Romance

Beleza e Tristeza, Yasunari Kawabata

beleza e tristeza yasunari kawabataÉ impossível ler Beleza e Tristeza, último romance de Yasunari Kawabata, e não sentir um certo tipo de incômodo. E era exatamente isso que o autor, prêmio Nobel de Literatura em 1968, desejava neste seu derradeiro livro. Afinal, tudo na obra conduz o leitor para essa sensação – o enredo, as personagens, a simplicidade da narrativa de Kawabata e todas as discussões sobre arte e sobre a vida levantadas na obra.

O enredo

Beleza e Tristeza narra a história de Oki Toshio, um escritor que na noite de Ano Novo viaja a Kyoto para encontrar sua antiga amante, a pintora Otoko Ueno. Eles se conheceram décadas atrás, quando Otoko era adolescente, e viveram um caso extraconjugal do qual ela nunca se recuperou. O encontro, apesar de rápido e superficial, faz reviver em ambos questões do passado jamais resolvidas. Ao ver a agonia de Otoko, sua aprendiz e amante, a jovem Keiko Sakami, tece um plano de vingança: seduzir Oki e seu filho Taichiro e, assim, acabar com a paz da família do escritor.

As personagens

As personagens de Beleza e Tristeza estão ligadas às artes. Oki é um escritor que alcançou sucesso a partir de um romance baseado em sua história com Otoko. Ela, por sua vez, é uma renomada pintora de temas tradicionais. É por meio da arte que ambos lidam com o sofrimento do amor mal resolvido. Durante o rápido encontro na noite de Ano Novo, Oki e Otoko não são capazes de expressar a dor e o sofrimento que carregam em si. São personagens de poucas palavras, que pouco se comunicam pela via do dito. Utilizam, para tal, a arte.

Pouco se revela sobre as duas figuras centrais de Beleza e Tristeza. Oki e Otoko podem ser desvendados em doses sutis, sobretudo, por meio do que se diz sobre a produção artística de ambos. E não se diz muito. São as personagens secundárias, contudo, que trazem alguma ação ao romance de Kawabata. A mais marcante é, sem dúvida, Keiko. Ela é a principal responsável pelos conflitos da obra, seja em seu relacionamento com Otoko, seja na relação com Oki e Taichiro, a qual tem como objetivo vingar o sofrimento de sua mestre. Destaca-se, ainda, o papel de Fumiko, esposa de Oki. Ela traz em si todos os conflitos sociais da trama ao encarnar a esposa traída e humilhada. Ao mesmo tempo em que exige do marido explicações, Fumiko resigna-se a seu papel de mulher ao permanecer fiel a Oki, atuando, inclusive, como revisora de seus livros.

A narrativa de Kawabata

Embora Keiko e Fumiko tragam alguma ação à trama, é a passividade de Oki e Otoko o ponto mais alto de Beleza e Tristeza. Não há como voltar no tempo e o drama do casal permanecerá. A narrativa de Kawabata concentra-se em mostrar a contemplação da realidade, da história que não mudará.

Neste contexto, a descrição de paisagens, lugares, bem como das telas de Otoko, é bastante delicada e traz no leitor justamente uma sensação de melancolia, mas também de beleza. Todo o tempo, o leitor tem a sensação de que está diante de um cenário sempre muito triste, mas sempre muito belo . Chegar ao estado de contemplação do enredo e da narrativa de Kawabata é fácil, afinal, Kawabata é um escritor muito sensorial, assim como quase tudo o que conheço da literatura japonesa.

Beleza e tristeza na arte e na vida

Em Beleza e Tristeza, Kawabata traz uma reflexão sobre o papel das artes. Em tempos em que se procura por conforto em tudo, Kawabata nos lembra que uma das funções da arte é provocar, de algum modo, algum certo tipo de incômodo. Ela deve levar as pessoas a pensar em algo, a sentir algo. Muitas vezes, o incômodo surge por meio de uma estética apresentada fora dos padrões. O feio pode estar presente, mesmo que seja para nos lembrar o que é, de fato, belo.

