jornal Boca do Inferno

Garoto Zigue-Zague, David Grossman

Há algumas semanas, escrevi uma resenha de “Garoto Zigue-Zague”, de David Grossman, para o Jornal Boca do Inferno, dos estudantes de Letras da UFPR. O resultado pode ser conferido abaixo.

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Não são poucos os livros que buscam inspiração em Alice no país das maravilhas e que narram sagas incríveis, repletas de aventura e fantasia. É o caso de Garoto Zigue-Zague, escrito em 1994 pelo israelense David Grossman e lançado no Brasil neste ano pela Companhia das Letras. O livro mescla elementos extraordinários a situações bastante reais para lembrar o leitor da aventura que é crescer e tornar-se adulto.

Tal qual Alice, o garoto Nono é conduzido a um mundo bem diferente do seu, no qual se depara com uma série de pessoas e situações fantásticas. A poucos dias de seu bar mitzvah, Nono embarca em um trem de Jerusalém a Haifa com o objetivo receber conselhos de um tio não muito querido. A viagem é uma exigência do pai do garoto, Iacov, e de sua companheira Gabi – que cuida do garoto desde que a mãe dele, Zohara, morreu. A princípio, o passeio parece um presente de grego de Iacov, detetive e maior herói de Nono. Porém, Nono nunca chegará a seu destino previsto. Ainda no trem, ele conhecerá Felix Glick, um sujeito que, assim como o Coelho Branco de Alice, atrairá o garoto para viver uma grande aventura.

Garoto Zigue-Zague é um romance de formação. Os dois dias de aventuras narradas no livro não apenas marcarão a passagem de Nono da infância para a vida adulta, como moldarão sua personalidade. O que faz o menino aceitar o convite suspeito de Felix e desviar sua trajetória é muito menos a promessa de chegar ao seu verdadeiro presente de bar mitzvah e muito mais a possibilidade de encontrar a resposta para a pergunta que lhe é lançada: “quem sou eu?”. Até então, Nono acreditava ser um garoto com nada de especial, que sofre com problemas de comportamento na escola e que gosta de chocolate e do mar. Porém, a experiência ao lado de Felix o levará a investigar seu próprio passado e descobrir segredos sobre sua família que mudarão toda a sua vida.

Não, Garoto Zigue-Zague não é infanto-juvenil. Tampouco infantil…

Tudo indica que o leitor está diante de um livro infanto-juvenil, porém esta seria uma primeira impressão errônea. O narrador de Garato Zigue-Zague é o próprio Nono, já adulto, que relembra a aventura vivida dias antes de seu bar mitzvah. Contudo, o que interessa não é exatamente o que aconteceu com o menino, mas sim as questões reveladas ao longo desses acontecimentos. O leitor até pode encarar a obra como um livro de aventura, mas Grossman vai além. O que ele explora é a complexidade das relações humanas. Conforme a história se desenrola, Nono é “empurrado” ao mundo adulto e começa a entender e viver algumas dessas questões, como o difícil relacionamento entre Iacov e Gabi (ele nunca quis assumir o relacionamento com a companheira, que ameaçava, assim, abandoná-lo), as escolhas de Felix que o levaram a viver como um fugitivo da polícia e longe de sua amante, a atriz Lola Ciperola.

O livro atinge seu ponto alto quando Nono descobre a história de Zohara – até então, ela era para ele apenas a mulher que o trouxe ao mundo e morreu em seguida. Grossman traz à cena a figura de alguém muito à frente de seu tempo, que jamais se encaixaria na recém-nascida Israel e que jamais assumiria o lugar designado às mulheres de sua época: esposa e mãe de família. Ou seja, Zohara representa todo um grupo de pessoas “desajustadas”, com o qual o próprio Nono se identifica, e ela faz o que todo desajustado tentar fazer: buscar seu lugar no mundo.

A temática da passagem da infância para a vida adulta não é novidade para Grossman. O autor já retratou o tema em outras duas obras, Duelo e Ver: amor, ambas publicadas no Brasil. Em Garoto Zigue-Zague, Grossman coloca um menino de quase treze anos diante de importantes questões e decisões. Em sua aventura, Nono entenderá que os limites entre o certo e o errado são muito mais frágeis e muito mais complexos na vida adulta. E fica claro o quão confuso o menino se sentia diante dessa nova perspectiva de ver e compreender o mundo e o quanto a experiência foi enriquecedora para sua vida.

Vale destacar a estrutura narrativa de Garoto Zigue-Zague. Escrita de modo não-linear, aos poucos a obra revela pistas e fatos importantes para a compreensão da complexidade de cada personagem. Grossman esforça-se para atrair o leitor ao universo criado no livro (o que ele faz com maestria no romance A mulher foge – um livro que vale muito, muito a pena). O leitor mais atento ou com “faro de detetive” consegue desatar os nós e compreender a lógica da trama. Mas nada que compromete o livro, pois chega-se a um ponto em que o mais interessante não é saber o que vai acontecer, mas sim como.

O resultado é um livro cativante.  É difícil não se identificar, em alguma medida, com Nono, pois, Grossman evoca em cada leitor o garoto zigue-zague– aquele que não se enquadra em categoria alguma, que deseja ser livre e que aprende que crescer pode ser dolorido, mas é, de fato, libertador.