literatura francesa

Extensão do Domínio da Luta, Michel Houellebecq

extensão do domínio da lutaNem sempre a biografia de um escritor diz respeito à sua obra. Contudo, creio que isso não se aplique ao francês Michel Houellebecq (e, se você não ouviu falar dele, prepare-se para 2015*).  Houellebecq é como seus protagonistas: solitário, pessimista, depressivo e capaz de mostrar o pior do mundo e da humanidade, mesmo quando deseja acreditar em um dos dois ou em ambos.

Extensão do Domínio da Luta é o primeiro romance de Houellebecq e já trazia sinais do que viria nos livros futuros. Nele, Marcel, o protagonista, é um engenheiro de informática que começa a prestar uns serviços para o Ministério da Agricultura da França. Apesar de a profissão dar uma ideia de um homem bem sucedido, o protagonista revela ser um homem infeliz, solitário, misógino, com um único objetivo: provar a impossibilidade das relações humanas – o que, penso eu, Houellebecq tenta provar em todos os seus livros.

E ao longo da narrativa o leitor quase se convence de que o mundo é mesmo um lugar terrível  e que nada vale muito a pena. O protagonista narra seu dia a dia em seu ambiente profissional ao mesmo tempo em que mostra a mediocridade do homem e de sua existência – seja pela incapacidade de conquistar uma bela mulher, pelo convívio com pessoas mesquinhas, pela inutilidade daquilo que fazemos profissionalmente, pela manipulação da mídia e da publicidade. E essa lista continua, acreditem.

O protagonista de Extensão do Domínio da Luta e o próprio Houellebecq têm em comum a capacidade de olhar o mundo quase que de fora dele e apontar o dedo para tudo aquilo que há de podre nele. Doa a quem doer. Neste livro em questão, o autor é até suave em comparação com o que estava por vir. Nos demais, Houellebecq falará abertamente sobre política e economia (francesa e mundial), religião, feminismo, cultura pop e compra briga com muita gente (mas já estou adiantando cenas dos próximos capítulos). E, embora o livro tenha esse quê de pessimista, não há como negar que ele é repleto de bom humor. No entanto, é como aquela piada da qual a gente sabe que não deveria rir, mas ri do mesmo jeito.

Extensão do Domínio da Luta foi publicado nos anos 90, mas é bem atual. Isso porque Houellebecq é como uma “antena do mundo”, captando antes de todos aquilo que vai acontecer – quer exemplo melhor do que Plataforma**? Já naquela época, a sociedade capitalista apontava para o individualismo sem medida que vivemos hoje, marcado por selfies, felicidade forjada nas redes sociais, etc, etc.  E aí você lê Extensão do Domínio da Luta ou qualquer outro romance de Houellebecq e volta para a realidade. Ou se lembra de que há um mundo fora daquela redoma que costumamos construir ao nosso redor. Em tempos de felicidade exacerbada e nem sempre real, é importante pensar na vida a partir de um ponto de vista completamente oposto ao que estamos expostos.

Ou seja, quer gostem, quer não, Houellebecq é um escritor necessário nesse mundo em que vivemos. E é genial no que faz.


 

* Houellebecq lança agora no começo de 2015 seu novo romance, “Soumission”. Segundo essa entrevista aqui ao Correio do Povo, o livro vai botar fogo na França. A história se passará em 2022, quando o Partido dos Muçulmanos vencerá a eleição presidencial francesa. Na mesma entrevista, o autor diz ter a certeza de que será o próximo francês Nobel de Literatura (eu amo o Houellebecq e, a essa altura, já não consigo mais esconder isso).

 

** Em Plataforma,  publicado em 2001, uma das grandes questões são os ataques terroristas provocados por fundamentalistas islâmicos, algo que, como sabemos, atingiu o ápice com o atentado às Torres Gêmeas e está na pauta até hoje. Bem, e antes, lá estava Houellebecq antecipando tudo isso.

