Companhia das Letras

A Festa da Insignificância, Milan Kundera

a festa da insignificância milan kunderaA Festa da Insignificância foi, talvez, um dos lançamentos literários mais aguardados e comentados do ano. Pudera: o autor é ninguém mais, ninguém menos que Milan Kundera e a Companhia das Letras, editora responsável pela publicação da obra no Brasil, fez uma senhora divulgação, além de uma edição linda, de capa dura – coisa fina. O livro que chegou às mãos do leitor, contudo, talvez tenha deixado uma ou outra pergunta no ar: “mas sobre o que é este livro?” / “mas o que é a tal insignificância festejada?”. Afirmo isso por alguns comentários que li e ouvi por aí.

Gosto de pensar que A Festa da Insignificância é mais simples do que aparenta. Os diversos curtos capítulos do romance estão centrados em quatro personagens, os amigos Ramon, Alain, Charles e Calibã, e destacam fatos e observações do dia a dia deles , como o papel do umbigo como nova zona erótica, o stalinismo, as relações amorosas, a conflito com a figura materna. Os eventos narrados são espaçados no tempo e cada capítulo parece desconectado, em alguma media, com os demais. Conectando todos os personagens há uma festa promovida por um quinto amigo, D’Ardelo, na qual todos se reúnem.

A narrativa de A Festa da Insignificância é bastante fragmentada e, num primeiro momento, nada parece fazer muito sentido. Contudo, o interessante do livro é olhar para ele capítulo a capítulo, procurando perceber o valor de cada um deles. Uma leitura mais atenta revela, então, o que há de importante para ser observado a partir das situações e observações banais vividas e realizadas pelos personagens. Um exemplo está já na abertura do romance, quando Alain passeia pelas ruas de Paris, observa  moças com blusas que deixam o umbigo à mostra e questiona os motivos que levaram essa parte do corpo (e não mais os seios, coxas e bundas) a ter importante papel erótico. O capítulo acaba – embora o tema seja retomado – e cabe ao leitor, se assim, quiser, refletir com Alain.

Este exercício realizado capítulo a capítulo conduz à percepção de elementos comuns à obra de Kundera, como a crítica à cultura ocidental, a individualidade, a superficialidade nas relações humanas e, também, nas produções artísticas.

Todos esses elementos servem, assim, para mostrar aquilo que me parece ser a tese de Kundera: estamos vivendo em um mundo de banalidades, de pequenos e sucessivos acontecimentos banais, sem significância, sem importância. E talvez nem nos damos conta disso. Talvez a insignificância se revele apenas quando refletimos (ou somos forçados ou conduzidos a refletir) sobre as pequenas coisas cotidianas. Ela, a insignificância, revela-se assim:

A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda a parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muita coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la. Aqui,neste parque, diante de nós, ela está presente com toda sua evidência, com toda sua beleza. Sim, sua beleza. Como você mesmo disse: a animação perfeita… e completamente inútil, as crianças rindo…  sem saber por quê, não é lindo? Respire, D’Ardelo, meu amigo, respire essa insignificância que nos cerca, ela é a chave da sabedoria, ela é a chave do bom humor.

 

A Mulher Foge, David Grossman

a mulher foge david grossmanA história de Orah, Avram e Ilan, os protagonistas de “A Mulher Foge”, do israelense David Grossman, estarão conectadas para sempre. Isso fica claro nas primeiras páginas do livro. O leitor conhece os três personagens quando ainda são bastante jovens e estão em quarentena em um hospital, em meio a uma guerra. A experiência, marcante, os unirá em um triângulo amoroso, como não é difícil de deduzir. E, por quase 600 páginas, Grossman explora os conflitos deste relacionamento tão peculiar.

Também nas primeiras páginas o romance ganha um novo ponto focal: Orah. O tempo passa e o leitor descobre que aquela adolescente atrevida e cheia de sonhos tornou-se uma mulher de meia-idade recém-divorciada (de Ilan) e com dois filhos, Adam e Ofer. Quando este último parte como voluntário para a guerra, Orah foge com medo de receber a notícia da morte do filho. Ela arruma uma mochila e parte sem rumo por Israel – a pé. Porém, ela não vai sozinha. Ela procura Avram e, após mais de duas décadas sem nenhum contato entre ambos, o obriga a partir com ela.