José Teixeira Coelho Netto apresenta no prefácio da edição brasileira de Beleza e Tristeza a ideia de que a beleza, como se sabe, sempre foi uma questão importante na cultura japonesa, que prega que se deve saber enxergar a beleza exatamente em tudo:

(…) a beleza da natureza (à qual pertence a bela mulher, tanto quanto pertence ela ao mundo da cultura), beleza dos sentimentos, beleza da reflexão, beleza da vida e beleza da morte, beleza de encontrar forças para continuar vivendo e beleza de encontrar forças para o suicídio e no suicídio; beleza da arte e beleza do erotismo e beleza do sexo, a beleza do pescoço longo e alvo da mulher amada e a beleza da navalha que por um instante se cogita de mergulhar naquela carne sedosa por nenhuma outra razão além daquela quase exigida por essa mesma carne ou pelo ato em si…

Talvez esteja nisso, na contemplação do belo em qualquer situação, a principal contribuição deste livro, da obra de Kawabata e da cultura japonesa.

A Festa da Insignificância, Milan Kundera

a festa da insignificância milan kunderaA Festa da Insignificância foi, talvez, um dos lançamentos literários mais aguardados e comentados do ano. Pudera: o autor é ninguém mais, ninguém menos que Milan Kundera e a Companhia das Letras, editora responsável pela publicação da obra no Brasil, fez uma senhora divulgação, além de uma edição linda, de capa dura – coisa fina. O livro que chegou às mãos do leitor, contudo, talvez tenha deixado uma ou outra pergunta no ar: “mas sobre o que é este livro?” / “mas o que é a tal insignificância festejada?”. Afirmo isso por alguns comentários que li e ouvi por aí.

Gosto de pensar que A Festa da Insignificância é mais simples do que aparenta. Os diversos curtos capítulos do romance estão centrados em quatro personagens, os amigos Ramon, Alain, Charles e Calibã, e destacam fatos e observações do dia a dia deles , como o papel do umbigo como nova zona erótica, o stalinismo, as relações amorosas, a conflito com a figura materna. Os eventos narrados são espaçados no tempo e cada capítulo parece desconectado, em alguma media, com os demais. Conectando todos os personagens há uma festa promovida por um quinto amigo, D’Ardelo, na qual todos se reúnem.

A narrativa de A Festa da Insignificância é bastante fragmentada e, num primeiro momento, nada parece fazer muito sentido. Contudo, o interessante do livro é olhar para ele capítulo a capítulo, procurando perceber o valor de cada um deles. Uma leitura mais atenta revela, então, o que há de importante para ser observado a partir das situações e observações banais vividas e realizadas pelos personagens. Um exemplo está já na abertura do romance, quando Alain passeia pelas ruas de Paris, observa  moças com blusas que deixam o umbigo à mostra e questiona os motivos que levaram essa parte do corpo (e não mais os seios, coxas e bundas) a ter importante papel erótico. O capítulo acaba – embora o tema seja retomado – e cabe ao leitor, se assim, quiser, refletir com Alain.

Este exercício realizado capítulo a capítulo conduz à percepção de elementos comuns à obra de Kundera, como a crítica à cultura ocidental, a individualidade, a superficialidade nas relações humanas e, também, nas produções artísticas.

Todos esses elementos servem, assim, para mostrar aquilo que me parece ser a tese de Kundera: estamos vivendo em um mundo de banalidades, de pequenos e sucessivos acontecimentos banais, sem significância, sem importância. E talvez nem nos damos conta disso. Talvez a insignificância se revele apenas quando refletimos (ou somos forçados ou conduzidos a refletir) sobre as pequenas coisas cotidianas. Ela, a insignificância, revela-se assim:

A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda a parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muita coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la. Aqui,neste parque, diante de nós, ela está presente com toda sua evidência, com toda sua beleza. Sim, sua beleza. Como você mesmo disse: a animação perfeita… e completamente inútil, as crianças rindo…  sem saber por quê, não é lindo? Respire, D’Ardelo, meu amigo, respire essa insignificância que nos cerca, ela é a chave da sabedoria, ela é a chave do bom humor.

 

Extensão do Domínio da Luta, Michel Houellebecq

extensão do domínio da lutaNem sempre a biografia de um escritor diz respeito à sua obra. Contudo, creio que isso não se aplique ao francês Michel Houellebecq (e, se você não ouviu falar dele, prepare-se para 2015*).  Houellebecq é como seus protagonistas: solitário, pessimista, depressivo e capaz de mostrar o pior do mundo e da humanidade, mesmo quando deseja acreditar em um dos dois ou em ambos.