 

 

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O erotismo na prosa de Michel Houellebecq

michel houellebecqNão são muitos os romances do francês Michel Houellebecq: “Extensão do domínio da luta” (1994); “Partículas elementares” (1998); “Plataforma” (2000); “A possibilidade de uma ilha” (2005) e “O mapa e o território” (2010). Em todos eles, Houellebecq trabalha com a mesma temática: a miséria da existência humana. Suas personagens, de modo geral, conseguem enxergar a mediocridade do mundo, a fragilidade das relações humanas e o vazio de suas vidas – as quais, em um contexto capitalista, poderiam ser consideradas de grande êxito.

Onde estaria, então, o prazer de viver? As personagens de Houellebecq o buscam, sobretudo, no sexo.  Os romances do escritor são repletos de erotismo. As cenas de sexo, e são muitas, são bastante explícitas – há, inclusive, quem considere os livros do autor pornográficos. Contudo, enquanto a indústria da pornografia existe para lucrar propiciando, de algum modo, prazer para seu público, a obra literária de Houellebecq está mais interessada em mostrar o sexo como uma espécie de fonte da felicidade, ainda que momentânea, e, principalmente, como uma maneira de buscar, também momentaneamente, alguma verdade e algum significado nas relações humanas.

Tomemos como exemplo “A possibilidade de uma ilha”.  Neste livro, o protagonista é Daniel 1, um humorista de meia-idade que alcança o status de celebridade respeitada no mundo intelectual, além de milhões de euros, com espetáculos politicamente incorretos, com títulos provocantes, como “Chupe minha Faixa de Gaza (meu colono judeu gorducho)”. Daniel é, contudo, um sujeito extremamente solitário, que age como se fosse capaz de compreender o mundo de um modo superior a todos os outros, e nele não enxerga nenhum tipo de redenção. Mesmo sem acreditar na raça humana, o comediante apaixona-se. Primeiramente por Isabelle, editora de uma revista para adolescentes, tão mordaz quanto o protagonista. Depois, por Esther, jovem aspirante à atriz e que vive dividida entre sua carreira e uma vida sem compromissos.

Torna-se interessante notar o quanto a vida sexual de Daniel com ambas as mulheres serve de indicativo para sua própria felicidade. O casamento com Isabelle existe e é feliz (ou, ao menos, pacífico) à medida que o sexo é presente. Quando ela para de sentir prazer e, consequentemente, desejo, ele volta a sentir toda a descrença na humanidade e em qualquer possibilidade de felicidade para si próprio.

Daniel sai, então, de um casamento sem sexo para um caso baseado apenas em sexo. O relacionamento do comediante com Esther é meramente sexual. Eles pouco conversam entre si, quase nada sabem um da vida do outro. Conseguem, porém, ser felizes um ao lado do outro. A felicidade do protagonista é percebida na narrativa de sua vida com Esther. “Dez minutos depois, eu estava dentro dela, e estava bem. O milagre aconteceu de novo, tão forte como no primeiro dia, e eu pensei novamente, pela última vez, que ele duraria para sempre”.

O personagem pode entender a si próprio como este ser que depende de Esther e do prazer que ela pode lhe causar para ser feliz, confundindo o prazer do sexo (e da presença – física – de sua companheira) com a felicidade em si. Entretanto, uma leitura mais criteriosa pode mostrar que o sexo aparenta ser apenas um caminho, talvez aquele em que o protagonista melhor consiga se expressar, para procurar e alcançar seu bem-estar. Vale ressaltar que não estamos diante de um homem interessado apenas em sexo. Afinal, é o mesmo Daniel que afirma: “Nunca me senti perfeitamente confortável em uma relação baseada apenas na atração sexual e indiferente ao outro. Para que eu me sentisse sexualmente feliz, sempre foi necessário, na falta de amor, um mínimo de simpatia, estima, compreensão mútua”.

A prosa de Houellebecq é, todo tempo, isso: o negativismo diante do mundo versus a busca pela felicidade, brutalmente encontrada no sexo. O mais interessante é perceber como ele utiliza o erotismo (não apenas ele) para questionar o próprio destino do homem, dando ao caráter erótico de seus romances uma função muito mais interessante e profunda do que a grande parte dos escritores contemporâneos que o exploram.

