literatura japonesa

Beleza e Tristeza, Yasunari Kawabata

beleza e tristeza yasunari kawabataÉ impossível ler Beleza e Tristeza, último romance de Yasunari Kawabata, e não sentir um certo tipo de incômodo. E era exatamente isso que o autor, prêmio Nobel de Literatura em 1968, desejava neste seu derradeiro livro. Afinal, tudo na obra conduz o leitor para essa sensação – o enredo, as personagens, a simplicidade da narrativa de Kawabata e todas as discussões sobre arte e sobre a vida levantadas na obra.

O enredo

Beleza e Tristeza narra a história de Oki Toshio, um escritor que na noite de Ano Novo viaja a Kyoto para encontrar sua antiga amante, a pintora Otoko Ueno. Eles se conheceram décadas atrás, quando Otoko era adolescente, e viveram um caso extraconjugal do qual ela nunca se recuperou. O encontro, apesar de rápido e superficial, faz reviver em ambos questões do passado jamais resolvidas. Ao ver a agonia de Otoko, sua aprendiz e amante, a jovem Keiko Sakami, tece um plano de vingança: seduzir Oki e seu filho Taichiro e, assim, acabar com a paz da família do escritor.

As personagens

As personagens de Beleza e Tristeza estão ligadas às artes. Oki é um escritor que alcançou sucesso a partir de um romance baseado em sua história com Otoko. Ela, por sua vez, é uma renomada pintora de temas tradicionais. É por meio da arte que ambos lidam com o sofrimento do amor mal resolvido. Durante o rápido encontro na noite de Ano Novo, Oki e Otoko não são capazes de expressar a dor e o sofrimento que carregam em si. São personagens de poucas palavras, que pouco se comunicam pela via do dito. Utilizam, para tal, a arte.

Pouco se revela sobre as duas figuras centrais de Beleza e Tristeza. Oki e Otoko podem ser desvendados em doses sutis, sobretudo, por meio do que se diz sobre a produção artística de ambos. E não se diz muito. São as personagens secundárias, contudo, que trazem alguma ação ao romance de Kawabata. A mais marcante é, sem dúvida, Keiko. Ela é a principal responsável pelos conflitos da obra, seja em seu relacionamento com Otoko, seja na relação com Oki e Taichiro, a qual tem como objetivo vingar o sofrimento de sua mestre. Destaca-se, ainda, o papel de Fumiko, esposa de Oki. Ela traz em si todos os conflitos sociais da trama ao encarnar a esposa traída e humilhada. Ao mesmo tempo em que exige do marido explicações, Fumiko resigna-se a seu papel de mulher ao permanecer fiel a Oki, atuando, inclusive, como revisora de seus livros.

A narrativa de Kawabata

Embora Keiko e Fumiko tragam alguma ação à trama, é a passividade de Oki e Otoko o ponto mais alto de Beleza e Tristeza. Não há como voltar no tempo e o drama do casal permanecerá. A narrativa de Kawabata concentra-se em mostrar a contemplação da realidade, da história que não mudará.

Neste contexto, a descrição de paisagens, lugares, bem como das telas de Otoko, é bastante delicada e traz no leitor justamente uma sensação de melancolia, mas também de beleza. Todo o tempo, o leitor tem a sensação de que está diante de um cenário sempre muito triste, mas sempre muito belo . Chegar ao estado de contemplação do enredo e da narrativa de Kawabata é fácil, afinal, Kawabata é um escritor muito sensorial, assim como quase tudo o que conheço da literatura japonesa.

Beleza e tristeza na arte e na vida

Em Beleza e Tristeza, Kawabata traz uma reflexão sobre o papel das artes. Em tempos em que se procura por conforto em tudo, Kawabata nos lembra que uma das funções da arte é provocar, de algum modo, algum certo tipo de incômodo. Ela deve levar as pessoas a pensar em algo, a sentir algo. Muitas vezes, o incômodo surge por meio de uma estética apresentada fora dos padrões. O feio pode estar presente, mesmo que seja para nos lembrar o que é, de fato, belo.