E é a partir deste ponto que “A Mulher Foge” torna-se um livro interessante. Primeiro, por sua estrutura. O leitor descobre o que aconteceu entre e com Orah, Avram e Ilan na medida em que ela conta sua história ao companheiro de viagem. No entanto, a narrativa não é linear. Orah conta sua vida a partir de acontecimentos que ela julga importante que Avram conheça. Sua intenção é fazer com que Avram conheça sua história e seus filhos, sobretudo Ofer. O tempo distante, no entanto, faz com que este processo seja doloroso, nada natural. A cada revelação, Orah e Avram aproximam-se, compreendem-se, perdoam-se. E, para o leitor, os personagens tornam-se mais complexos, mais humanos, e suas histórias, mais inteligíveis. O leitor também aprende a compreender e a perdoar cada um deles.

É interessante observar a importância que a fuga e o ato de remontar e revisitar a vida e seus acontecimentos possuem neste romance. Não é apenas o medo da morte do filho que incentiva a fuga de Orah. Ela encontra-se destruída, não consegue encontrar em si, naquele momento, as respostas para dúvidas que vêm de anos atrás. E quando conta sua história a Avram, ela encontra todas  possíveis (sempre possíveis) respostas procuradas. O mesmo acontece com Avram. Ele também é um homem destruído. A guerra (de Yom Kippur) deixou cicatrizes que vão muito além das físicas. À medida que parte com Orah e ouve sua história – e revive a dele também –, Avram é tomado por um empoderamento de si próprio. Ou seja, ele sai de uma posição subjetiva, na qual permaneceu por anos a fio, e retoma o controle de sua vida. E, embora ambos estejam em busca de si próprios, jamais teriam se encontrado sozinhos. Um fortalece o outro. O modo como Grossman constrói toda essa trajetória é primoroso. São várias histórias, como várias linhas emaranhadas e, conforme o leitor avança em sua leitura, desembaraça todos os nós da vida dos três protagonistas.

Não consigo parar de pensar que, de algum modo, “A Mulher Foge”, e, mais precisamente, a importância do isolamento e do ato de narrar a vida, é uma homenagem à literatura (não falei antes, mas Orah, além de contar, escreve sua própria história, ou fatos dela, em um caderninho que encontra em sua viagem). Um escritor – todo artista, na verdade – escreve porque há algo dentro de si que não cabe mais, há algo que lhe incomoda e que precisa ser colocado em palavras. Para isso, o exercício é olhar de fora para dentro de si e verbalizar. É este movimento realizado por Orah. E pelo próprio autor, que perdeu um filho na guerra enquanto escrevia este livro.

A guerra aqui funciona não apenas como contexto histórico, mas como uma certeza para quem vive em Israel, seja o cidadão judeu ou árabe. Os personagens convivem com a guerra e ela é tão presente como a certeza de que é preciso ir à escola, por exemplo. Os conflitos políticos estão em todo livro, inseridos no cotidiano de cada figura do romance: a raiva que Ilan sente de seu pai, um militar; a tensão entre Orah e seu motorista, um árabe; o que a guerra causou à vida de Avram; o que Adam e Ofer sentem ao ir para o campo de batalha; a convivência com atentados terroristas. Grossman retrata os conflitos entre judeus e palestinos de forma bastante inteligente, sem dicotomizar a questão. O que ele faz, sem evangelizar o leitor, é mostrar como este dilema é antigo e complexo, e, sobretudo, como ele oprime todo e qualquer cidadão que dele faça parte.

“A Mulher Foge” é, em sua essência, sobre a necessidade de ser forte, de superar situações limites e de ter a coragem de dar mais um passo nas longas caminhadas. É em meio a esse turbilhão de acontecimentos que Orah entende que precisa encontrar sua individualidade mesmo inserida em um contexto repleto de outros. Ela foge sim, mas para se encontrar e retornar deste seu exílio pessoal uma mulher mais forte.