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(Escrevi este texto como um rascunho de um outro projeto que não pude levar adiante por pura falta de tempo. Resolvi, no entanto, publicá-lo aqui do jeito que está. Quem sabe um dia eu estudo tudo isso aí mais criteriosamente. Porque merece).

A Elegância do Ouriço, Muriel Barbery

A elegância do ouriçoÉ preciso abrir “A Elegância do Ouriço”, de Muriel Barbery, sem preconceitos. Quem lê alguma sinopse já pode ficar com um pé atrás. A história se passa em um prédio residencial muito tradicional de Paris, habitado por famílias milionárias. Ali, concentram-se todo o tipo de gente: um crítico gastronômico esnobe, um ministro do governo francês, uma socialite, uma jovem que deseja tornar-se veterinária. E neste pequeno universo destacam-se Renée, a zeladora do prédio, e Paloma, uma menina de 12 anos. São elas as narradoras do livro.

Renée é uma senhora de 54 anos que trabalha no prédio há quase três décadas. Viúva, ela faz questão de passar despercebida pelos moradores por um pequeno-grande detalhe: ela não é a zeladora que a alta burguesia parisiense espera. Renée ama arte e sabe tudo sobre artes plásticas, literatura russa, música clássica, filosofia, cinema japonês. Consome, em termos artísticos, a cultura que os moradores deveriam apreciar. A outra narradora, Paloma, odeia sua família por achar seus pais (um ministro e uma doutora em letras que vive para gastar dinheiro) e sua irmã mais velha (uma estudante de filosofia) fúteis demais, completamente desinteressados pelo o que se passa no resto do mundo. É uma pré-adolescente calada, porém cheia de ideias – as quais prontamente anota em seu diário – e apaixonada pela cultura japonesa. A vida de ambas muda com a chegada de um novo morador, o Sr. Ozu.

À primeira vista, o leitor – esse que lê com preconceitos – pode pensar: como uma mulher comum, pobre e sem estudo pode saber tanto, e falar com tanta eloquência, sobre filosofia, sobre Tolstoi, sobre cinema japonês? E como uma menina de 12 anos pode ser tão inteligente, tão perspicaz? Esse pensamento pode ser corroborado por algo que considero uma falha no romance de Barbery – não há diferença entre a voz narrativa de Renée e de Paloma. O leitor percebe quem narra o quê apenas pelo contexto da história. Não é nenhum empecilho para a fluidez do livro e, embora as personagens se revelem muito parecidas, são pessoas diferentes, logo, com vozes diferentes (algo que Pamuk, por exemplo, faz muito bem em seus romances com múltiplos narradores, como em “Meu Nome é Vermelho” e “A Casa do Silêncio”).

No entanto, é preciso entender que Barbery nos transporta para a sociedade francesa atual, com seus problemas sociais e econômicos. A autora assume o papel de crítica social e mostra, em um pequeno espaço, um bando de gente rica, mas mesquinha, hipócrita, vazia. Ao passo que a zeladora e a garota são grandes observadoras do mundo que as cerca, capazes de perceber a realidade em que vivem e filosofar sobre ele. “A Elegância do Ouriço” é um romance filosófico ao alcance de qualquer leitor disposto a compartilhar com Barbery sua visão de mundo.

Barbery faz, ainda, uma bela homenagem à cultura japonesa. Renée e Paloma amam tudo relacionado ao país e têm suas vidas transformadas com a chegada do Sr. Ozu. A autora, no entanto, vai além em sua homenagem. A linguagem de “A Elegância do Ouriço” é repleta da melancolia, do silêncio e da sabedoria inerentes à literatura e ao cinema japonês. É algo realmente muito bonito.

“A Elegância do Ouriço” é daqueles livros em que o leitor sublinha vários trechos marcantes, capazes de levar às lágrimas os mais sensíveis e emotivos. E talvez este seja o motivo pelo o qual o romance tornou-se um grande sucesso editorial – e não apenas na França. Espero que todos tenham compreendido que é preciso enxergar, sempre, a elegância do ouriço.

