acabar com a paz da família do escritor.

As personagens

As personagens de Beleza e Tristeza estão ligadas às artes. Oki é um escritor que alcançou sucesso a partir de um romance baseado em sua história com Otoko. Ela, por sua vez, é uma renomada pintora de temas tradicionais. É por meio da arte que ambos lidam com o sofrimento do amor mal resolvido. Durante o rápido encontro na noite de Ano Novo, Oki e Otoko não são capazes de expressar a dor e o sofrimento que carregam em si. São personagens de poucas palavras, que pouco se comunicam pela via do dito. Utilizam, para tal, a arte.

Pouco se revela sobre as duas figuras centrais de Beleza e Tristeza. Oki e Otoko podem ser desvendados em doses sutis, sobretudo, por meio do que se diz sobre a produção artística de ambos. E não se diz muito. São as personagens secundárias, contudo, que trazem alguma ação ao romance de Kawabata. A mais marcante é, sem dúvida, Keiko. Ela é a principal responsável pelos conflitos da obra, seja em seu relacionamento com Otoko, seja na relação com Oki e Taichiro, a qual tem como objetivo vingar o sofrimento de sua mestre. Destaca-se, ainda, o papel de Fumiko, esposa de Oki. Ela traz em si todos os conflitos sociais da trama ao encarnar a esposa traída e humilhada. Ao mesmo tempo em que exige do marido explicações, Fumiko resigna-se a seu papel de mulher ao permanecer fiel a Oki, atuando, inclusive, como revisora de seus livros.

A narrativa de Kawabata

Embora Keiko e Fumiko tragam alguma ação à trama, é a passividade de Oki e Otoko o ponto mais alto de Beleza e Tristeza. Não há como voltar no tempo e o drama do casal permanecerá. A narrativa de Kawabata concentra-se em mostrar a contemplação da realidade, da história que não mudará.

Neste contexto, a descrição de paisagens, lugares, bem como das telas de Otoko, é bastante delicada e traz no leitor justamente uma sensação de melancolia, mas também de beleza. Todo o tempo, o leitor tem a sensação de que está diante de um cenário sempre muito triste, mas sempre muito belo . Chegar ao estado de contemplação do enredo e da narrativa de Kawabata é fácil, afinal, Kawabata é um escritor muito sensorial, assim como quase tudo o que conheço da literatura japonesa.

Beleza e tristeza na arte e na vida

Em Beleza e Tristeza, Kawabata traz uma reflexão sobre o papel das artes. Em tempos em que se procura por conforto em tudo, Kawabata nos lembra que uma das funções da arte é provocar, de algum modo, algum certo tipo de incômodo. Ela deve levar as pessoas a pensar em algo, a sentir algo. Muitas vezes, o incômodo surge por meio de uma estética apresentada fora dos padrões. O feio pode estar presente, mesmo que seja para nos lembrar o que é, de fato, belo.

José Teixeira Coelho Netto apresenta no prefácio da edição brasileira de Beleza e Tristeza a ideia de que a beleza, como se sabe, sempre foi uma questão importante na cultura japonesa, que prega que se deve saber enxergar a beleza exatamente em tudo:

(…) a beleza da natureza (à qual pertence a bela mulher, tanto quanto pertence ela ao mundo da cultura), beleza dos sentimentos, beleza da reflexão, beleza da vida e beleza da morte, beleza de encontrar forças para continuar vivendo e beleza de encontrar forças para o suicídio e no suicídio; beleza da arte e beleza do erotismo e beleza do sexo, a beleza do pescoço longo e alvo da mulher amada e a beleza da navalha que por um instante se cogita de mergulhar naquela carne sedosa por nenhuma outra razão além daquela quase exigida por essa mesma carne ou pelo ato em si…

Talvez esteja nisso, na contemplação do belo em qualquer situação, a principal contribuição deste livro, da obra de Kawabata e da cultura japonesa.

O arco e a lira, Octavio Paz

o_arco_e_a_lira_octavio paz_livrosO que vem a seguir não é uma resenha. É um apanhado de anotações que realizei ao longo da minha leitura de “O arco e a lira”, de Octavio Paz.