 

Observações:

1 – Desculpem o sumiço. Foi necessário.

2 – Desafio do Livrada: este livro encaixa-se na categoria 5: um livro que não foi indicado por ninguém

 

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A Mulher Foge

David Grossman

Companhia das Letras

Tradução: George Schlesinger

A Elegância do Ouriço, Muriel Barbery

A elegância do ouriçoÉ preciso abrir “A Elegância do Ouriço”, de Muriel Barbery, sem preconceitos. Quem lê alguma sinopse já pode ficar com um pé atrás. A história se passa em um prédio residencial muito tradicional de Paris, habitado por famílias milionárias. Ali, concentram-se todo o tipo de gente: um crítico gastronômico esnobe, um ministro do governo francês, uma socialite, uma jovem que deseja tornar-se veterinária. E neste pequeno universo destacam-se Renée, a zeladora do prédio, e Paloma, uma menina de 12 anos. São elas as narradoras do livro.

Renée é uma senhora de 54 anos que trabalha no prédio há quase três décadas. Viúva, ela faz questão de passar despercebida pelos moradores por um pequeno-grande detalhe: ela não é a zeladora que a alta burguesia parisiense espera. Renée ama arte e sabe tudo sobre artes plásticas, literatura russa, música clássica, filosofia, cinema japonês. Consome, em termos artísticos, a cultura que os moradores deveriam apreciar. A outra narradora, Paloma, odeia sua família por achar seus pais (um ministro e uma doutora em letras que vive para gastar dinheiro) e sua irmã mais velha (uma estudante de filosofia) fúteis demais, completamente desinteressados pelo o que se passa no resto do mundo. É uma pré-adolescente calada, porém cheia de ideias – as quais prontamente anota em seu diário – e apaixonada pela cultura japonesa. A vida de ambas muda com a chegada de um novo morador, o Sr. Ozu.

À primeira vista, o leitor – esse que lê com preconceitos – pode pensar: como uma mulher comum, pobre e sem estudo pode saber tanto, e falar com tanta eloquência, sobre filosofia, sobre Tolstoi, sobre cinema japonês? E como uma menina de 12 anos pode ser tão inteligente, tão perspicaz? Esse pensamento pode ser corroborado por algo que considero uma falha no romance de Barbery – não há diferença entre a voz narrativa de Renée e de Paloma. O leitor percebe quem narra o quê apenas pelo contexto da história. Não é nenhum empecilho para a fluidez do livro e, embora as personagens se revelem muito parecidas, são pessoas diferentes, logo, com vozes diferentes (algo que Pamuk, por exemplo, faz muito bem em seus romances com múltiplos narradores, como em “Meu Nome é Vermelho” e “A Casa do Silêncio”).

No entanto, é preciso entender que Barbery nos transporta para a sociedade francesa atual, com seus problemas sociais e econômicos. A autora assume o papel de crítica social e mostra, em um pequeno espaço, um bando de gente rica, mas mesquinha, hipócrita, vazia. Ao passo que a zeladora e a garota são grandes observadoras do mundo que as cerca, capazes de perceber a realidade em que vivem e filosofar sobre ele. “A Elegância do Ouriço” é um romance filosófico ao alcance de qualquer leitor disposto a compartilhar com Barbery sua visão de mundo.

Barbery faz, ainda, uma bela homenagem à cultura japonesa. Renée e Paloma amam tudo relacionado ao país e têm suas vidas transformadas com a chegada do Sr. Ozu. A autora, no entanto, vai além em sua homenagem. A linguagem de “A Elegância do Ouriço” é repleta da melancolia, do silêncio e da sabedoria inerentes à literatura e ao cinema japonês. É algo realmente muito bonito.

“A Elegância do Ouriço” é daqueles livros em que o leitor sublinha vários trechos marcantes, capazes de levar às lágrimas os mais sensíveis e emotivos. E talvez este seja o motivo pelo o qual o romance tornou-se um grande sucesso editorial – e não apenas na França. Espero que todos tenham compreendido que é preciso enxergar, sempre, a elegância do ouriço.

“Viver, morrer: são apenas consequências daquilo que se construiu. O que conta é construir bem”.