“Viver, morrer: são apenas consequências daquilo que se construiu. O que conta é construir bem”.

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A Elegância do Ouriço

Muriel Barbey

Companhia das Letras

Tradução: Rosa Freire D’Aguiar

Em Busca do Tempo Perdido – volume 2 – À Sombra das Raparigas em Flor, Marcel Proust

à sombra das raparigas em flor proustSe boa parte de “No Caminho de Swann”, primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, gira em torno do relacionamento entre Swann e Odette, “À Sombra das Raparigas em Flor”, segundo volume da obra de Proust, traz em seu foco o herói/narrador do romance.  No primeiro volume, temos um Marcel frágil e doente, altamente dependente de sua mãe. No segundo, embora essas características ainda lhe sejam inerentes, o leitor depara-se com o início de mudanças no protagonista, marcadas por uma série de experiências por ele vividas. A ingenuidade do herói permanece, todavia, seu mundo ganha mais cores.

“À Sombra das Raparigas em Flor” é dividido em duas partes. Na primeira, Em torno da Sra. Swann, o narrador descreve seu relacionamento com Gilberte, filha de Swann e Odette. Ele vive seu primeiro amor. Tudo em Gilberte é maravilhoso: seu rosto, seus cabelos, sua delicadeza, sua conduta. Resta ao jovem nada mais do que idolatrá-la.

Em Nome de terras: a terra, o protagonista viaja com a avó até a praia de Balbec. A viagem é repleta de descobertas, que culminam com o encontro de um bando de “raparigas em flor”, as quais despertam no herói intensas sensações. Entre elas, está Albertine, por quem ele se apaixona. Em Balbec, ele também inicia amizade (que lhes serão caras) com o jovem aristocrata Robert de Saint-Loup e com o talentoso pintor Elstir.

Há diversos pontos que se destacam em “À Sombra das Raparigas em Flor”:

A perda da inocência do herói: o protagonista está sempre em busca do ideal. Ele deseja a mulher ideal, os amigos ideais, as viagens ideais. Porém, ele começa a perceber que, quase sempre, há uma grande diferença entre aquilo que imaginamos e desejamos e aquilo que, de fato, acontece. Diversas passagens exemplificam isto – o encontro com Bergotte, seu escritor favorito, o qual se revela um homem bastante simples, distante de toda a riqueza de sua literatura; a percepção da real personalidade de Gilberte; a tão sonhada ida a Balbec, que, ao invés da mais bela cidade litorânea, é uma cidade turística como outra qualquer.

As mulheres: à exceção da mãe e da avó do narrador (que são o exemplo de mulher ideal), todas as mulheres do romance aparecem como seres manipuladores, ardilosos e perspicazes. Elas estão, o tempo todo, brincando, seduzindo, controlando os sentimentos dos homens ao redor. Eles, por sua vez, permanecem passivos. Basta observar o relacionamento entre Swann e Odette, Marcel e Gilberte, Marcel e Albertine, Saint-Loup e sua amante.

A fixação por Odette: ela é uma das personagens mais enigmáticas (talvez de toda a literatura). Os homens a desejam, as mulheres a odeiam. O protagonista não escapa do fascínio exercido pela Sra. Swann. Quando começa a frequentar a casa dos Swann, ele é cativado por sua personalidade forte é a ela que ele dedica grande parte de sua atenção.

As falhas do herói: o protagonista está longe de ser um herói ideal. Ele próprio afirma ser egoísta e tímido. Além disso, é altamente dependente da avó e da mãe (a quem escreve todos os dias durante a estada em Balbec). Em diversos casos, ele mente para atingir seus objetivos. Por exemplo, ele mente para Andrée – a mais simpática das raparigas – para se aproximar de Albertine.

É claro que o fluxo de consciência é constante, como acontece em toda a obra proustiana. O narrador busca em suas memórias o sentido para a vida – algum sentido para a sua vida. O que nos leva a sonhar? O que nos leva a desejar? O que nos leva a amar uma pessoa e a não amá-la mais? O que muda nossas convicções? Ao relembrar e repensar sua vida, o protagonista busca respostas para essas perguntas. O que a memória daquilo que somos hoje nos revelará?