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É bastante difícil ler “O arco e a lira” e não pensar que se está diante do maior tratado sobre a poesia e a atividade poética. Ou, pelo menos, diante de uma obra grandiosa. A edição da Cosac Naify, publicada no Brasil em 2012, começa com uma carta de Julio Cortázar a Octavio Paz na qual o escritor argentino afirma que seu entusiasmo e sua alegria diante da obra “não são atitude de um novato, e sim, de reconhecimento – por fim – de um trabalho profundo e completo sobre algo que é de longe um dos fogos centrais, se não propriamente o fogo central do homem”. Ao ler isso, você sabe (eu soube) que irá ler algo especial.

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“O arco e a lira” está dividido em três partes: O poema; A revelação poética; Poesia e história. Nelas, Paz pretende encontrar as respostas para as seguintes perguntas:

  1. Há um dizer poético?
  2. O que dizem os poemas?
  3. E como se comunica esse dizer?

Ao longo da obra, o poeta e crítico reflete sobre o significado do poema, sua estrutura e sua importância no mundo ao longo de toda a história.

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O poema

Paz inicia sua reflexão a partir da linguagem (o livro foi lançado em 1956, época do auge do estruturalismo francês). Para ele, o homem é homem graças à linguagem. Cada palavra ou cada conjunto de palavras é uma metáfora, isto é, é passível de mais de um significado. E é a união entre a palavra e a coisa que origina a reconciliação do homem consigo mesmo e com o mundo. Aqui, começamos a entender que o poema é um dos poucos recursos do homem para ir adiante de si mesmo, ao encontro do que ele, de fato, é. O autor aprofunda essa ideia: ele afirma que o poema nos revela o que somos e nos convida a ser o que somos. Com ele, Aquiles e Odisseu são algo mais que duas figuras heroicas: são o destino grego criando a si mesmo.

Então, Paz lança uma pergunta importante: “que sentido têm, se é que têm algum sentido, as palavras e frases do poema?”.

A partir desta pergunta, Paz começa sua reflexão sobre o ritmo dentro da poesia. E quando ele fala em ritmo, vai muito, mas muito além da métrica. O crítico afirma que ninguém pode escapar do poder mágico das palavras. Adiante, ele explica tal magia: todo fenômeno verbal traz em si um ritmo, algo como um imã responsável por mover todo idioma. Toda criação poética convoca, assim, o ritmo como um agente de sedutor. E não se separa ritmo e palavra poética do mesmo modo que não há como dividir ritmo musical e a dança – não se pode afirmar que o ritmo musical é a representação sonora da dança; tampouco que a dança seja a tradução corpórea do ritmo. Isto é, um existe com o outro, sempre.

E é aqui, olha que bonito, que Paz anuncia uma de suas “descobertas” acerca da poesia: o ritmo não é medida. É visão de mundo. Tudo o que chamamos de cultura, diz ele, tem suas raízes no ritmo; é inseparável de nossa condição. Cada sociedade possui um ritmo. Cada ritmo é uma atitude, um sentido, uma imagem de mundo. E esta imagem, por sua vez, é a ponte que o desejo constrói entre o homem e a realidade.

Para o crítico, a linguagem nasce do ritmo. E é aqui que entendemos uma diferença crucial entre prosa e poema. O ritmo se dá espontaneamente em toda forma verbal, porém, apenas no poema ele se manifesta plenamente. Sem ritmo, não há poema e só com ritmo não há prosa. Então, compreendemos por que a prosa (com todos os seus esforços para domar a fala) é um gênero tardio da literatura, enquanto a poesia pertence a todas as épocas – é uma expressão inerente à sociedade.

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Paz inicia no capítulo “Imagem” uma ideia que será essencial para a compreensão de boa parte do restante de “O arco e a lira”. Ele começa por contrapor o pensamento ocidental, que afirma que você é aquilo (em oposição a isto), e o oriental, que diz que você é aquilo e isto. O autor abraça o pensamento do oriente. A seguir, um conceito importante para o resto do livro:

“Pensar é respirar porque pensamento e vida não são universos separados, mas vasos comunicantes: isto é aquilo. A identidade última do homem e o mundo, a consciência e o ser, o ser e a existência, é a crença mais antiga do homem e raiz da ciência e da religião, da magia e da poesia”.