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A Elegância do Ouriço

Muriel Barbey

Companhia das Letras

Tradução: Rosa Freire D’Aguiar

Roberto Saviano: a força das palavras

Roberto SavianoOntem, passeando na Livraria Cultura, me deparei com o livro “Zero, Zero, Zero”, do jornalista e escritor italiano Roberto Saviano. Talvez você se lembre dele por causa do “Gomorra”. Com apenas 25 anos, Saviano se infiltrou na Camorra, máfia napolitana que controla o tráfico de drogas, pirataria de artigos de grife e a indústria da coleta de lixo, e escreveu um livro em que desmascara a a organização.  Por causa deste livro (que virou filme, um excelente filme, por sinal), Saviano foi “proibido” de retornar a Nápoles – sua cidade natal – , como se isso fosse possível. Mas é. E mais do que isto: Saviano está jurado de morte pela Camorra. Desde 2006, ele não tem casa fixa, não pode se relacionar com sua própria família, não pode formar sua própria família, não pode viver de acordo com aquilo que nos garante a lei.

Ainda assim, Saviano continua escrevendo. Escreve por dois motivos:

1) Sabe que não há força maior do que a das palavras. Sabe que seu trabalho leva a verdade sobre diversos problemas (quase todos ligados às máfias italianas) de seu país. Sabe que suas palavras dão coragem a quem não a tem em um país corrupto, que força as pessoas a permanecerem na ignorância (mais ou menos como o nosso país).

2) Sabe que, enquanto ele escrever, enquanto ganhar atenção da imprensa, permanecerá vivo. A Camorra já errou ao assassinar pessoas que estavam no auge da luta contra a máfia italiana. Toda a opinião pública rapidamente se vira contra a organização criminosa. Ou seja, quando Saviano não obtiver mais atenção, quando ele cair no esquecimento, a Camorra cumprirá sua promessa. Ele mesmo sabe disso e o afirma, como uma sentença. Escrever tornou-se, portanto, uma questão de sobrevivência.

Ele lançou, desde então, alguns livros: “O Contrário da Morte”, que também traz o sul da Itália como mote principal; “A Beleza e o Inferno”, publicado no Brasil pela Bertrand, traz uma série de crônicas com tom de denúncia e análise social (há uma crônica linda sobre Lionel Messi, que tem uma linda história de vida); ” A Máquina da Lama”, coletânea de suas falas do programa “Vieni Via Con Me”, em que o jornalista fala sobre diversos problemas italianos que, geralmente, são varridos para debaixo do tapete; E, agora, “Zero Zero Zero”, em que Saviano analisa profundamente o tráfico de cocaína pela Europa e o aponta como a salvação de muitos dos bancos ingleses e alemães, já que muitas instituições financeiras estão diretamente ligadas com organizações criminosas. Este deve ser lançado, em breve, pela Companhia das Letras – mas aqui no Brasil já é possível encontrar a edição italiana, que foi a que vi na Cultura.

Além dos livros, Saviano participa de inúmeros eventos literários e programas de TV, e mantém ativa sua página no Facebook.

Roberto Saviano é, provavelmente, a pessoa que mais respeito neste mundo.

Abaixo, um pequeno texto que escrevi sobre ele e seu “Gomorra” em outubro de 2010.

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Gomorra  é um livro corajoso. Nele, Saviano (na época, um cara da minha idade) denuncia todo o funcionamento da Camorra – máfia italiana originária de Nápoles – em suas ações junto ao tráfico de drogas, à falsificação de roupas e sapatos de grife, à indústria cimenteira do sul da Itália. E, de repente, a Camorra, que era notícia apenas na Campania, passa a ser notícia mundial. O livro virou filme (o excelente Gomorra, de 2008, que só não ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro por uma injustiça sem tamanho – não foi sequer indicado). E muitos chefes dos principais clãs da Camorra foram presos, julgados e condenados desde a publicação de livro.