Extensão do Domínio da Luta é o primeiro romance de Houellebecq e já trazia sinais do que viria nos livros futuros. Nele, Marcel, o protagonista, é um engenheiro de informática que começa a prestar uns serviços para o Ministério da Agricultura da França. Apesar de a profissão dar uma ideia de um homem bem sucedido, o protagonista revela ser um homem infeliz, solitário, misógino, com um único objetivo: provar a impossibilidade das relações humanas – o que, penso eu, Houellebecq tenta provar em todos os seus livros.

E ao longo da narrativa o leitor quase se convence de que o mundo é mesmo um lugar terrível  e que nada vale muito a pena. O protagonista narra seu dia a dia em seu ambiente profissional ao mesmo tempo em que mostra a mediocridade do homem e de sua existência – seja pela incapacidade de conquistar uma bela mulher, pelo convívio com pessoas mesquinhas, pela inutilidade daquilo que fazemos profissionalmente, pela manipulação da mídia e da publicidade. E essa lista continua, acreditem.

O protagonista de Extensão do Domínio da Luta e o próprio Houellebecq têm em comum a capacidade de olhar o mundo quase que de fora dele e apontar o dedo para tudo aquilo que há de podre nele. Doa a quem doer. Neste livro em questão, o autor é até suave em comparação com o que estava por vir. Nos demais, Houellebecq falará abertamente sobre política e economia (francesa e mundial), religião, feminismo, cultura pop e compra briga com muita gente (mas já estou adiantando cenas dos próximos capítulos). E, embora o livro tenha esse quê de pessimista, não há como negar que ele é repleto de bom humor. No entanto, é como aquela piada da qual a gente sabe que não deveria rir, mas ri do mesmo jeito.

Extensão do Domínio da Luta foi publicado nos anos 90, mas é bem atual. Isso porque Houellebecq é como uma “antena do mundo”, captando antes de todos aquilo que vai acontecer – quer exemplo melhor do que Plataforma**? Já naquela época, a sociedade capitalista apontava para o individualismo sem medida que vivemos hoje, marcado por selfies, felicidade forjada nas redes sociais, etc, etc.  E aí você lê Extensão do Domínio da Luta ou qualquer outro romance de Houellebecq e volta para a realidade. Ou se lembra de que há um mundo fora daquela redoma que costumamos construir ao nosso redor. Em tempos de felicidade exacerbada e nem sempre real, é importante pensar na vida a partir de um ponto de vista completamente oposto ao que estamos expostos.

Ou seja, quer gostem, quer não, Houellebecq é um escritor necessário nesse mundo em que vivemos. E é genial no que faz.


 

* Houellebecq lança agora no começo de 2015 seu novo romance, “Soumission”. Segundo essa entrevista aqui ao Correio do Povo, o livro vai botar fogo na França. A história se passará em 2022, quando o Partido dos Muçulmanos vencerá a eleição presidencial francesa. Na mesma entrevista, o autor diz ter a certeza de que será o próximo francês Nobel de Literatura (eu amo o Houellebecq e, a essa altura, já não consigo mais esconder isso).

 

** Em Plataforma,  publicado em 2001, uma das grandes questões são os ataques terroristas provocados por fundamentalistas islâmicos, algo que, como sabemos, atingiu o ápice com o atentado às Torres Gêmeas e está na pauta até hoje. Bem, e antes, lá estava Houellebecq antecipando tudo isso.

 

 

Garoto Zigue-Zague, David Grossman

Há algumas semanas, escrevi uma resenha de “Garoto Zigue-Zague”, de David Grossman, para o Jornal Boca do Inferno, dos estudantes de Letras da UFPR. O resultado pode ser conferido abaixo.

jornal boca do inferno

resenha garoto zigue zague david grossman

Não são poucos os livros que buscam inspiração em Alice no país das maravilhas e que narram sagas incríveis, repletas de aventura e fantasia. É o caso de Garoto Zigue-Zague, escrito em 1994 pelo israelense David Grossman e lançado no Brasil neste ano pela Companhia das Letras. O livro mescla elementos extraordinários a situações bastante reais para lembrar o leitor da aventura que é crescer e tornar-se adulto.

Tal qual Alice, o garoto Nono é conduzido a um mundo bem diferente do seu, no qual se depara com uma série de pessoas e situações fantásticas. A poucos dias de seu bar mitzvah, Nono embarca em um trem de Jerusalém a Haifa com o objetivo receber conselhos de um tio não muito querido. A viagem é uma exigência do pai do garoto, Iacov, e de sua companheira Gabi – que cuida do garoto desde que a mãe dele, Zohara, morreu. A princípio, o passeio parece um presente de grego de Iacov, detetive e maior herói de Nono. Porém, Nono nunca chegará a seu destino previsto. Ainda no trem, ele conhecerá Felix Glick, um sujeito que, assim como o Coelho Branco de Alice, atrairá o garoto para viver uma grande aventura.