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Uma das questões abordadas pela filosofia é a definição de verdade. Para Paz, a verdade é uma experiência pessoal. O autor nos leva a pensar em um exemplo banal – uma cadeira mencionada em um poema. O poeta não descreve a cadeira; ele a coloca na nossa frente. Ela nos é dada com todas as suas qualidades e o leitor suscita em si o objeto que ele um dia percebeu. Ele recria a experiência da realidade, nos leva ao nosso cotidiano mais banal, mas também à realidade mais obscura. A cadeira pode, então, ser muitas coisas.

Logo, o poeta não quer dizer isto ou aquilo. Ele apenas diz.

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A revelação poética

Aquela ideia de o homem ser aquilo e isto fica mais clara nesta segunda parte de “O arco e a lira”. E será a partir dela que Paz explicará a revelação/atividade poética. Vamos por parte.

Para Paz, o homem sempre teve curiosidade pelo mundo do divino, que nos conduz a um mundo à parte, o mundo do sagrado. O crítico defende que entrar neste lugar à parte é possível. É possível pela habilidade do homem, a qual ele chama de salto-mortal.

“E talvez nossos atos mais significativos e profundos não passem de repetição desse morrer do feto que renasce como criança. Em sumo, o ‘salto-mortal’, a experiência da ‘outra margem’ implica uma mudança de natureza: é um morrer e um nascer. Mas a ‘outra margem’ está em nós mesmos. Sem nos mover, quietos, somos arrastados, impulsionados por um grande vento que nos expulsa para fora de nós. Ele nos joga para fora e, ao mesmo tempo, nos empurra para dentro de nós. A metáfora do sopro aparece repetidas vezes nos grandes textos religiosos de todas as culturas: o homem é desarraigado como uma árvore e arremessado para lá, para a outra margem, ao encontro de si. E aqui se apresenta outra característica extraordinária: a vontade intervém pouco ou então participa de forma paradoxal. Se foi escolhido pelo grande vento, é inútil que o homem tente resistir”.

Este outro que o homem encontra ao realizar o salto-mortal para a outra margem é ele mesmo. Causa a estranheza diante de si mesmo, da própria realidade, mas também diante de algo que a questiona: a identidade do próprio ser. É o fenômeno da outridade. Diante do outro, sempre há, primeiramente, a repulsa; depois a fascinação e,por último, a vertigem.

E a conclusão a que se chega depois do salto-mortal: este Outro também é eu.  É o nosso duplo,que tentamos capturar e sempre nos escapa. Este é o sentido da verdadeira solidão. E nada pode trazer o Outro de volta a não ser o salto-mortal.

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Há uma semelhança muito grande entre o amor e essa experiência do sagrado – essa busca pelo Outro. Os poetas foram os primeiros a perceber tal similaridade. Seja na experiência amorosa, seja na experiência religiosa, o homem se imagina. Ao imaginar-se, ele se revela.

E todo amor é uma revelação, segundo Paz, um tremor que abala os alicerces do eu e nos leva a proferir palavras que não são muito diferentes das que o místico emprega. Na criação poética, acontece algo parecido. Ausência e presença, vazio e plenitude são estados poéticos tanto quanto religiosos ou amorosos. Logo, a experiência poética também é um salto-mortal; é uma mudança de natureza que também é a volta à nossa natureza original.

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Paz lança mais uma questão importante: Que vontade leva o poeta a escrever? A resposta mais comum talvez seja a inspiração. Porém, nunca ninguém conseguiu explicar o que ela é de fato. Os iluministas encontraram na razão explicação para tudo, exceto para a inspiração; por isso, decidiram ignorá-la ou afirmar que ela não existe. Já para Freud, o poético é a revelação do inconsciente.