“Mas a felicidade é coisa irrealizável. Se conseguimos dominar as circunstâncias, a natureza transporta a luta de fora para dentro, e pouco a pouco vai fazendo mudar o nosso coração até que deseje outra coisa diversa de que vai possuir. Se foi tão rápida a peripécia que nosso coração não teve tempo de mudar, nem por isso perde a natureza a esperança de vencer-nos, mais longamente, na verdade, mas de maneira mais sutil e eficaz. Então, no derradeiro momento, a posse da felicidade nos escapa, ou melhor, a essa mesma posse encarrega a natureza, com argúcia diabólica, de destruir a nossa felicidade. Pois, vendo-se vencida no campo dos fatos da vida, cria agora a natureza uma impossibilidade final, a impossibilidade psicológica da felicidade. O fenômeno da ventura ou não se produz, ou dá lugar a amarguíssimas reações”.

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Em Busca do Tempo Perdido – Volume 2 – À Sombra das Raparigas em Flor

Marcel Proust

Biblioteca Azul

Tradução: Mario Quintana

Zazie no Metrô, Raymond Queneau

zazie-no-metro_Publicado em 1959, “Zazie no Metrô”, do francês Raymond Queneau, tornou-se um sucesso de crítica e de público. As razões são as mais variadas: a inovação linguística, o retrato de uma Paris pouco conhecida, uma heroína e personagens nada convencionais. É uma história tão singela, tão pitoresca e que, ao mesmo tempo, revela muito sobre o pensamento e o comportamento da Paris dos anos 1950.

Zazie é uma menina de 12 anos que vai passar alguns dias em Paris, na casa de seu Tio Gabriel. Lá ela só tem um desejo: andar de metrô. Porém, as linhas de metrô estão em greve. A menina não se conforma com a greve, muito menos com os programas sugeridos pelo tio e foge de casa na esperança de conseguir, de algum modo, andar de metrô. Então, ela se mete em altas confusões. Sim, o livro tem um quê de filme de Sessão da Tarde.

Mas “Zazie no Metrô” é muito mais profundo e emblemático. Em primeiro lugar por causa da própria Zazie. Ela é uma garota que já viveu muito mais do que a maioria das meninas desta idade vivem (contar aqui as aventuras e desventuras de Zazie é estragar as surpresas do livro). Ela é desbocada, fala palavrões, não tem respeito algum por pessoas mais velhas apenas porque são mais velhas. Sua mãe não faz muita questão de esconder sua vida amorosa; seu tio Gabriel é dançarino de cabaré. A Zazie me lembra Alice. Sua chegada a Paris é igual a chegada de Alice no país das maravilhas. Ambas encontram personagens que podem ser perigosas, mas com quem travam conversas filosóficas, com quem debatem sobre a vida. E fica, claro, a cargo do leitor perceber a profundidade de cada uma dessas passagens.

O livro é repleto de neologismos, de palavras escritas de acordo com sua fonética. Com isso, Queneau leva os leitores para um lugar mais próximo da língua falada, ou seja, a junção do texto com a língua falada transporta o leitor para mais perto da realidade daquela Paris que Zazie conhece. E não é, a princípio, a Paris dos turistas (o próprio tio de Zazie desconhece os pontos turísticos).  É a Paris dos subúrbios, de gente comum – o tio dançarino, o motorista de táxi, o sapateiro, a viúva.

“Zazie no Metrô” consegue falar de temas difíceis e retratar temas difíceis, como pedofilia, homicídios, homossexualidade de uma maneira leve e divertida. O leitor diverte-se, sim, com as aventuras de Zazie. No final, porém, é obrigado a se dar conta de que não é uma vida exatamente divertida. A fala final da garota, quando a mãe pergunta o que ela fez em Paris, resume todo o peso deste livro.