José Teixeira Coelho Netto apresenta no prefácio da edição brasileira de Beleza e Tristeza a ideia de que a beleza, como se sabe, sempre foi uma questão importante na cultura japonesa, que prega que se deve saber enxergar a beleza exatamente em tudo:

(…) a beleza da natureza (à qual pertence a bela mulher, tanto quanto pertence ela ao mundo da cultura), beleza dos sentimentos, beleza da reflexão, beleza da vida e beleza da morte, beleza de encontrar forças para continuar vivendo e beleza de encontrar forças para o suicídio e no suicídio; beleza da arte e beleza do erotismo e beleza do sexo, a beleza do pescoço longo e alvo da mulher amada e a beleza da navalha que por um instante se cogita de mergulhar naquela carne sedosa por nenhuma outra razão além daquela quase exigida por essa mesma carne ou pelo ato em si…

Talvez esteja nisso, na contemplação do belo em qualquer situação, a principal contribuição deste livro, da obra de Kawabata e da cultura japonesa.

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1Q84 (Livro 3), Haruki Murakami

1Q84-Livro-3Os fãs de Haruki Murakami esperavam ansiosamente o volume final da trilogia 1Q84, que chegou às livrarias em dezembro. Afinal, é praticamente impossível adentrar ao universo paralelo criado pelo escritor japonês e não desejar entender os seus mistérios e significados. Então, é com voracidade que o leitor devora as páginas da última parte da trilogia.

Retomando a história: faz 20 anos que Tengo e Aomame não se veem, desde que estudaram juntos até a 4ª série. Ele é professor de matemática e aspirante a escritor. Ela, instrutora em uma academia. Tengo assume a tarefa de reescrever o livro “Crisálida de Ar”, de autoria de uma jovem de 17 anos que, a princípio, é só uma adolescente confusa. Aomame também desenvolve uma atividade paralela – é uma espécie de assassina de aluguel, protegida por uma senhora milionária. Por 20 anos, a vida de ambos corre paralela, sem qualquer ligação, até que a publicação de “Crisálida de Ar” e uma missão assumida por Aomame tornam a unir, mesmo que não fisicamente, a história dos dois protagonistas.

O livro 2 termina cheio de perguntas. No último volume, a entrada de um personagem, o detetive Ushikawa, dá a impressão de que muitos dos mistérios serão esclarecidos. Porém, não é o que acontece. Nesta última parte, Murakami concentra-se para conseguir um modo minimamente plausível para unir Aomame e Tengo. E aí todo o resto fica meio jogado, meio abandonado. Além disso, o autor adiciona certos elementos completamente sem sentido e sem necessidade (como o cobrador da NHK que bate à porta de Aomame, Tengo e Ushikawa).

O que tornava a leitura de 1Q84 agradável eram o ritmo do livro e os mistérios do universo paralelo criado por Murakami. Era este mundo à parte que trazia algo diferente e envolvente. Difícil acreditar que o interesse maior da história seja o casal protagonista. Eles são interessantes a medida em que suas trajetórias estão conectadas pelo mundo 1Q84. No livro 3, porém, o que mais vale é a história de amor de Tengo e Aomame.

A última parte da trilogia decepciona ainda mais porque são diversos os fatores do mundo 1Q84 que ficam sem explicação. Resumindo, parece que o autor perdeu seu poder narrativo: o ritmo desanda, há muita coisa que se repete e tantas outras que simplesmente “ficam no ar”.

No fim das contas, 1Q84 parece um episódio de programas como Arquivo-X, só que mal sucedido. Quem acompanhou a série sabe que as criaturas inusitadas (como o platelminto gigante – nem era platelminto, mas ok) e a toda a trama de invasão alienígena sempre foi muito mais interessante do que a história de amor entre Mulder e Sculy e que eles tornaram-se personagens interessantes e com novas nuances conforme o desenrolar da série. O mesmo vale aqui no livro de Murakami. Quando o romance passou a focar muito mais no casal de protagonistas, 1Q84 perdeu o encanto.

P.S.1: Desculpem a comparação com o Arquivo-X! Acabei de rever as nove temporadas!

P.S 2: Agora o blog tem página no Facebook! Curtam!

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1Q84 (livro 3)

Haruki Murakami

Alfaguara

Tradução: Lika Hashimoto

Do que eu falo quando eu falo de corrida, Haruki Murakami

do que eu falo quando eu falo de corrida haruki murakamiNo começo dos anos 80, o hoje badalado Haruki Murakami toma uma decisão que mudaria toda a sua vida: ele vende seu bar de jazz nos arredores de Tóquio para se dedicar à vida de escritor. E, para exercitar o corpo, Murakami começa a correr. Com o passar dos anos, ele se torna não apenas um dos mais importantes escritores de sua geração, mas também um grande corredor de longas distâncias. “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, publicado no Brasil em 2010 pela Alfaguara, traz as memórias do autor sobre seus anos de treino e de desafios a seu próprio corpo.