Garoto Zigue-Zague é um romance de formação. Os dois dias de aventuras narradas no livro não apenas marcarão a passagem de Nono da infância para a vida adulta, como moldarão sua personalidade. O que faz o menino aceitar o convite suspeito de Felix e desviar sua trajetória é muito menos a promessa de chegar ao seu verdadeiro presente de bar mitzvah e muito mais a possibilidade de encontrar a resposta para a pergunta que lhe é lançada: “quem sou eu?”. Até então, Nono acreditava ser um garoto com nada de especial, que sofre com problemas de comportamento na escola e que gosta de chocolate e do mar. Porém, a experiência ao lado de Felix o levará a investigar seu próprio passado e descobrir segredos sobre sua família que mudarão toda a sua vida.

Não, Garoto Zigue-Zague não é infanto-juvenil. Tampouco infantil…

Tudo indica que o leitor está diante de um livro infanto-juvenil, porém esta seria uma primeira impressão errônea. O narrador de Garato Zigue-Zague é o próprio Nono, já adulto, que relembra a aventura vivida dias antes de seu bar mitzvah. Contudo, o que interessa não é exatamente o que aconteceu com o menino, mas sim as questões reveladas ao longo desses acontecimentos. O leitor até pode encarar a obra como um livro de aventura, mas Grossman vai além. O que ele explora é a complexidade das relações humanas. Conforme a história se desenrola, Nono é “empurrado” ao mundo adulto e começa a entender e viver algumas dessas questões, como o difícil relacionamento entre Iacov e Gabi (ele nunca quis assumir o relacionamento com a companheira, que ameaçava, assim, abandoná-lo), as escolhas de Felix que o levaram a viver como um fugitivo da polícia e longe de sua amante, a atriz Lola Ciperola.

O livro atinge seu ponto alto quando Nono descobre a história de Zohara – até então, ela era para ele apenas a mulher que o trouxe ao mundo e morreu em seguida. Grossman traz à cena a figura de alguém muito à frente de seu tempo, que jamais se encaixaria na recém-nascida Israel e que jamais assumiria o lugar designado às mulheres de sua época: esposa e mãe de família. Ou seja, Zohara representa todo um grupo de pessoas “desajustadas”, com o qual o próprio Nono se identifica, e ela faz o que todo desajustado tentar fazer: buscar seu lugar no mundo.

A temática da passagem da infância para a vida adulta não é novidade para Grossman. O autor já retratou o tema em outras duas obras, Duelo e Ver: amor, ambas publicadas no Brasil. Em Garoto Zigue-Zague, Grossman coloca um menino de quase treze anos diante de importantes questões e decisões. Em sua aventura, Nono entenderá que os limites entre o certo e o errado são muito mais frágeis e muito mais complexos na vida adulta. E fica claro o quão confuso o menino se sentia diante dessa nova perspectiva de ver e compreender o mundo e o quanto a experiência foi enriquecedora para sua vida.

Vale destacar a estrutura narrativa de Garoto Zigue-Zague. Escrita de modo não-linear, aos poucos a obra revela pistas e fatos importantes para a compreensão da complexidade de cada personagem. Grossman esforça-se para atrair o leitor ao universo criado no livro (o que ele faz com maestria no romance A mulher foge – um livro que vale muito, muito a pena). O leitor mais atento ou com “faro de detetive” consegue desatar os nós e compreender a lógica da trama. Mas nada que compromete o livro, pois chega-se a um ponto em que o mais interessante não é saber o que vai acontecer, mas sim como.

O resultado é um livro cativante.  É difícil não se identificar, em alguma medida, com Nono, pois, Grossman evoca em cada leitor o garoto zigue-zague– aquele que não se enquadra em categoria alguma, que deseja ser livre e que aprende que crescer pode ser dolorido, mas é, de fato, libertador.

Argélia – Literatura argelina

Amigos e leitores,

Desculpem o desaparecimento. São muitos os compromissos, o que está atrapalhando – e muito – o meu ritmo de leitura e os livros que leio.