Para o crítico, a resposta para a inspiração está na outridade, nesta morte e ressurreição permanente. A outridade explicaria o enigma dessa outra voz que o poeta ouve assim:

O poeta está diante do papel. Está só. O mundo se abre e se fecha. O poeta, então, retrai-se; ele quer recordar a linguagem. Mas não há mais “atrás” para ir. Então, ele é lançado para frente e chega ao estado em que se encontra fora de si. É preciso, assim, inventar as palavras. O poeta não as tira de si. Elas também não vêm do exterior. Aliás, não existe interior ou exterior: somos no mundo e o mundo é um dos constituintes do nosso ser. O mesmo vale para as palavras. Então o poeta dá o salto-mortal, renasce e é outro. Ou seja, ele não ouve uma voz estranha – ele mesmo é algo alheio.

Assim, Paz define a inspiração como a manifestação da outridade. É algo/alguém que nos chama para ser nós mesmos. E esse alguém é o nosso próprio ser.

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Poesia e história

Nesta terceira parte, Paz pretende explicar como o ato poético se insere no mundo. Para ele,todo poema tem uma maneira peculiar de ser histórico. Percebê-lo é ver a realidade histórica e a sociedade no qual um poema está inserido. Aí o crítico analisa a atividade poética e a literatura nas suas mais diversas fases: épica, lírica, drama, prosa, além da poesia contemporânea.

Infelizmente, não pude fazer muitas anotações sobre esta última parte – que não deixa de ser interessantíssima.

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Essa edição linda da Cosac Naify ainda traz outros ensaios, todos bastante interessantes. Gostei muito do “A nova analogia: poesia e tecnologia”, no qual Paz discute qual o papel da técnica na atividade poética.

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O arco e a lira

Octavio Paz

Cosac Naify

Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacth

Gabo,

Literatura-Gabriel-Garcia-MarquezO ano era 2004. Definitivamente, um ano em que, por diversas razões, os livros foram muito mais meus amigos do que muita gente. E você estava lá me fazendo companhia. Lembro como se fosse hoje o dia em que comecei a ler “O amor nos tempos do cólera”. Em uma única tarde, li tantas páginas, quase a metade. Porque seus livros são assim: a gente não consegue largar. A gente se envolve, se apega, se emociona. Logo depois, “Cem anos de solidão”. Mais uma vez, um grande livro, uma grande história. Personagens memoráveis. Até hoje, certos acontecimentos me lembram Úrsula. Suas histórias e seus personagens são assim: acompanham a gente o resto da vida.

Isso para falar dos livros mais conhecidos…

Obrigada por tantas histórias. Celebremos a sua vida, que foi incrível.

Gabriel García Márquez – 1927 – 2014

O Amor de uma Boa Mulher, Alice Munro

o amor de uma boa mulher alice munro nobelSe não fosse o Nobel de Literatura 2013, provavelmente teria passado o ano – e, quem sabe, quantos mais – sem conhecer Alice Munro. Foi por causa do prêmio que resolvi pesquisar um pouco mais sobre a autora e escolhi, para começar, “O Amor de uma Boa Mulher”, publicado em 1998 e lançado neste ano pela Companhia das Letras.

São oito contos em que a figura feminina está no foco.  Temos, em cada um dos contos, mulheres nas mais diferentes idades e condições de vida: bebês, crianças, jovens, adultas, senhoras. Todas têm em comum o fato de fugirem à imagem atribuída inúmeras vezes às mulheres dos anos 1940 e 1950 (época em que os contos são ambientados): filhas perfeitas, educadas, jovens esposas que esperam o marido voltar da guerra, perfeitas donas de casa. São mulheres que se mostram, acima de tudo, humanas, cheias de dúvidas, de contradições, de imperfeições. Alguns exemplos:

– A narradora do último conto, “O sonho de mamãe”, narra como ela e sua mãe não desenvolveram uma ligação especial de mãe e filha quando esta era uma recém-nascida.

– Karin, a pré-adolescente de “Podre de rica”, deseja parecer uma prostituta em uma viagem de avião para reencontrar sua mãe.

– Pauline, a protagonista de “As crianças ficam”, casada, mãe de duas garotinhas, é convidada para integrar um grupo de teatro amador e se distancia do seu papel de “mulher de família”.

A narrativa de Alice Munro é incrível. A escritora simplesmente arrasta o leitor para dentro de cada conto. O primeiro deles, justamente “O amor de uma boa mulher”, começa quando três meninos de uma cidadezinha canadense descobrem um carro com um corpo. O leitor deseja descobrir quem é o morto, como sempre acontece nas histórias policiais. E é aqui que mora a genialidade de Alice Munro. O achado dos três garotos é apenas o ponto de partida para uma discussão muito mais ampla, muito mais profunda, muito mais além do que a resolução de um mistério policial.