Já no início, Murakami adverte que o livro não se trata de um incentivo à corrida. Ele deseja apenas contar a história de como se tornou um corredor de maratonas. E contar histórias, seja a sua própria ou as que cria, é o grande mérito deste autor. Em “Do que eu falo quando eu falo de corrida” ele se revela uma pessoa determinada, focada em cumprir sua meta: correr ao menos uma maratona por ano.

O escritor detalha sua rotina de treinos, suas principais corridas, suas conquistas e, também, seus fracassos – afinal, nem sempre tudo dá certo na vida. Murakami deixa bastante claro que seu principal oponente é sempre ele próprio e que toda sua disciplina é usada para que ele possa superar seus próprios limites.

Disciplina é uma das palavras mais fortes da cultura oriental e é o que mais admiro em meus ascendentes japoneses. Já falei aqui que não vejo nada de genial na literatura de Murakami. E é verdade. No entanto, o admiro porque sei que sua disciplina e determinação fazem com que ele se concentre em criar e contar suas histórias, entregando ao público um trabalho cativante, envolvente e que conquistou milhões de fãs pelo mundo.

Em “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, Murakami se revela um corredor e um escritor honesto. Embora suas memórias estejam longe de soar como autoajuda ou como um Paulo Coelho da vida, é impossível não se inspirar e se sentir tentado a começar a correr. Ou a ter um pouquinho mais de coragem e disposição para vencer seus próprios limites.

“Em toda parte você encontrará sugestões de silêncio, em toda parte uma surpresa espera por você”.

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Do que eu falo quando eu falo de corrida

Haruki Murakami

Alfaguara

Tradução: Cássio de Arantes Leite

1Q84 (Livro 1 e Livro 2), Haruki Murakami

De vez em quando, a cabeça cansa, a alma cansa mais ainda e tudo o que você precisa é de uma boa literatura de entretenimento. Se este também é o seu caso, recomendo “1Q84”, livro do badalado japonês Haruki Murakami, publicado em três volumes. Aqui no Brasil, já foram publicados dois pela Alfaguara (esperamos o último, dona Alfaguara!).

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A trama conta duas histórias paralelas acontecidas no ano de 1984 – fazendo, claro, menção ao “1984” de George Orwell: a  história de Aomane, uma professora de artes marciais e assassina nas horas vagas, e de Tengo, professor de matemática e escritor frustrado.  Tengo recebe uma proposta de trabalho de gosto muito duvidoso – reescrever o livro “Crisálida de Ar”, da jovem Fukaeri. É a partir daí que se entende que as histórias de Aomane e Tengo irão se cruzar e que, juntos, os dois têm uma missão muito importante no mundo de 1984.

“1Q84” tem de tudo: ficção científica, amor, artes marciais, fanatismo religioso. E o ponto alto é justamente a história, que deixa você MUITO curioso para descobrir, por exemplo, que diabos é a tal crisálida de ar. Quando o Livro 1 termina, você quer logo ler o 2. Tenho observado muitas pessoas (passeando nas livrarias e cafés da cidade) lendo e fazendo comentários positivos sobre o livro. E, pelo o pouco que pesquisei, ao redor do mundo esta obra é um grande sucesso editorial. Acho isso super positivo quando acontece com um livro que não é o “50 Tons de Cinza” nem suas imitações.

Leitores mais atentos, no entanto, podem reparar vários furos na história e vários trechos repetitivos. Alguns personagens são bem óbvios, mas os dois protagonistas são bem interessantes, principalmente Aomane, uma espécie de Lisbeth Salander do Japão dos anos 80 (sei lá, eu lembrei da Lisbeth).

Sinceramente, não entendo o porquê de tanta badalação para cima do Murakami. Dele, também li o “Minha Querida Sputnik”, um livro bonito, mas ok, nada demais. Nunca vi nada de genial dele. Enfim, Murakami é pop e está aproveitando o seu momento.

Mas “1Q84” é um livro fácil, gostoso e divertido de ler, bom mesmo para descansar a mente. Não vejo a hora de sair o terceiro volume para ver como toda a história irá acabar.

“Se você ama, ainda que uma única pessoa, de verdade, a vida vale a pena. Mesmo que você não fique com ela” (pág. 270 – Livro 1).

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1Q84

Haruki Murakami

Editora Alfaguara

Tradução: Lica Hashimoto