Michel Houellebecq

Extensão do Domínio da Luta, Michel Houellebecq

extensão do domínio da lutaNem sempre a biografia de um escritor diz respeito à sua obra. Contudo, creio que isso não se aplique ao francês Michel Houellebecq (e, se você não ouviu falar dele, prepare-se para 2015*).  Houellebecq é como seus protagonistas: solitário, pessimista, depressivo e capaz de mostrar o pior do mundo e da humanidade, mesmo quando deseja acreditar em um dos dois ou em ambos.

Extensão do Domínio da Luta é o primeiro romance de Houellebecq e já trazia sinais do que viria nos livros futuros. Nele, Marcel, o protagonista, é um engenheiro de informática que começa a prestar uns serviços para o Ministério da Agricultura da França. Apesar de a profissão dar uma ideia de um homem bem sucedido, o protagonista revela ser um homem infeliz, solitário, misógino, com um único objetivo: provar a impossibilidade das relações humanas – o que, penso eu, Houellebecq tenta provar em todos os seus livros.

E ao longo da narrativa o leitor quase se convence de que o mundo é mesmo um lugar terrível  e que nada vale muito a pena. O protagonista narra seu dia a dia em seu ambiente profissional ao mesmo tempo em que mostra a mediocridade do homem e de sua existência – seja pela incapacidade de conquistar uma bela mulher, pelo convívio com pessoas mesquinhas, pela inutilidade daquilo que fazemos profissionalmente, pela manipulação da mídia e da publicidade. E essa lista continua, acreditem.

O protagonista de Extensão do Domínio da Luta e o próprio Houellebecq têm em comum a capacidade de olhar o mundo quase que de fora dele e apontar o dedo para tudo aquilo que há de podre nele. Doa a quem doer. Neste livro em questão, o autor é até suave em comparação com o que estava por vir. Nos demais, Houellebecq falará abertamente sobre política e economia (francesa e mundial), religião, feminismo, cultura pop e compra briga com muita gente (mas já estou adiantando cenas dos próximos capítulos). E, embora o livro tenha esse quê de pessimista, não há como negar que ele é repleto de bom humor. No entanto, é como aquela piada da qual a gente sabe que não deveria rir, mas ri do mesmo jeito.

Extensão do Domínio da Luta foi publicado nos anos 90, mas é bem atual. Isso porque Houellebecq é como uma “antena do mundo”, captando antes de todos aquilo que vai acontecer – quer exemplo melhor do que Plataforma**? Já naquela época, a sociedade capitalista apontava para o individualismo sem medida que vivemos hoje, marcado por selfies, felicidade forjada nas redes sociais, etc, etc.  E aí você lê Extensão do Domínio da Luta ou qualquer outro romance de Houellebecq e volta para a realidade. Ou se lembra de que há um mundo fora daquela redoma que costumamos construir ao nosso redor. Em tempos de felicidade exacerbada e nem sempre real, é importante pensar na vida a partir de um ponto de vista completamente oposto ao que estamos expostos.

Ou seja, quer gostem, quer não, Houellebecq é um escritor necessário nesse mundo em que vivemos. E é genial no que faz.


 

* Houellebecq lança agora no começo de 2015 seu novo romance, “Soumission”. Segundo essa entrevista aqui ao Correio do Povo, o livro vai botar fogo na França. A história se passará em 2022, quando o Partido dos Muçulmanos vencerá a eleição presidencial francesa. Na mesma entrevista, o autor diz ter a certeza de que será o próximo francês Nobel de Literatura (eu amo o Houellebecq e, a essa altura, já não consigo mais esconder isso).

 

** Em Plataforma,  publicado em 2001, uma das grandes questões são os ataques terroristas provocados por fundamentalistas islâmicos, algo que, como sabemos, atingiu o ápice com o atentado às Torres Gêmeas e está na pauta até hoje. Bem, e antes, lá estava Houellebecq antecipando tudo isso.