Uma observação: que maravilhoso esse projeto gráfico da CosacNaify para “Zazie no Metrô”. Como sempre, a editora publicando livros que a gente faz questão de ter na estante (daí a minha resistência com os e-books).

“ – O ser ou o nada, eis o problema. Subir, descer, ir vir, tanto faz o homem que por fim ele morre. Um táxi o leva, um metrô o transporá, a torre não presta atenção nele, nem o Panthéon. Paris não passa de um devaneio, Gabriel não passa de um sonho (sedutor), Zazie o devaneio de um sonho (ou de um pesadelo) e toda essa história de devaneio de um devaneio, o sonho de um sonho, pouco mais que um delírio batido à máquina por um romancista idiota (ai! Desculpa)”.

 

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Zazie no Metrô

Raymond Queneau

CosacNaify

Tradução: Paulo Werneck

O Encantador – Nabokov e a Felicidade, Lila Azam Zanganeh

o encantador nabokov e a felicidadeQuando Vladimir Nabokov morreu, Lila Azam Zanganeh tinha somente 10 meses de idade. Mas a morte, de alguma maneira mágica que não precisa de explicação, não separou os dois. Durante sua adolescência, a jovem francesa descobriu os controversos livros de um dos nomes mais expressivos da literatura norte-americana do século XX. E, desde então, não se separaram mais. Lila desenvolveu uma verdadeira obsessão pelo escritor. Tornou-se profunda conhecedora de sua obra e de sua vida. E reuniu seus conhecimentos em um livro instigante: O Encantador – Nabokov e a Felicidade.

Em uma mistura de biografia, ensaio, crítica literária e ficção, Lila reconstrói a história de Nabokov. Fala de sua infância na Rússia, seus relacionamentos amorosos, seu casamento, sua vida de país em país, sua obsessão por borboletas e, claro, seus livros. Cada capítulo traz uma ideia de felicidade presente nas obras de Nabokov, algo que, segundo a autora, praticamente não foi explorado por nenhum crítico ou estudioso do escritor, que preferiam abordar os temas mais sórdidos da obra nabokoviana.

A estrutura de O Encantador – Nabokov e a Felicidade é algo inovador e bastante interessante. Em um dos capítulos, Lila apresenta um desenho que representa para ela uma determinada cena de livros como “Lolita” e “Ada ou Ardor”. Em outro, ela publica sua entrevista com o autor – entrevista que aconteceu, obviamente, apenas em sua imaginação, porém que revela muito sobre a obra e as preferências de Nabokov. Esses são apenas alguns exemplos. Talvez Lila se torne alvo de críticas de acadêmicos chatos, que acreditam que o conhecimento deve permanecer apenas na academia. Eu acredito que Lila levou o gênero ensaio para mais perto de público. E foi além: trouxe Nabokov de volta à vida, mostrou que ele é muito mais do que “Lolita” e suas polêmicas.

Mesmo que o leitor pouco ou nada conheça sobre a obra nabokoviana, a leitura de O Encantador – Nabokov e a Felicidade vale a pena. Isso porque o livro é, também, uma homenagem a nós, leitores. “Lemos para reencantar o mundo”, Lila escreve logo nas primeiras páginas. E não é verdade? Toda vez que abrimos um livro novo estamos entrando em um novo mundo e reencantando, de algum modo, o nosso. Parece meio ingênuo dizer isso, mas acho que ler nunca pode se tornar uma ação mecânica. A leitura deve ser um momento mágico, sempre. Lila nos lembra disso. E acredito que o mundo precisa de pessoas assim.

Por fim, quero dizer que realmente entendo a paixão e a obsessão de Lila por Nabokov. Entendo quando ela diz que ele está presente em sua vida, quando ela afirma perceber, em vários momentos do seu dia, algo que lembre o escritor, quando ela conta que passou a se interessar pelas mesmas coisas que ele. Realmente entendo isso. Talvez haja que ache toda essa paixão um exagero. Eu não. E, realmente, finalizei a leitura de O Encantador – Nabokov e a Felicidade com um sorriso no rosto, acreditando um pouco mais nas pequenas sutilezas da vida.