Munro também dirige a atenção do leitor para personagens secundários para revelar traços importantes dos principais. É o que ela faz em “Jacarta”. Neste conto, temos dois casais: Kath e Kent, Sonje e Cottar. Ao focar boa parte do conto em Kath e Cottar, ela trata, na verdade, dos outros dois.

Todos os contos deste livro são excelentes. Realmente, de alto nível. Eles provocam no leitor (ou, pelo menos, em mim) aquela sensação de soco no estômago, de provocação. E nada é óbvio com Alice Munro. Quando o leitor pensa que desvendou o conto, eis que a autora nos surpreende com um novo elemento.

Difícil escolher um conto favorito. Talvez (e é só talvez mesmo, pois, como eu disse, todos são excelentes), escolho “Antes da mudança”. Neste, a protagonista abandona a faculdade e volta a viver com o pai, com quem nunca viveu uma relação muito próxima. E é nesta nova convivência que ela descobre muito sobre esta figura paterna amarga e fechada. Escolho-o por razões bem pessoais, é verdade. Certos trechos, como este, partiram o meu coração:

“Meu pai pôs um cheque ao lado do meu prato. Hoje, domingo, na hora do almoço. A Sra. Barrie nunca está aqui aos domingos. Quando meu pai volta da igreja, comemos um almoço frio, que eu preparo, de carnes em fatias, pão, tomate, picles e queijo. Nunca pede que eu vá com ele à igreja, provavelmente porque pensa que isso só me daria a oportunidade de fazer comentários que ele não se interessa em ouvir.

O cheque era no valor de cinco mil dólares.

‘É para você’, ele disse. ‘Para você ter alguma coisa. Pode depositar no banco ou investir como quiser. Verifique as taxas de juros. Eu não acompanho essas coisas. Claro que você também herdará a casa. No tempo certo, como se costuma dizer’.

Um suborno? Eu acho. Dinheiro para abrir um pequeno negócio, para fazer uma viagem? Dinheiro para dar entrada na compra de uma casa ou para voltar à universidade e acumular outros dos diplomas que ele classificava como inegociáveis?

Cinco mil dólares para se livrar de mim”.

 

Realmente, incrível.

 

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O Amor de uma Boa Mulher

Alice Munro

Companhia das Letras

Tradução: Jorio Dauster

A Casa do Silêncio, Orhan Pamuk

a casa do silêncio orhan pamukEstamos em uma cidade do litoral da Turquia, em meio à Guerra Fria. Em uma mansão aos pedaços mora Fatma, uma viúva de 90 anos, com seu criado, o anão Recep. No verão, ela recebe a visita de seus netos: o historiador Faruk, a estudante de Sociologia Nilgün e o estudante Metin. Os três não reconhecem Hasan, sobrinho de Recep, com quem eles brincavam na infância e que se tornou um jovem ultranacionalista. É neste contexto em que Orhan Pamuk nos conduz em seu “A Casa do Silêncio”, de 1983, mas publicado somente agora no Brasil pela Companhia das Letras.

Múltiplos narradores não é uma exclusividade de “Meu Nome é Vermelho”. Reflexões sobre a Turquia, sua história e sua política, e sobre a vida também aparecem em “A Casa do Silêncio” com força, como em toda a obra de Pamuk. Cada um dos narradores existe e narra cada qual uma parte da história para mostrar um modo de vida, de viver e contemplar a Turquia.

Fatma 

É o tradicionalismo e conservadorismo turco. É a vida guiada pelos mandamentos de Alá, sem direito a dúvidas, a questionamento. É a total incompatibilidade com seu marido, o Dr. Selâhattin, que descobre que Alá não existe, que escreve uma enciclopédia para contar à humanidade todas as verdades do mundo e que tem um relacionamento extraconjugal, do que nascem Recep e Ismail.

