Sátira

Cândido, ou o Otimismo – Voltaire

cândido ou o otimismo voltaireMuitas vezes, não são precisas muitas palavras para dizer o necessário. Ou para desmontar toda uma linha filosófica. Este é o caso de “Cândido, ou o Otimismo”, do filósofo francês Voltaire. Um livro fininho, 128 páginas, escrito com um único intuito: criticar a filosofia otimista do alemão Gottfried Leibniz, que defendia que, não importa a tragédia que lhe aconteça, está sempre tudo bem.

A vida do jovem Cândido beirava a perfeição: ele vivia em um lindo castelo, estava sempre perto de sua amada Cunegunda (Cunegunda?) e seu grande prazer na vida era ouvir os ensinamentos de seu mestre Pangloss, para quem “todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis”. Até que Cândido é expulso do castelo por cortejar Cunegunda, que era a filha de seu patrão. A partir daí, o rapaz embarca em uma viagem e, de cidade em cidade, sofre uma série de desgraças. E conhece diversas pessoas com histórias para lá de trágicas, que fazem qualquer um perder a fé de que o mundo e a vida valham a pena. A ruína de Cândido é a ridicularização do otimismo.

A partir desses acontecimentos que estão longe de ser os melhores, todo o otimismo de Cândido vai caindo por terra, embora ele lute contra as dúvidas que nascem em sua mente. A diminuição de sua crença é, no entanto, acentuada pelo discurso de um de seus novos amigos, Martinho, para quem o mal sempre prevalece – o que é atestado pelas pessoas que encontram e suas tristes vidas.

De página em página, o leitor acaba, em algum ponto, tal qual Cândido, duvidando de que possa haver alguma bondade no mundo. Afinal, se Deus criou o melhor dos mundos e nele nos colocou, como acreditava Leibniz, por que tantas infelicidades? Para, como Jó, sermos experimentados? Para sermos vítimas do mal, cada qual em uma medida?

Para Voltaire, o mundo não passa, então, de um lugar banal, contra o qual não adianta lutar. Um lugar em que contos de fadas são para tolos. Mas não é impossível de viver nele, afinal, Cândido vive. Ou melhor, aprende a viver com todos os momentos ruins e com os eventuais momentos de alegria.

“(…) as desgraças particulares fazem o bem geral, de modo que quanto mais houver desgraça particular, mais tudo ficará bem”.

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Cândido, ou o Otimismo

Voltaire

Penguin Companhia

Tradução: Mário Laranjeira

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