Ainda assim, gostaria de compartilhar com vocês que estou com muita vontade de estudar a literatura argelina. Isso porque, com exceção de alguns nomes que vocês também devem conhecer, pouco sei sobre a Argélia, sua história e, sobretudo, sobre sua produção literária. O desejo, pasmem, surgiu durante a Copa do Mundo. E algum dia, quando eu tiver um tempo, lerei os livros que comprei. São esses dois, de duas autoras contemporâneas. Não sei absolutamente nada sobre elas, encomendei os livros às escuras.

literatura argelina

O jornal O RelevO me mostrou esse belo poema da poetisa Samira Negrouche. Se você não achar bonito, você não tem coração.

il se peut

E, para finalizar, “Denia”, do Manu Chao.

O mestre e Margarida, Mikhail Bulgákov

o-mestre-e-margarida-mikhail-bulgakovArdiloso e engenhoso parecem-me dois adjetivos que bem definem a figura que convencionamos chamar de diabo. E é assim que o próprio é retratado em “O mestre e Margarida”, cultuado clássico do russo Mikhail Bulgákov. Publicado em 1966, o romance tornou-se um dos mais importantes da literatura do século XX por diversos motivos: sua estrutura narrativa, seu caráter político, seus personagens extremamente bem construídos. Inspirou até os Rolling Stones.

“O mestre e Margarida” divide-se em duas partes. A primeira concentra-se no diabo. Ele chega a Moscou comunista dos anos 1930 com sua comitiva, composta por um gato que assume hábitos humanos, um negociador, uma feiticeira e uma espécie de guarda-costas. Satã apresenta-se como Woland, um professor especialista em magia negra, e logo sua presença muda o destino dos intelectuais da cidade. Mas é no Teatro de Variedades, uma espécie de freak show, que o diabo revelará sua verdadeira intenção (um tanto moralizadora, a princípio): mostrar toda a mesquinhez do povo russo. Woland conduz seu show, tentando o público para que as pessoas tragam à tona sua verdadeira essência. Acontece de tudo – e uma narrativa fascinante: gente decapitada que consegue reconquistar sua cabeça, chuva de dinheiro (oi, quem quer dinheiro?), burguesia correndo pelada sem o menor pudor. Apenas para citar os exemplos mais marcantes.

Já a segunda parte do livro traz a história do mestre e de Margarida.  O mestre é um escritor que tenta publicar um livro sobre Pôncio Pilatos (e aqui entendemos a espécie de “evangelho segundo Pôncio Pilatos” que encontramos na primeira parte). Diante do insucesso de sua empreitada, o mestre vai parar em um hospício. Margarida, sua amante, tenta salvá-lo de lá e contará com a ajuda do diabo, que mais a fascina do que a assusta.

“O mestre e Margarida” pode ser muitas coisas. Pode ser apenas um livro que recorre ao fantástico e ao humor para contar uma história sobre o diabo. Pode também ser também sobre como o mal age – ou sobre como o deixamos agir. Pode, ainda, soar como uma sátira ao regime político stalinista e como uma sátira religiosa. E, de fato, Bulgákov constrói um único livro que é tudo isso.

Contudo, a obra vai além e reflete sobre o que é ser bom. A bondade que nos diz que é preciso dar a outra face a quem nos bate não traz um destino exatamente positivo. No livro, quem é bom termina seus dias na cruz (como Jesus) ou no hospício (como o mestre e o poeta da primeira parte, que foi dado como louco quando tudo o que queria provar era que Woland era o demônio em pessoa e que este havia matado seu amigo). O diabo não aparece como um ser que luta contra algum deus. Ele está mais preocupado em dialogar com os homens – tanto é que, na obra do mestre, ele se volta mais a Pilatos e a Judas do que a Jesus – e a mostrar que a astúcia, isto é, a sabedoria de viver, vale mais do que uma bondade puramente gratuita.

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Hoje não tem um trecho do livro porque eu quero muito que todos vocês que visitam o blog leiam o livro inteiro! E, também, porque esqueci de anotar as páginas de referência.