E, assim, qualquer pessoa pensaria: “Esse Saviano é um herói”. Qualquer pessoa, menos os italianos, sobretudo, os napolitanos. Silvio Berlusconi e muitos outros políticos querem a cabeça de Saviano. Grande parte da população italiana também o despreza. Para estes, Saviano manchou a honra da Itália. Manchou a honra da Itália ao falar a verdade.

Desde 2006, Saviano está jurado de morte pela Camorra. Desde 2006, Saviano vive sob escolta. Desde 2006, Saviano mal pode encontrar seus familiares e amigos, pois a ameaça da Camorra é dirigida a qualquer pessoa que tenha com ele qualquer relação. Desde 2006, Saviano é persona non-grata em Nápoles – sua terra natal. E desde 2006, Saviano usa o poder da palavra para contar ao mundo algumas verdades – e não somente verdades sobre a Itália. E são verdades que nos fazem enxergar quanta corrupção há no mundo, quanta injustiça há no mundo.

É praticamente uma guerra psicológica. Saviano convive não com o medo da morte, mas com o medo e a dor daquilo que pode causar aos que lhes são queridos. E, do outro lado, há o medo do poder das palavras e da verdade. Talvez, eu possa parecer ingênua, mas eu sempre, sempre vou acreditar que a verdade prevalecerá e que haverá justiça. Eu me sinto envergonhada por não fazer nada com este valor (tento cumprir meu papel de cidadã, mas, para mim, não parece suficiente). Sei que não é fácil ser um Saviano. Mas é preciso. E o respeito demais. Nosso respeito talvez seja o que lhe dê força.

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Indicações:

Vieni Via Con Me: uma série de TV em que Roberto Saviano e o jornalista Fabio Fazio recebem personalidades italianas para debaterem os problemas da Itália.

Entrevista de Saviano ao programa Milênio, da Globo News

Saviano Racconta Saviano: documentário em que Saviano conta a sua história.

A Casa do Silêncio, Orhan Pamuk

a casa do silêncio orhan pamukEstamos em uma cidade do litoral da Turquia, em meio à Guerra Fria. Em uma mansão aos pedaços mora Fatma, uma viúva de 90 anos, com seu criado, o anão Recep. No verão, ela recebe a visita de seus netos: o historiador Faruk, a estudante de Sociologia Nilgün e o estudante Metin. Os três não reconhecem Hasan, sobrinho de Recep, com quem eles brincavam na infância e que se tornou um jovem ultranacionalista. É neste contexto em que Orhan Pamuk nos conduz em seu “A Casa do Silêncio”, de 1983, mas publicado somente agora no Brasil pela Companhia das Letras.

Múltiplos narradores não é uma exclusividade de “Meu Nome é Vermelho”. Reflexões sobre a Turquia, sua história e sua política, e sobre a vida também aparecem em “A Casa do Silêncio” com força, como em toda a obra de Pamuk. Cada um dos narradores existe e narra cada qual uma parte da história para mostrar um modo de vida, de viver e contemplar a Turquia.

Fatma 

É o tradicionalismo e conservadorismo turco. É a vida guiada pelos mandamentos de Alá, sem direito a dúvidas, a questionamento. É a total incompatibilidade com seu marido, o Dr. Selâhattin, que descobre que Alá não existe, que escreve uma enciclopédia para contar à humanidade todas as verdades do mundo e que tem um relacionamento extraconjugal, do que nascem Recep e Ismail.

Recep

É o viver no passado e na imaginação, a passividade, a incapacidade de mudar diante de uma vida de frustrações. Ao mesmo tempo, é a possibilidade de amor, de um amor passivo, servil.

Faruk

O apego à história, a busca de explicações no ontem para o que acontece hoje, seja para a Turquia, seja para sua vida. E é o ignorar (ou fingir ignorar) as respostas que são bastante claras.

Metin

Ódio a sua condição, que está aquém da de seus colegas. O sonho americano, a ocidentalização de sua vida.

Hasan

Obsessão. Por mudar de vida, por suas ideias políticas, por Nilgün. Uma vítima (?) de suas origens humildes.