 

 

O erotismo na prosa de Michel Houellebecq

michel houellebecqNão são muitos os romances do francês Michel Houellebecq: “Extensão do domínio da luta” (1994); “Partículas elementares” (1998); “Plataforma” (2000); “A possibilidade de uma ilha” (2005) e “O mapa e o território” (2010). Em todos eles, Houellebecq trabalha com a mesma temática: a miséria da existência humana. Suas personagens, de modo geral, conseguem enxergar a mediocridade do mundo, a fragilidade das relações humanas e o vazio de suas vidas – as quais, em um contexto capitalista, poderiam ser consideradas de grande êxito.

Onde estaria, então, o prazer de viver? As personagens de Houellebecq o buscam, sobretudo, no sexo.  Os romances do escritor são repletos de erotismo. As cenas de sexo, e são muitas, são bastante explícitas – há, inclusive, quem considere os livros do autor pornográficos. Contudo, enquanto a indústria da pornografia existe para lucrar propiciando, de algum modo, prazer para seu público, a obra literária de Houellebecq está mais interessada em mostrar o sexo como uma espécie de fonte da felicidade, ainda que momentânea, e, principalmente, como uma maneira de buscar, também momentaneamente, alguma verdade e algum significado nas relações humanas.

Tomemos como exemplo “A possibilidade de uma ilha”.  Neste livro, o protagonista é Daniel 1, um humorista de meia-idade que alcança o status de celebridade respeitada no mundo intelectual, além de milhões de euros, com espetáculos politicamente incorretos, com títulos provocantes, como “Chupe minha Faixa de Gaza (meu colono judeu gorducho)”. Daniel é, contudo, um sujeito extremamente solitário, que age como se fosse capaz de compreender o mundo de um modo superior a todos os outros, e nele não enxerga nenhum tipo de redenção. Mesmo sem acreditar na raça humana, o comediante apaixona-se. Primeiramente por Isabelle, editora de uma revista para adolescentes, tão mordaz quanto o protagonista. Depois, por Esther, jovem aspirante à atriz e que vive dividida entre sua carreira e uma vida sem compromissos.

Torna-se interessante notar o quanto a vida sexual de Daniel com ambas as mulheres serve de indicativo para sua própria felicidade. O casamento com Isabelle existe e é feliz (ou, ao menos, pacífico) à medida que o sexo é presente. Quando ela para de sentir prazer e, consequentemente, desejo, ele volta a sentir toda a descrença na humanidade e em qualquer possibilidade de felicidade para si próprio.

Daniel sai, então, de um casamento sem sexo para um caso baseado apenas em sexo. O relacionamento do comediante com Esther é meramente sexual. Eles pouco conversam entre si, quase nada sabem um da vida do outro. Conseguem, porém, ser felizes um ao lado do outro. A felicidade do protagonista é percebida na narrativa de sua vida com Esther. “Dez minutos depois, eu estava dentro dela, e estava bem. O milagre aconteceu de novo, tão forte como no primeiro dia, e eu pensei novamente, pela última vez, que ele duraria para sempre”.

O personagem pode entender a si próprio como este ser que depende de Esther e do prazer que ela pode lhe causar para ser feliz, confundindo o prazer do sexo (e da presença – física – de sua companheira) com a felicidade em si. Entretanto, uma leitura mais criteriosa pode mostrar que o sexo aparenta ser apenas um caminho, talvez aquele em que o protagonista melhor consiga se expressar, para procurar e alcançar seu bem-estar. Vale ressaltar que não estamos diante de um homem interessado apenas em sexo. Afinal, é o mesmo Daniel que afirma: “Nunca me senti perfeitamente confortável em uma relação baseada apenas na atração sexual e indiferente ao outro. Para que eu me sentisse sexualmente feliz, sempre foi necessário, na falta de amor, um mínimo de simpatia, estima, compreensão mútua”.

A prosa de Houellebecq é, todo tempo, isso: o negativismo diante do mundo versus a busca pela felicidade, brutalmente encontrada no sexo. O mais interessante é perceber como ele utiliza o erotismo (não apenas ele) para questionar o próprio destino do homem, dando ao caráter erótico de seus romances uma função muito mais interessante e profunda do que a grande parte dos escritores contemporâneos que o exploram.

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(Escrevi este texto como um rascunho de um outro projeto que não pude levar adiante por pura falta de tempo. Resolvi, no entanto, publicá-lo aqui do jeito que está. Quem sabe um dia eu estudo tudo isso aí mais criteriosamente. Porque merece).