 

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Este livro não se encaixa em nenhuma categoria do Desafio do Livrada. Aliás, se quiserem conferir como anda meu desempenho, confira abaixo:

1- Um clássico da literatura brasileira

2- Um clássico esquecido da literatura mundial

3- Um livro do seu autor favorito: “A possibilidade de uma ilha”, Michel Houellebecq *

4- Um livro de contos

5- Um livro que não foi te indicado por ninguém: “A Mulher Foge”, David Grossman

6- Um livro com mais de 500 páginas: “Ilíada”, Homero

7- Um livro de poesia: “Sentimental”, Eucanaã Ferraz

8- Um livro escrito por alguém com menos de 40 anos

9- Um livro escrito originalmente em um alfabeto diferente do seu: “O Retrato”, Nicolai Gogol

10- Uma graphic novel: “Azul é a cor mais quente”, Julie Maroh

11- Um livro publicado pela primeira vez neste ano: “Garoto Zigue-Zague”, David Grossman**

12- Um livro de não-ficção

13- Um volume de alguma trilogia ou série: “1Q84″, livro 3, Haruki Murakami

14- Um livro que algum amigo te enche o saco pra ler: “Espinhos e Alfinetes”, João Anzanello Carrascoza

15- Um livro escrito por uma autora : “A Elegância do Ouriço”, Muriel Barbery

*Não fiz uma resenha, mas escrevi uma tentativa de ensaio sobre Michel Houellebecq.

**A resenha deste livro será publicada em outro lugar. Depois postarei aqui também.

Tu não te moves de ti, Hilda Hilst

tu não te moves de ti hilda hilstParece difícil atribuir um gênero a “Tu não te moves de ti”, de Hilda Hilst. Composto por três capítulos (ou seriam três novelas independentes?), o livro traz a história de três personagens que, apesar de se cruzarem rapidamente, possuem em comum tamanha dor de existir, de lidar com a vida que se apresenta diante de seus olhos, todos os dias. A narrativa é densa, fragmentada, seguindo o fluxo de consciência de cada um dos narradores.

Em “Tadeu (da razão)”, a personagem homônima é um empresário bem sucedido, porém que não vê mais sentido no mundo dos negócios. Seu desejo é livrar-se da empresa e da esposa, Rute, que compartilha de todos os valores do mundo capitalista, e poder mergulhar em um mundo em que seu único compromisso seria com as artes. Tadeu encontra-se, contudo, sozinho nesse mundo irreal, impossível. Seus anseios e delírios aumentam conforme ele percebe a mesquinhez da mulher e de tudo aquilo que o cerca.

Já em “Matamoros (da fantasia)”, Maria Matamoros vive em uma comunidade distante com a mãe. Desde muito jovem, Matamoros conhece o prazer sexual pelas mãos dos rapazes de sua aldeia. Então, ela conhece Meu, com quem se casa. Pela primeira vez, Maria conhece algum bom sentimento que não o sexual. Porém, o amor cede lugar à desconfiança. A jovem começa a desconfiar que é traída pela própria mãe. Sua vida vai, então, do céu ao inferno, numa mistura de disputa com aquela que lhe gerou a vida e com a dependência de sua existência ao único ser que é capaz de lhe fazer feliz.

Por último, em “Axelrod (da proporção)”, um professor de história volta da casa de seus pais (que viviam na mesma região que Matamoros) e, durante a viagem, começa a pensar (e a desacreditar) em seu crescimento e sobre os ideais e crenças que julgava, até então, necessários para revolucionar o mundo.

Perceba o movimento de Hilda Hilst. No primeiro capítulo, todas as angústias de Tadeu podem ser resolvidas pelo prazer da arte. Ele alega que só será livre a partir do momento em que se livrar de todas as suas algemas (trabalho, compromissos, dinheiro e esposa) e poder escrever, criar, tirar de si toda a arte que lhe é interna. No segundo, nos deparamos com uma personagem que conhece o prazer muito bem, mas que logo percebe que apenas ele não preenche sua existência.  E quando plenitude chega representada na figura de um homem, quase deus, a quem ela chama de Meu, não consegue lidar com o prazer. O êxtase dá lugar  à obscuridade e ao desespero, que culmina em tragédia.

Axelrod, o professor de história do último capítulo, traz consigo toda a falta de fé nos dias vindouros. Ele olha a história (a que aprendemos na escola e a de sua vida) e, em um momento de epifania, percebe que não há motivos para ter esperanças, seja qual for a escolha feita por cada um de nós.

Parece que aí esta a tese de Hilda Hilst em “Tu não te moves de ti”: por mais que tentemos olhar a vida de uma perspectiva mais otimista o final é sempre o mesmo – o da dor, das dúvidas e das incertezas. Assim como a tese do pai de Axelrod que explicou ao filho, quando este ainda era criança:

“Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tamí, Camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar algum, meu filho, tu podes ir, e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti”.

 

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Tu não te moves de ti

Hilda Hilst

Editora Globo