Recep

É o viver no passado e na imaginação, a passividade, a incapacidade de mudar diante de uma vida de frustrações. Ao mesmo tempo, é a possibilidade de amor, de um amor passivo, servil.

Faruk

O apego à história, a busca de explicações no ontem para o que acontece hoje, seja para a Turquia, seja para sua vida. E é o ignorar (ou fingir ignorar) as respostas que são bastante claras.

Metin

Ódio a sua condição, que está aquém da de seus colegas. O sonho americano, a ocidentalização de sua vida.

Hasan

Obsessão. Por mudar de vida, por suas ideias políticas, por Nilgün. Uma vítima (?) de suas origens humildes.

“A Casa do Silêncio” é construída, na verdade, por personagens cheias de ideias e sentimentos para compartilhar. É como se cada um deles deitasse ao divã (ou recorresse a uma espécie de viagem sem volta, como diz Fatma) para tirar de si tudo aquilo que está preso, causando um pesar em suas almas. E é nesse escancarar de coração que Pamuk mostra o quão bom e o quão vil o ser humano – um mesmo ser humano – pode ser. E o domínio de todas essas vozes é extraordinário. As conclusões às quais chega Hasan em diversos capítulos ou o capítulo em que Metin conta com todos os seus hormônios de adolescente e com um único ponto final ao longo de 12 páginas sobre sua noite em uma festa são exemplos de que Pamuk é mestre em construir personagens com profundidade, em saber dar a eles a linguagem e o tom corretos.

É um livro tristíssimo, de pessoas em crise, em conflito, à beira de algum tipo de colapso. De pessoas que sabem que não há outra vida, outra viagem, além desta e que, por isso, se agarram ao que têm e vivem como conseguem. Embora Pamuk seja conhecido por ser um grande pensador sobre todas as questões políticas, religiosas e sociais da Turquia, na verdade ele é um grande pensador sobre a humanidade, sobre as pessoas, como ele mesmo afirma nessa entrevista concedida à Folha.

“Engraçado: às vezes, embora sentindo vergonha, tenho vontade de fazer mal aos outros para que percebam a minha existência, assim eu os castigaria e eles não se deixariam mais tentar pelo diabo e talvez tivessem medo de mim”.

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A Casa do Silêncio

Orhan Pamuk

Companhia das Letras

Tradução: Eduardo Brandão

À Espera dos Bárbaros, J.M. Coetzee

esperadosbarbarosNo dia 15 de abril, tive a oportunidade de assistir a uma conferência do escritor sul-africano J.M. Coetzee aqui em Curitiba, como parte do projeto Conversa Entre Amigos. Na ocasião, o escritor falou sobre a censura no regime do apartheid  e leu um trecho de seu “À Espera dos Bárbaros”. Achei tão excelente que decidi ler este livro.

“À Espera dos Bárbaros” narra a história de um magistrado – sem nome – de um calmo vilarejo até a chegada do Corenel Joll, que veio da capital para investigar uma ameaça de invasão de uma tribo bárbara ao local. Em meio a investigações e interrogatórios violentos, o magistrado passa a manter em sua casa uma moça bárbara, cega, que perdeu o pai.

A partir deste seu relacionamento com esta mulher, que não chega a ser amoroso, e das práticas cruéis, desumanas de Joll em sua missão, o magistrado começa a sentir certo desconforto. E, dia após dia, vai criando coragem para desafiar a ordem da capital e questionar, de fato, quem é a parte bárbara dessa história, desse conflito. No entanto, o magistrado é só em seu questionamento, em sua revolta. E, como tal, sofre sozinho as consequências de erguer sua voz contra a maioria, como acontece em qualquer regime autoritário.

O livro é, obviamente, uma crítica ao apartheid. O mais interessante, no entanto, é como Coetzee utiliza a solidão de seu protagonista para analisar à fundo todo o cenário pessoal e político vivido pelo personagem (não conheço profundamente a obra de Coetzee, mas protagonistas solitários parecem ser uma constante em sua obra). O seu relacionamento sexual com a tal mulher – ou a falta dele – leva o protagonista a refletir sobre o envelhecimento, as mudanças de seu corpo, sua virilidade. As torturas que vê e que sofre, este sentimento de “estar no limite” levam o magistrado a desejar viver mais um dia, a vencer as humilhações do corpo que não aguenta a violência e o próprio ato de envelhecer. E foi com esta ânsia de passar por mais um dia que o vilarejo fictício deste livro e a bem real África do Sul sobreviveram.