“E embora nada de mais possa ser visto através da bruma, há a bem-aventurada sensação de que se está a olhar na direção correta.

Agora, imagine esse rastro de luz”.

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O Encantador – Nabokov e a Felicidade

Lila Azam Zanganeh

Editora Alfaguara

Tradução: José Luis Passos

Em Busca do Tempo Perdido – Volume 1: No Caminho de Swann, Marcel Proust

no-caminho-de-swannMarcel Proust, o menino de saúde frágil, desejava escrever. Sempre desejou. Deixou para a literatura apenas uma obra que entrou para a história (seus outros dois livros ficaram em segundo plano): Em Busca do Tempo Perdido. E Proust viveu para escrever. Vivia enclausurado para melhor se concentrar em seu romance. Morreu jovem, de pneumonia. Os três últimos volumes de Em Busca do Tempo Perdido foram publicados depois de sua morte.

O tempo, como se pode imaginar, é o tema constante nos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido. Através dele, das lembranças de diversos momentos, o narrador –Marcel – encontra sua própria identidade. Meditando sobre acontecimentos passados, ele entende suas próprias transformações, bem como as daqueles que fizeram parte de sua vida.

Bem, tudo isso é uma pincelada da obra de Proust, autor pelo qual estou cada vez mais obcecada. Mas falemos do primeiro volume do Em Busca do Tempo Perdido. “No Caminho de Swann” é dividido em três partes. Na primeira, “Combray”, o narrador se lembra de diversas situações de sua infância: sua relação de extrema dependência para com sua mãe, a presença de Charles Swann, amigo da família, em sua casa, a descoberta do prazer da leitura. É nesta parte em que encontramos uma das passagens mais emblemáticas da literatura: o protagonista, ao mergulhar sua madeleine em uma xícara de chá, relembra sua infância na cidade de Combray. Na segunda, “Um Amor de Swann”, o narrador conta a saga de Swann e sua obsessão por Odette. Aqui, o autor analisa o amor e o ciúme de maneira bastante pungente. Por fim, na terceira, “Nome de Terras: O Nome”, o protagonista imagina as viagens de seus sonhos e descobre sua primeira paixão – Gilberte, filha de Swann.

Há muito em comum entre a obra de Proust e os estudos de Freud. E é isso o que me fascina. Embora sejam contemporâneos, não tiveram contato entre si. No entanto, toda vez que mencionei que o narrador lembra algo, não significa que ele traga sua lembrança à tona voluntariamente. Ele cede espaço para que o inconsciente possa expressar aquilo que, de algum modo, marcou um período. A voz da primeira pessoa de Em Busca do Tempo Perdido é como a voz de quem se deita no divã e começa a falar (aprendi com a minha psicanalista que cada um fala em seu ritmo próprio, não em ordem cronológica, mas na ordem do nosso inconsciente).

É preciso dizer também que Proust tocou em temas considerados tabus na França do século XIX. Além das críticas ao modo de viver da elite francesa, o homossexualismo é sempre presente. Odette, por exemplo, é uma mulher que, para figurar na alta sociedade, envolve-se com diversos homens e mulheres.

Ainda há seis volumes para descobrir. Porém, uma coisa é clara: buscar o tempo perdido é entender que é possível viver e reviver quantas vezes forem necessárias. É possível voltar à infância. É possível, inclusive, contar acontecimentos nos quais não estivemos presente – como o narrador faz com a história de Swann e Odette, construída a partir do que a ele foi contado. Buscar esse tempo perdido é encontrar a si próprio nos mais diversos períodos.

“Talvez o nada é que seja verdade e todo nosso sonho não exista, mas sentimos que então essas frases musicais, essas noções que existem em função do sonho, não hão de ser nada, tampouco. Pereceremos, mas temos como reféns essas divinas cativas que seguirão a nossa sorte. E a morte com elas tem alguma coisa de menos amargo, de menos inglório, de menos possível, talvez”.

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Em Busca do Tempo Perdido – Volume 1: No Caminho de Swann

Marcel Proust

Editora Biblioteca Azul

Tradução: Mario Quintana