“A Casa do Silêncio” é construída, na verdade, por personagens cheias de ideias e sentimentos para compartilhar. É como se cada um deles deitasse ao divã (ou recorresse a uma espécie de viagem sem volta, como diz Fatma) para tirar de si tudo aquilo que está preso, causando um pesar em suas almas. E é nesse escancarar de coração que Pamuk mostra o quão bom e o quão vil o ser humano – um mesmo ser humano – pode ser. E o domínio de todas essas vozes é extraordinário. As conclusões às quais chega Hasan em diversos capítulos ou o capítulo em que Metin conta com todos os seus hormônios de adolescente e com um único ponto final ao longo de 12 páginas sobre sua noite em uma festa são exemplos de que Pamuk é mestre em construir personagens com profundidade, em saber dar a eles a linguagem e o tom corretos.

É um livro tristíssimo, de pessoas em crise, em conflito, à beira de algum tipo de colapso. De pessoas que sabem que não há outra vida, outra viagem, além desta e que, por isso, se agarram ao que têm e vivem como conseguem. Embora Pamuk seja conhecido por ser um grande pensador sobre todas as questões políticas, religiosas e sociais da Turquia, na verdade ele é um grande pensador sobre a humanidade, sobre as pessoas, como ele mesmo afirma nessa entrevista concedida à Folha.

“Engraçado: às vezes, embora sentindo vergonha, tenho vontade de fazer mal aos outros para que percebam a minha existência, assim eu os castigaria e eles não se deixariam mais tentar pelo diabo e talvez tivessem medo de mim”.

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A Casa do Silêncio

Orhan Pamuk

Companhia das Letras

Tradução: Eduardo Brandão

Barba ensopada de sangue – Daniel Galera

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“Barba ensopada de sangue”, do gaúcho (e fã do John Frusciante) Daniel Galera, chegou à minha estante fruto de uma troca por outro livro, de cuja transação não participei. E, já que cá estava, por que não ler um dos mais bem comentados livros brasileiros dos últimos anos? Há toda uma badalação em torno de Galera que me deixava desconfiada, mas esse não era motivo para não arriscar. E 422 páginas e algumas semanas depois, arrisco dizer que “Barba ensopada de sangue” tinha tudo para ser um grande livro. Mas não é.

O livro gira em torno de um professor de educação física que, após o suicídio do pai, muda de Porto Alegre para Garopaba, no litoral catarinense, em busca de um isolamento, que não é apenas geográfico, mas, sobretudo, emocional. Garopaba é também a cidade onde seu avô passou parte da vida e foi morto em circunstâncias jamais explicadas. Então, o protagonista decide investigar o assassinato do avô ao mesmo tempo que, sem querer querendo, se integra à nova cidade.

Galera apresenta um herói instigante, perdido em todos os sentidos de sua vida. Ele poderia ser feliz no plano amoroso, mas sua mulher o trocou pelo seu irmão. Ele poderia ser um triatleta de algum sucesso, mas acaba como professor de natação de alunos sem muito talento para o esporte. Isolar-se em Garopaba e buscar uma solução para a morte do avô parece ser um modo inconsciente de buscar algum sentido para a própria vida. Isso pode ser percebido já nas primeiras páginas.

O problema é que as páginas de “Barba ensopada de sangue” iam passando e eu não conseguia acreditar no protagonista sem nome. A narrativa é apática, não convence. E, portanto, não envolve. Não dá para acreditar, por exemplo, que o protagonista fica abalado com o incidente envolvendo a cachorrinha Beta. Não dá para acreditar que há diferença entre o que ele sente por Dália e pela prostituta de Pato Branco (ou pela aluna de corrida). Numa tentativa de construir um personagem apático ou amargurado, o autor construiu um livro apático.

Além disso, existem diálogos e passagens que pouco ou nada contribuem para a trama e personagens que somem do mesmo jeito que apareceram – sem explicação. Um em especial, a Jasmim, me chama a atenção por ser insustentável. Ela é mestranda em Psicologia e, também, recepcionista em uma agência de turismo (quando ela faz suas pesquisas, não sei). Não vou entregar mais do que entreguei, mas tudo nela é muito contraditório.