“À Espera dos Bárbaros” é o livro de Coetzee de que mais gostei até agora (dele li também “Desonra” e “Homem Lento”). É angustiante. As cenas de tortura são fortes, impactantes. Lembro de ter ficado bem introspectiva – mais que o normal – enquanto lia este livro. Pensei muito sobre a vida, sobre como é importante ter mais um pouquinho de força, mesmo quando a gente acha que ela já está esgotada.

“Dormir já não é um banho curativo, uma recuperação das forças vitais, mas um esquecimento, um roçar noturno com a aniquilação”. 

P.S.: comentário desnecessário do dia: Coetzee é um senhor muito bem apessoado.

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“À Espera dos Bárbaros”

J.M. Coetzee

Companhia das Letras

Tradução: José Rubens Siqueira

Istambul – Orhan Pamuk

istambul orhan pamukPelo segundo ano consecutivo, no meu aniversário começo a ler um livro do Orhan Pamuk. Este ano, o escolhido foi “Istambul”. Trata-se de um livro de memórias – do próprio Pamuk e da capital turca, cidade onde nasceu e viveu a maior parte de sua vida.

Em “Istambul”, Pamuk mostra como compreende sua cidade resgatando sua própria história de vida. E o faz quase sem nenhum pudor. Narra, como se estivesse contando uma história fictícia, os insucessos financeiros  e a queda social de sua família, as traições de seu pai, as brigas constantes, seu amor pela pintura e pelos livros, seus primeiros anos na escola, seu primeiro namoro… Com a leitura, fui conhecendo a pessoa Orhan Pamuk melhor e o enxergando em determinados trechos de seus romances (sempre tem um Pamuk em seus livros).

E, ao contar sua história, o escritor desvenda a Istambul de verdade, essa que é um grande ponto de interrogação e muito diferente da Istambul para turista ver (ou da que passa na novela – eu acho que essa novela atual se passa na Turquia, correto?). Um dos pontos mais marcantes do livro – e de toda a obra de Orhan Pamuk – é essa crise de identidade permanente da capital turca. A cidade quer ser parte do ocidente sem abrir mão de sua cultura, de seu modo de viver. Quer ter tudo o que o ocidente tem, mas com uma assinatura turca (sempre lembro da história da Fanta turca contada em “O museu da inocência”). E se ressabia quando é criticada, quando alguém – do ocidente – aponta alguma falha ou não demonstra apoio. Parece uma certa cidade que eu conheço, mas enfim…

A palavra que define Istambul é melancolia. No turco, a palavra é “hüzün” e tem um sentido de vazio espiritual, de perda. Tem, também, um forte sentido religioso. E a hüzün está presente em tudo: nas pessoas, na arquitetura, nas ruas, nos rios, na cultura, na vida social. E isso, para Istambul, é belo. A hüzün é explicada logo nas primeiras páginas de “Istambul”. E aí você começa a prestar atenção nas fotos da cidade espalhadas pelo livro e começa a enxergar essa melancolia e a perceber que ela é, realmente, bela.

Terminei a leitura com a sensação de que Pamuk é um dos poucos intelectuais turcos que, ao invés de tentar ocidentalizar sua cidade, tenta explicá-la em todo o seu ser. Louvável!

Dispensável dizer que o livro é muito bem escrito e envolvente. Pamuk SABE como contar uma história e acredito que se ele tivesse que escrever um livro de receitas de bolo ou a lista telefônica, faria algo genial. E é isso sempre o que mais me encanta na obra deste escritor.

“Com o tempo, a vida – como a música, a arte e as histórias – oscilaria, subindo e descendo, até chegar ao fim, mas mesmo muitos anos mais tarde aquelas vidas continuam conosco, nos panoramas da cidade que escorrem diante dos nossos olhos, como memórias colhidas em sonhos” (p. 330).

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Istambul – Memória e Cidade

Orhan Pamuk

Companhia das Letras

Tradução: Sergio Flaksman