Talvez o que tenha agradado tantos leitores sejam as discussões e reflexões que o livro levantou, como o mal-estar em viver, seja do pai, seja do filho, e todas as questões existencialistas que permeiam o protagonista. É preciso levar em consideração, no entanto, que existe diferença entre gerar reflexões (como magistralmente fez Tabucchi em “O tempo envelhece depressa”) e lançar uma ou outra frase de efeito. Parece que, inclusive, Galera traz um ou outro personagem apenas para jogar um ponto de vista, uma filosofia de vida – o que explicaria o que aponto no parágrafo anterior. Fica a sensação, na maioria das vezes, de uma superficialidade nessas discussões.

“Barba ensopada de sangue” é um livro que nada, nada e morre na praia. Não é um livro de todo ruim, mas não é bom. E, me desculpem os fãs, mas está longe de ser um grande livro.

[Hoje não tem uma citação porque esqueci de anotá-lá no meu Moleskine].

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Barba ensopada de sangue
Daniel Galera
Companhia das Letras

O que deu para fazer em matéria de história de amor, Elvira Vigna

o-que-deu-para-fazer-em-materia-de-historia-de-amor-elvira-vignaOntem foi aniversário da minha mãe. Eis o que ela, no fim da festa, me disse: “nesses anos todos, aprendi que família é uma coisa complicada”. E eu: “sim, não somente a nossa, mas todas as famílias, em alguma medida, todas as relações”. Eu, que sempre tive uma visão cor de rosa do mundo, estou convencida de que não existem histórias ideais. E vamos tentar ser feliz assim mesmo. Lendo “O que deu para fazer em matéria de história de amor”, de Elvira Vigna, essa constatação (ou perda de fé ou perfeito estado de aceitação diante do mundo) bateu em meu coração, em minha mente. E esse é um dos grandes poderes da prosa de Elvira Vigna – conversar conosco, tocar as feridas falando aquilo que, muitas vezes, a gente finge não escutar.

A narradora de “O que deu para fazer em matéria de história de amor”, em certo momento, avisa que, em matéria de amor, não deu para fazer muito. E, ainda assim, ela tenta recontar a história do triângulo amoroso entre Gunther, Arno e Rose, do qual nasce Roger, com quem ela própria mantém um longo e indefinido relacionamento. São fragmentos das histórias desses personagens comuns, com histórias de amor longe de finais felizes. Uma ficção muito mais perto da vida real.

Mais uma vez, o adultério está presente na literatura de Elvira Vigna. A traição, assim como Roger, une todos os personagens dessa trama. E a mentira traz dores, descontentamentos e nuances do que é parte da vida, mesmo quando se tenta ser feliz. E é neste mundo em que vivem esses personagens disfuncionais, tão falhos, tão cheios de amor, tão cheio de dúvidas. Tão humanos. Tão como a gente.

Frases e parágrafos curtos, jogos de palavras e conclusões sobre diversos assuntos ficam longe de parecer clichês ou imaturidade narrativa com Elvira Vigna. Sua prosa é magistralmente arquitetada com a alma (é o que me parece, pelo menos) e, por isso, é cheia de força, de sentimento. É impossível ler Elvira Vigna e não sentir aquele nó na garganta ou algo rasgando dentro de si. É impossível.

Lendo seus livros ou entrevistas, percebo que Elvira Vigna é uma mulher inteligentíssima, moderna e que sabe o que faz em matéria de literatura – mesmo quando diz que não. E, se não sabe mesmo, deveria saber que está fazendo literatura da melhor qualidade.

“Continuam (continuamos) apregoando o que há a oferecer. A dificuldade é que não nos parece mais tão essencial, o entendimento. Não precisamos mais tanto, do sentido. Vivemos muito bem sem eles, com nossos conjuntos de agoras a mudar a cada instante. É este o nosso foda-se, dito em conjunto, em coral planetário. É esta a irrelevância. Então, é assim que continuo. São estas as premissas. E, mesmo assim, continuo. Talvez só porque já comecei. Busco a sedução, o prazer, mesmo sabendo que o que ele embrulha é anacrônico, inútil”. 

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O que deu para fazer em matéria de história de amor

Elvira Vigna

Companhia das Letras